3. Colegas de quarto

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Comi até esquecer que existia algum problema no mundo.

Depois de estar empanturrada, como não tinha mais nada para fazer além de desviar das turminhas e me fingir de sonsa dando sorrisinhos simpáticos para quem trocava uma ou duas palavras comigo. Decidi que essa era a hora de descobrir se existem quartos aqui, ou precisaremos dormir ao relento.

As cercas vivas realmente mexem, quando fiquei na frente dela, um buraco no formato de porta abriu.

Parei pouco tempo ao sair da festa, admirando o grandioso castelo de pedras alvas a minha frente, com detalhes de ouro por diversas partes, as janelas possuem vitrais coloridos representando cada um dos mais famosos contos de fadas. O jardim continua ao redor, fazendo um labirinto de terra pálida com flores e árvores de várias espécies, percebi um lago habitado por cisnes brancos mais a frente.

Empaquei hipnotizada querendo descobrir cada detalhe daquele lugar. Esse delírio acaba quando um gnomo cheio de terra chuta o meu pé.

— Está perdida menina esquisita? — pergunta com a voz grossa.

— Estou, mas não sou esquisita. — respondo segurando a parte dolorida.

— Parece, ou uma mentirosa tentando passar pelo que não é. — continua — Saía de cima da minha grama e irei te ajudar a se encontrar.

Sento num banco perto tendo o cuidado de não encostar em nenhuma planta.

— Quer saber onde fica a sala de embelezamento como as outras meninas?

— Não, só vou procurar os dormitórios.

— Então não posso ajudar, apenas a repartição do interior pode dar essas informações.

— Como você sabe onde fica a sala de beleza? — indago sem entender.

— Normalmente eu mando esse tipinho direto para o fosso do sofrimento agonizante.

— Nem precisava ter me agredido. — comento assustada.

— Isso foi para aprender a não parecer o que não é. Tenha um bom dia menina esquisita. — ele corre entrando num arbusto e se perde lá.

Que maluquice.

Nem me importo com o resto da paisagem, quando entro no castelo encontro um elfo que finalmente indica o lugar para onde devo ir. Subo cinco lances de escada tentando não distrair com qualquer coisinha vista de relance.

Chegando no corredor dos dormitórios femininos, precisei olhar em todas as portas até descobrir meu nome numa das últimas acompanhado do número cento e doze dourado. Pelo menos essa estava aberta.

O quarto é simples, paredes brancas e cinzas, quatro camas com armário, estante e escrivaninha embutida em cada uma. As bagagens estão ao lado delas, encontro as minhas na que ocupa o espaço perto da janela - pedi desculpas internas por julgar o homem azul. Me jogo no colchão mais macio que já senti na vida, era como ser engolida por nuvens de algodão doce. Por não ter dormido essa noite, nem demora para entrar num sono profundo.

PilipiplinPilipiplinPilipiplinPilipiplinPilipiplinPilipiplinPilipiplinPilipiplin

Esse barulho azucrinante estava tocando no meu ouvido, até que jogo a almofada nisso sem abrir os olhos.

— Finalmente a Bela Adormecida acordou. — alguém fala.

Levanto sentando e observo ao redor, três garotas estavam ali rindo, suponho que seja do meu sono, pois elas não parecem muito integradas. Wanda, minha prima estava deitada em sua própria cama. Aquela garota de cabelos coloridos do pronunciamento também está aqui. Na última, uma menina com madeixas douradas onduladas adornada por uma coroa, com olhos claros, cheia de babados e laços na roupa.

— Pensei que havia sido atingida por uma maldição. — grita uma fadinha rosa voando na frente do meu rosto — Ou tivesse comido uma maçã envenenada, são tantas possibilidades ruins.

— Sua fada é a mais chata de todas, não para de falar um minuto. — reclama a gótica — Sou Ivy, filha da bruxa mais influente da floresta.

— Sinto muito então, meu nome é Venus. — dou de ombros e apoio aquela criatura com asas na mão — Quem é você fadinha?

— Sou Pilipiplin, a melhor assistente da bondade já vista nesse mundo encantado. — fala dando uma pirueta e soltando brilhos enquanto continua fazendo aquele barulho, sorrio com essa coisinha fofa.

— Como conseguiu esse troço sem ser princesa? — questiona Ivy.

— Acha mesmo que não somos da realeza? — retruca Wanda revoltada.

— Esse tipo de gente sempre se apresenta falando de onde veio, como a bonitinha exibida ali. — aponta para a loira que estava calada até agora.

— Olha quem fala, não se preocupe querida irei para um quarto com gente da minha classe logo. — diz se levantando e indo em direção a porta — Aliás, meu nome é Cristal e herdarei o conto da Cinderela, minha mãe.

— Ah, agora entendi porque odiei ela. — comenta a ruiva depois da saída triunfal.

Vamos dividir o quarto com a filha da rainha, não tinha como ser pior. No mínimo se a garota fosse educada, mas seria muita sorte.

— Também vou indo nessa, conversar com os meus amigos, quem sabe podemos planejar uma pegadinha para essa entojada. — diz Ivy.

— Espera, vou junto preciso conhecer a escola, principalmente os gatinhos. — fala pulando da cama e indo atrás dela — Quer vir junto Venus?

— Obrigada, vou ficar e arrumar minhas coisas. — respondo, a fada pareceu desanimar.

Quando as duas foram embora tentei deitar novamente, porém fui impedida pela Pilipiplin que tagarelava sem parar.

— Você deveria ter ido junto, descobrir tudo que a escola possui, paquerar os príncipes, uma verdadeira princesa faz essas coisas.

— Não sou princesa. — falo para encerrar o assunto.

— Isso nem tem importância, todos podem se transformar no que quiserem aqui, ninguém se interessa pelo seu passado.

Reviro os olhos, ninguém se importa com nada, porque a realeza é irresponsável.

— Bom, posso arrumar meus pertences?

— Não precisa, já está arrumado.

Num estalar daqueles pequenos dedos as malas abrem, assim como as portas do guarda-roupa, minhas vestes voam pelo quarto sendo penduradas em cabides, assim como os livros que vão tomando lugar nas prateleiras. Em questão de minutos tudo está em seu devido lugar, melhor do que qualquer coisa feita por mim.

— Uau! — aprecio aquele tanto de magia.

— Pronto, agora pode ir achar um namorado.

— Agora posso conhecer meu quarto. — ela senta na almofada com os braços cruzados e fazendo beicinho.

Abro o armário achando, além das roupas que trouxe, trinta pares do uniforme idêntico. Tiro um deles observando, a camisa social branca decorada apenas com o emblema da escola, acompanhada de gravata e uma saia rodada cinza.

— Achei que teria alguma coisa rosa. — comento pensando nos estereótipos sobre a realeza.

— Apenas irão decidir as cores quando dividirem o castelo em Bem e Mal, no próximo semestre. — responde, uma luz parece surgir em sua cabeça — Contudo, se quiser posso te ajudar a deixar essas peças mais legais.

— Jura? Pode trazer uma máquina de costura?

Seus dedos se mexem e a máquina aparece na escrivaninha, vários tecidos, fitas e rendas surgem no chão.

— Acho que está exagerando um pouco.

— Isso vai ser tão divertido! — ela grita girando.

Olá, tudo bem? Falem o que estão achando, não deixem de dar suas opiniões. Se gostarem não esqueçam de votar.

Escola dos Felizes para SempreOnde as histórias ganham vida. Descobre agora