Carta 19 - Bilhetes

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Santa Clara, 15 de outubro de 2019

Luísa,

Desde que eu soube do que acontecera com a sua prima, da tentativa de suicídio que não fora uma tentativa de suicídio, fiquei abalada. Aquilo mexeu comigo de um jeito ruim. Os pensamentos horríveis que eu tinha sobre mim, e sobre a vida, pareceram piorar e pesar nos meus ombros, como se saíssem da minha cabeça e se sentassem ali.

Hoje eu entendo que havia sido um gatilho.

Depois daquilo, decidi que nunca escreveria sobre suicídio e nem autodano. Eu queria escrever sobre coisas boas, clichês, amizades e alegrias. Nós merecemos mais do que sofrimento. No entanto, é tão difícil não escrever sobre a dor quando a dor nos persegue, quando ela nos atormenta e nos atrapalha dormir, quando ela escapa pelos dedos e cai sobre as teclas. Eu queria escrever sobre coisas boas, mas não sei mais se consigo.

Ainda me lembro, de um jeito nítido que me assusta, daquele olhar que a Cris me lançara. Ela me via.

— Você sabe como é, não sabe? Querer acabar com tudo... — perguntou.

Não respondi. Só encarei os pés dela. Eu sabia, e me sentia culpada por saber. Eu não queria saber. Só queria ser normal ou, sei lá, feliz igual a todo mundo. O pior é que eu sentia que não podia reclamar de nada. Eu não havia passado por dez por cento do que a Cris ou você passaram na vida, que direito eu tinha de sentir alguma dor?

— Então você sabe a diferença entre pensar em se machucar, para desviar a dor, e realmente se machucar. Eu nem sei se isso é bom ou não, mas nunca me feri, de jeito nenhum. Tirando a autossabotagem que é uma forma de autoflagelação... Enfim. Eu não ia me jogar da ponte.

— Por que todo mundo pensa isso, então?

— Sei lá, as pessoas gostam de pensar coisas, de fingir que se importam depois que a merda tá feia.

— Mas você nunca desmentiu?

— Eu não. — Ela se virou e encostou a barriga do parapeito, olhando para cima. — Eu só estava olhando o céu e pensando numas porcarias. Não queria morrer. Não quero. E, sinceramente, as pessoas pensem o que elas quiserem. Foi só depois disso que acordaram para o que acontecia naquela escola, para as perseguições, o bullying, o racismo. Minha mãe voltou para a direção por causa disso.

— As coisas melhoraram mesmo.

— Viu? Não tenho por que desmentir nada. Deixa eles pensarem o que quiserem pensar.

— Faz sentido.

— Eles sempre vão pensar algo sobre nós, Rafaela. — Ela me fitou de um jeito estranhamente maternal. — Se você for ouvir ou tentar desvendar esses pensamentos, vai ficar presa em algo que nunca vai poder consertar.

— Eu sei... É foda. Eu só queria ser outra pessoa.

— Acho que todo mundo quer ser outra pessoa...

Ficamos em silêncio por tanto tempo, que comecei a ficar incomodada com aquilo. Eu estava quase a chamando para descermos, quando ela disse:

— Você já pensou em onde estará daqui dez anos? — Do nada!

— Não. Mas espero que seja em algum lugar novo. Talvez no Japão. Sei lá, só não quero estar aqui.

— Você quer se mudar para o Japão? É um pouco longe...

— Eu quero viajar o mundo inteiro. Junto todo o dinheiro que minha mãe me dá desde que eu tinha seis anos.

— Sério?

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora