O Último

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Eu era muito novo quando aconteceu. Devia ter uns oito meses, ainda mamando, deitado no colo da minha genitora. Dizem que a onda de choque foi tão violenta que deu um "curto-circuito" no cérebro de todo mundo, provocando clarões na vista que duraram alguns segundos. Algo relacionado ao nervo óptico, ou coisa assim. Não sei dizer, não sou oftalmologista.

Deu na TV que um evento cósmico extraordinário havia causado o fenômeno. Um buraco negro explodira milhões de anos atrás, e a onda de energia atingiu o sistema solar de forma imprevisível. Foi tão intensa que atravessou o planeta de um lado ao outro. Não houve como se proteger. Os cientistas disseram que era um tipo novo de radiação. Não lembro direito, não sou físico.

Meses depois começaram a ligar os fatos, pois fenômenos inexplicáveis ocorreram. Pássaros morriam aos montes; ratos, sapos, morcegos e outras pragas invadiram as cidades em busca de alimento; e o mais impressionante, você podia deixar carnes, frutas, qualquer tipo de comida exposta, que não apareciam mais os incômodos insetos. Acredito que o governo já sabia as causas, mas omitia para a população. Afinal, nem todo mundo era entomologista para compreender as minúcias da cadeia alimentar, ciclo de vida e importância dos insetos no ecossistema. Eu pelo menos não sou.

Veio então a segunda notícia mais avassaladora que a humanidade ouviria até o final dos tempos. O colapso irreversível da civilização e a vida na Terra. A radiação havia causado uma disfunção que impedia os embriões de iniciar a divisão celular. Não havia técnica alguma que pudesse fazer uma mulher engravidar. Tentaram inseminação, clonagem e até um método novo e questionável, que eu não saberia explicar, pois não sou geneticista.

Quando eu fiz um ano de vida, já poderia considerar-me um ser humano de luxo, pois os alimentos inflacionaram quase que proibitivamente. Parece-me que os custos de produção aumentaram devido a novas técnicas empregadas para suprir a falta que os insetos, minhocas e outros seres, então aparentemente insignificantes, faziam em nossa agricultura. Havia algo também relacionado com oferta e procura. Nunca fui bom em economia. Não sou economista.

Anos depois, o que restou da humanidade obedecia a um novo governo, uma nova ordem mundial. Iniciaram um programa de mapeamento dos animais restantes. Um chip era obrigatoriamente instalado sob a nossa pele, e cada habitante do planeta, de gente a bicho, podia ser acessado na página do sistema, exibindo não só a posição geográfica como dados clínicos. Temperatura, batimentos cardíacos, e nas fêmeas, o mais importante, as taxas hormonais que indicariam uma possível gravidez. A página tinha um contador macabro. Lembro-me da primeira vez que entrei e vi que restavam menos de 125 milhões de humanos. Até hoje não entendo como essa coisa funciona dentro da gente. Não sou engenheiro.

Por muito tempo fomos assistindo impotentes à extinção de diversos animais. Era uma comoção quando o contador de uma espécie chegava a 2 ou 1. Fazíamos luto quando uma espécie no sistema tornava-se cinza e zerada. Diariamente o contador de seres humanos diminuía. E marcava menos de 45 milhões quando a humanidade recebeu a notícia mais chocante de todas. O Filho do Homem caminhava novamente entre os povos para trazer a "Salvação". O "Salvador Inútil" como intitularam. Eu não teria dado esse nome, mas não sou jornalista.

Logicamente ninguém acreditou nas palavras. Todos diziam não passar de um lunático, e que Deus devia ter o senso de humor muito estranho, para enviar outra vez seu filho a um mundo decadente. Se este era um novo dilúvio, esquecera-se da arca para salvar as espécies. Ninguém entendeu a "salvação" que pudesse ser feita a essa altura. 

Em pouco tempo o "Salvador Inútil" sumiu da mídia. A nova sensação era um tipo de proteína que inventaram para suprir a necessidade de carne vermelha. Pois a carne, propriamente dita, era consumida apenas por milionários que pagavam até dez mil vezes mais por cada bife, de um único bovino no mundo, que era permitido abater por semana. Restavam menos de duzentas cabeças. Eu não sei o gosto que tinha aquela carne, pois não sou carnívoro.

Isso tudo foi há muito tempo. Hoje, oitenta anos depois da onda de choque, estava olhando para a página quando o nosso contador diminuiu de 2 para 1. Agora sou o último. Não há mais ninguém com quem conversar, ainda que pelo antigo, mas funcional, computador. A minha missão está completa. Deixo o planeta novamente livre e limpo para um novo início. Novas espécies evoluirão daqui a milhões de anos. Deito em minha cama, fecho os olhos e oro para que meu Pai me leve. A Salvação está completa. A Salvação do planeta. Eu fui o primeiro e agora sou o último. O Alfa e o Ômega. Eu sou o Filho do Homem.

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