Prólogo

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Eu não sabia o motivo de estar indo até lá. Durante todo o caminho, cogitei voltar atrás, mas pensar no que aquele cretino havia feito com a minha melhor amiga sempre me fazia acelerar o veículo e seguir na direção que eu certamente deveria passar longe. 

Peguei um pacote que havia recebido do correio antes de saltar do carro e quando cheguei na portaria, fiz valer meu talento:

― Bom dia. Estou aqui para entregar uma encomenda para o ― olhei para baixo como se lesse seu nome e não o meu próprio. ― Sr. Bernardo Grimaldi.

― Sim... Tudo bem. Pode deixar aqui que eu assino e entrego para o Dr. Bernardo mais tarde. ― o porteiro disse e de pronto neguei.

― Desculpa, mas o Sr. não está entendendo, é uma encomenda de cunho pessoal... Muito pessoal. ― rapidamente completei, baixando meu tom de voz de propósito. ― o Sr. Bernardo quer discrição e como sócio e também ator da Produtora de Pornô Gay, Saindo do Armário, ele exige que eu entregue isso em mãos. E nem adianta avisá-lo da minha presença, porque o coitado não consegue sair da cama depois da cena que gravou ontem. Sabe, um Gang Bang com mais 15 homens. Ele está acabado. Sequer consegue andar. Por isso que também lhe trouxe uma pomada anestésica e cicatrizante para o ânus. ― contei a mentira com um talento de atriz de Hollywood que eu tinha e o senhorzinho arregalou os olhos, meio assustado.

Ahaha! Boa, Kami. A fama dele de certo correria!

― Eu não sabia que o Dr. Bernardo era... você sabe. ― não conseguiu continuar, mas completou dizendo algo que só fez aumentar minha determinação: ― Ele sempre me pareceu tão... macho. Entrava e saía com tantas mulheres por aqui. Todos no prédio o achavam um galinha. ― bufei, sentindo o sangue borbulhar em minha pele.

Galinha filho da mãe!

― Imagina... São lindas, mas todas travestis! — dei de ombros de modo bastante casual.

― Sério? ― pareceu ainda mais chocado.

― Seríssimo. ― coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e reiterei o que dizia: ― Ele não se aceita, sabe? Tem medo do que a sociedade pode achar dele adorar rebolar no quibe.

Quem era Meryl Streep perto de mim? Alguém sem Oscar ou metade do meu potencial, certamente!

Minha história pareceu ser o suficiente para o porteiro me deixar passar e enquanto pegava o elevador em direção ao seu andar, ria para me acabar, sabendo que aquela fofoca renderia bons fuxicos pelos moradores. O que era pouco, bem pouco, para aquele filho da mãe.

Ao chegar em frente ao seu apartamento, apertei a campanhia de maneira incessante e depois de alguns resmungos do lado de dentro, a porta se abriu. Por um momento ou dois, perdi um pouco o raciocínio, pois apesar da aparência desleixada, ainda assim Bernardo parecia irresistível o desgraçado, o que, claro, não vinha ao caso. Eu tinha um motivo para estar ali, motivo pelo qual ignoraria o fato dele estar vestido com apenas uma cueca boxer e nada mais, além de uma gostosura absurda demais para a minha sanidade mental.

Por que ele tinha que ser gostoso daquele jeito, Deus?

Ele estava claramente surpreso com a minha chegada e pude logo discernir por leitura labial meu nome murmurado, ao passo que alçava uma das sobrancelhas de modo confuso. Comecei a pensar que não podia perder tempo e ir logo direto ao ponto, caso contrário eu poderia não perder a coragem que me levou de tão longe até ali ou simplesmente ele, detectando um perigo iminente, o que me impediria de ir adiante solicitando reforços por estar invadindo a privacidade da sua casa.

Já estava vendo até as manchetes: Atriz desempregada, é presa tentando matar o herdeiro da maior empresa de Bebidas do Brasil!

Estremeci com o pensamento, um que deveria me fazer parar, já que ir até ali poderia mesmo me trazer não apenas reputação negativa — ou uma noite no chilindró —, como também acabar com toda a minha carreira, porém, na raiva que eu estava, nem mesmo um Oscar poderia me fazer recuar. Eu já estava longe de me sentir razoável.

— O que faz aqui? — Seu olhar ficou desperto com curiosidade, a estranheza no tom de voz inconfundível.

Deveria apenas acabar logo com aquilo e ir embora, mas estava muito perplexa por vê-lo em uma cueca boxer, que tornava ainda mais árdua a tarefa de tentar me concentrar e fazer o que tinha que fazer.

O que? Não me julgue, pois a imagem era praticamente um atentado violento ao pudor! Uma bofetada libidinosa!

— O que faz aqui, Kami? — ele repetiu a pergunta, acordando-me do meu leve torpor.

O que eu tinha ido fazer ali mesmo? Nem eu lembrava mais, Senhor!

Eu era patética mesmo. Já não bastava estar apaixonado pelo embuste do ex-namorado da minha melhor amiga, ainda tinha que cobiçá-lo e me esquecer o motivo da minha ida?

Ah, sim! A Mel, a melhor amiga de todas, uma que eu não merecia era o motivo daquele encontro! Eu precisava fazê-lo pagar pelo que fez a ela!

— Alguém já te disse que você é um imbecil que merece morrer de gonorreia? — consegui perguntar, antes de jogar a caixa que carregava na mão e direcionar meu punho para o belo rosto do embuste, que não merecia ter aquela aparência.

Com a habilidade de lutadora de jiu-jitsu que foi apenas para uma aula, repito, uma aula, Bernardo foi atingido no nariz pelo meu punho e enquanto o sangue esguichava encarava-me de modo estupefato, eu começava a balançar a mão e xingar porque ninguém tinha me avisado que doía tanto dar uma de heroína dos corações quebrados ao esmurrar alguém.

Meu Deus! Que dor!

— O que diabos foi isso? — Sua pergunta foi feita em um murmúrio fraco, o rosto banhado em vermelho.

— Isso foi apenas uma amostra, seu filho da mãe. Você ainda não conhece mesmo o diabo, mas vai conhecer caso volte a aparecer na frente da Mel! — sem que ele esperasse, dei-lhe um chute nos ovos e ele gemeu pela dor. — Nunca e eu quero dizer nunca mesmo, se aproxime de qualquer uma de nós, caso contrário, eu mesmo me encarregarei de acabar com a sua raça!

Satisfeita por vê-lo se contorcendo de dor no chão, abaixei-me para pegar a caixa que trouxe comigo e fingindo plenitude pela dor que sentia dei as costas para ele e parti, crendo eu, na minha inocência quase angelical, que jamais voltaria a vê-lo. E assim como também acreditei que me tornaria a Diva das Novelas, eu não podia estar mais errada...

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