A queda

5 0 0
                                          

Depois de ter recebido do seu pai a notícia de que iriam para Macau, depois de ter passado o Verão inteiro à espera que o futuro chegasse; depois de se ter despedido de todos os seus amigos de Paredes, todos animados pelas histórias que de lá traria do Extremo Oriente; depois de ter deixado os seus avós em lágrimas no aeroporto, convencidos de que aquela poderia ser a última vez que se veriam; depois dum dia inteiro preso no ar — Porto, Heathrow, Banguecoque, para aterrar em Kai Tak, alertado pelo pai para que olhasse os prédios altos por onde o avião descia —; depois de olhar, pela janela de trás dum táxi vermelho a caminho do Shun Tak, os mesmos prédios que viu ao aterrar; depois de apanhar um jetfoil, um barco com jactos Boeing, para Macau; depois de respirar os ares húmidos e quentes da região; depois de passar as primeiras noites acordado e os dias ensonado, à espera de fazer amigos novos e chineses quando finalmente chegasse ao Liceu de Macau, depois de tomar o pequeno-almoço, ansioso pelo seu primeiro dia de aulas, tudo presentes a acontecer; Tiago acabava de apanhar o seu primeiro murro na cara.

— Monga!

Foi só o que ouviu como explicação.

Quando chega a Macau, Tiago encontra chinesas da idade dele que lhe sorriem sorrisos de quem posa para um instante cinematográfico, e chineses idosos, que o acolhem com uma doce indiferença à sua benigna presença romântica.

Tiago olha em redor pelos olhos das testemunhas que o olham. Há muitas caras portuguesas, e poucas asiáticas. Aqui, a tribo de estudantes é diferente da de Paredes. Têm mais cabelo, mais comprido, mais armado, mais cheio. Há calças duma espécie de seda azul engelhada e estampada com o que parece ter sido lixívia. Há calças à boca de sino. Todos espectadores, todos sorridentes, e o ombro de Tiago é empurrado com um «Estás a ouvir, Monga?».

Em Macau, as casas são brancas e têm telhados com dobras para cima em cada esquina. O recreio da C+S de Macau tem um pagode alto ao centro, com uma banca de senhas da cantina no rés-do-chão e uma campainha no seu topo para marcar os intervalos.

Tiago olha para dentro do olhar do seu agressor, e nos seus olhos pretos viu-se a si mesmo muito pequenino reflectido antes de ser empurrado contra o chão.

— Sou de Luanda, tás a ouvir? Tu não podes nada comigo.

Macau é uma cidade de confluência de culturas que há cinco séculos vivem em harmonia.

Rui Aníbal olha para o objecto Tiago à espera duma reacção. No pátio interior quadrado, os figurantes da série Macau 90210 assistem ao espectáculo da perda da dignidade que não pega fora dos socalcos do Douro.

O agressor olha para a sua plateia com o espírito triunfal dum gladiador garantindo que todos assistirão ao que se segue.

Não há nada a acontecer durante um segundo inteiro, um segundo onde todos esperam algo de alguém. Ninguém é favor de Tiago, todos são a favor de Rui Aníbal.

Rui Aníbal empurra o peito de Tiago com as suas duas mãos e, à medida que Tiago vai caindo para trás, o céu de Macau deixa de ser azul para se tornar num branco sujo viscoso. Tiago bate com a nuca no chão, a sua dor a servir-lhe de esperança que seja assim que tudo isto termine.

Rui Aníbal olha para a sua obra de arte, um parolo caído no chão, como lixo, ali estendido como as suas roupas tão sem estilo que só a sua mãe as poderia ter comprado.

Não há nenhuma jangada aqui, nenhum chinês de chapéu pontiagudo de palha a navegar a barca com uma vara tão longa que pareceria tocar o leito do Rio das Pérolas. Não há nenhum pagode nem nenhum telhado com dobras no Liceu de Macau.

Surge uma inspiração a Rui Aníbal. Enquanto Tiago recuperava a sua vontade e se contorcia para encontrar apoio para se levantar, Rui Aníbal dá-lhe, com toda a sua força, um pontapé na cara.

Visto sob um R intermitente no canto do ecrã, Rui Aníbal leva a sua perna direita atrás de si, pousado sobre a perna esquerda, como quem apronta um remate à baliza. Dá em cheio na cara de Tiago.

Todos estremecem um píxel acima quando vêem que Rui Aníbal atinge a boca de Tiago.

Do ponto de vista de Tiago, o som do pontapé parecia vir de dentro, como se algo tivesse quebrado na sua mente.

Tiago prime os lábios, não os deixando abrir nem por nada. Outros abrem os seus, mas todos são silêncio. Dentro da boca cerrada, segura-se a dor e o terror de ter de aguentar os pedaços de dentes partidos sem os engolir e sem se revelar assim tão vencido e sem medo de mais outro pontapé. Tiago é uma gabardina caída no chão que olha em redor para um círculo de espectadores num pátio quadrado.

Todo o Liceu começa a ecoar o Big Ben, uma melodia sintetizada por uma empresa japonesa de campainhas. Ainda se ouve Rui Aníbal a dizer «monga», e isto ficará gravado para sempre na memória de Tiago.

Já não vê Rui Aníbal, nem vê mais ninguém no pátio. Arrasta-se até a um degrau ali perto, e debruça-se sobre a mão. Cospe os pedaços de dentes.

Com a língua, procura cuidadosamente os restantes pedaços por cada canto da boca sangrenta. Tudo é cuspido minuciosamente para a mão.

Olha em redor. O pátio continua vazio. Coloca os pedaços todos no bolso do peito da sua gabardina. Raspa bem a palma ensanguentada com o dedo indicador da outra mão, para que todos os milímetros de dentição sejam aproveitados.

Olha para cima, para as janelas do primeiro andar, janelas emolduradas por cimento angular como gengivas. Há gente de cabelo preto a olhá-lo, sentados nas suas salas de aula. Ao contacto com o olhar de Tiago, todos voltam a olhar para dentro para as suas aulas mudas.

Tiago roça a língua pelos dentes partidos e sente arder a textura dolorosa do miolo áspero.

Os Filhos da TransiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora