Capítulo 37 - Parte II

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Evelyn piscou uma última vez, antes de se colocar de pé e sair da tenda. Seus braços e mãos estavam pintados com os símbolos de Ílac. Ela vestia um vestido glamoroso. Não como os seus do castelo, mas, pela primeira vez, ela sentia que era perfeito para o que estava prestes a fazer com Elijah.

Por incrível que parecesse, não estava tensa. Pelo menos não por esse motivo. Pensar no guerreiro não trazia aflição. De tudo, se pensasse em um mundo alternativo onde tudo desse certo, saíssem vivos e acabasse a guerra, ela lidaria com ele depois. Elijah jamais seria um novo Jeffrey em sua vida, disso ela tinha certeza.

As criadas estavam no fundo da tenda, seus olhos brilhando em direção a ela. Evelyn não sabia como era a sua imagem, mas com a dedicação que as mulheres tinham tido sobre si, duvidava que estaria mal.

Virou para a porta, ouvindo o alvoroço do lado de fora. Seus passos foram comedidos, lentos, porém firmes. Uma capitã, parte do seu pelotão e que fazia a guarda ali no momento, abriu para ela. Evelyn olhou para fora, vendo todos seus homens e cidadãos da aldeia próxima reunidos em volta. Eles deixaram aberto um corredor, formado pelos soldados do mais alto escalão da tropa, cada um segurando um objeto em mãos e ao final... Elijah Graeff, o grande guerreiro. Seu cabelo e barba levemente aparados e bem vestido, com a flor da esperança em mãos.

Foi o único momento que Evelyn vacilou, mas foi tão mínimo, que ninguém poderia perceber, além do seu futuro marido, claro, que conhecia-lhe além do que ela desejava.

Evelyn começou a andar e a cada passo que dava, a fileira dos soldados de cada lado se ajoelhava, estendendo o presente em mãos. Era um rito de Ílac que ofertas fossem dadas aos noivos, símbolos de Ílac como força, amor, longanimidade...

O soldado abaixava-se, dobrando-se sob um dos joelhos e depositando ao chão o presente. Havia um bracelete de ouro, símbolo da prosperidade, um pedaço de lã, como oferta de fartura, e assim por diante, um a um, até que Evelyn tivesse passado por todo longo corredor e estivesse de pé frente a Elijah, que parecia literalmente como o Rochedo em sua expressão, mas tinha o pulmão subindo e descendo, mais rápido do que o habitual.

Quantos sonhos de menina ela havia tido sobre esse momento? Mas haviam sido como pó, tão frágil, logo espalhado e dispersado com o vento chamado vida.

Encarou os olhos daquele que um dia teve todo o seu coração e viu sua garganta subir e descer e um leve endireitar do seu corpo. Ela achou que não ficaria nervosa, mas estava. As lembranças vinham pipocando como um maremoto sem controle, despedaçando tudo que encontrava em seu interior. O corpo vacilou por um momento, mas ao focar em Elijah, vendo talvez o mesmo desespero emocional que o seu, ajudou que continuasse a caminhar, passo a passo, em direção da única pessoa que poderia confiar.

Mirá-lo era a única coisa que fazia apagar todos à volta, era o que a fazia esquecer que o motivo de estarem fazendo isso ia além deles. Que talvez em outras circunstâncias, o sonho nunca aconteceria.

Tantas coisas morreram, tantas coisas foram derrubadas ao chão, mas aqui estavam eles novamente, juntos, numa mesma missão.

Quando chegou ao último passo, não haviam soldados, ou aldeãos... Era Elijah ali e, por um segundo, era real. Era o amor do passado, mas era também o futuro, independente do que pudesse haver entre eles. E por mais falso que pudesse ser o que fariam ali, o sentimento era tão real que doía cada uma das suas entranhas.

Elijah ergueu a mão e pegou a dela, com ternura trouxe até os lábios e depositou um pequeno beijo, sem deixar que seus olhos escapassem de Evelyn. Como poderia os anos passarem e ainda fazer tudo tão intenso e avassalador? Elijah tremia cada grama do seu ser, ainda que tentasse ficar estoico do lado de fora. Mas no momento que a mulher de cabelos negros parou em sua frente, ele tinha certeza que todos haviam percebido.

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