Carta 12 - Eu sou uma música da Fresno

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Santa Clara, 30 de setembro de 2019

Luísa,

Lendo as cartas que escrevi para você, as de agora, não as de antes, percebo que você sempre teve razão:

Eu sou mesmo uma música da Fresno.

Das novas, Luísa. Já escutou?

É isso, você venceu! Eu gosto de Fresno. Perceber que você tinha razão ao me dizer que meu gosto musical era o incompatível com minha alma me fez pensar que eu deveria abrir e ouvir esse Brand New Eyes que você me deu e ainda está embalado no mesmo saquinho de plástico transparente.

Já ouvi algumas músicas por aí, não vou mentir para você. As mais famosas que tinham clipes na MTV.

É, talvez eu devesse ouvi-lo, mas estou esperando setembro passar.

Nesses dois dias sem escrever para você, comecei três séries diferentes na Netflix. O tédio mata mais rápido que a solidão. Talvez os dois sejam amantes. Enfim, não terminei nenhuma, assim como não termino nada nessa vida.

Não.

Agora isso é mentira.

Eu terminei meu livro, Luísa. Não te contei?

É claro que não contei. Não contei a ninguém. O original está aqui, impresso sobre a mesa, me encarando, cheio de uma história que eu não queria contar.

Os homens não tiraram tudo de mim, Luísa. Eu menti. Eles ainda vão tirar.

O resto. O que sobra.

Um homem.

Talvez eu devesse te contar essa história.

Talvez eu devesse pedir ao Fabrício o seu endereço e enviar esse original junto com estas cartas. Acho que só assim você vai entender.

O irônico é que eu estava até me sentindo melhor ao escrever o livro, assim como gradativamente vou me sentindo melhor ao escrever para você. O problema é o silêncio que fica depois que a história para de ser escrita.

O silêncio.

O vazio.

A solidão.

O tédio.

Meus velhos melhores amigos.

Função que deveria ser sua. Mas não é. Não foi.

Saí daquela biblioteca decidida a contar tudo para você. No entanto, dei de cara com o Julinho carregando um saco de cimento. Ele estava sorrindo de orelha a orelha e quase nos esbarramos.

— Ei, Rafinha. Num tá me vendo aqui não?

Encarei o homem e não precisei de muita coisa para entender o que estava acontecendo. Perguntei mesmo assim. Você sabe, eu sempre perguntava.

— Que isso aí? — Apontei para o cimento.

— Coisa da diretora.

— Vão reformar a escola antes que ela caia na cabeça de alguém?

— Quem dera! Isso aqui é pra tampar um buraco na parede, perto da sua sala.

— Que buraco?

— Ali naquele bequinho onde vocês ficam namorando e acham que ninguém está vendo.

— Ah — falei, sem ar. Minha passagem secreta já era.

— Bom, eu vou levar isso pra dispensa. — Ele foi passando por mim e caminhando até a cantina.

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora