Carta 11 - A garota que falava com as paredes

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Santa Clara, 28 de setembro de 2019

Luísa,

O Fabrício me ligou hoje. Aliás, todos estão tentando me ligar desde o meu aniversário, mas só hoje eu quis atender. Ele me contou o que houve com seu pai. Eu queria sentir muito. Não sinto. E sei que você também não.

Eu não queria me sentir amargurada, no entanto, algumas coisas são impossíveis de evitar. Algumas coisas não quero evitar. Como não quis naquele dia, ou não pude. Sinceramente não sei, Luísa.

Voltando do nosso lugar, não quis evitar quando minha mão correu até a sua e a segurou com força, quando ouvi minha própria voz prometer:

— Vai ficar tudo bem, Lu. Você vai ver!

Você apenas sorriu para mim, sem responder nada, e agarrou a minha mão. Seus olhos queriam me dizer algo, eles sempre queriam. Naquele segundo, pensei em te puxar para mim e perguntar por que você me olhava daquele jeito.

Tive medo da resposta.

Tenho até hoje.

As palavras não ditas também têm poder. As minhas ainda me sufocam. Elas são como água, abrem buracos profundos. E eu sou uma grande cova aberta, cheia de dúvidas que não tive coragem de esclarecer.

Será que é tarde demais para nós, Luísa? Não para que você me ame romanticamente, já sei que isso não vai acontecer nunca. Mas será que ainda há tempo para a nossa amizade? Será que vale a pena enviar de fato estas cartas?

Fabrício disse que eu deveria publicá-las em algum lugar, que já passou da hora de eu parar de falar sozinha. Ele tem razão.

É engraçado que ele fale isso justamente agora.

Eu estava conversando com as paredes naquela manhã, um dia depois da nossa ida à caixa d'água. Na verdade, eu estava conversando com as estantes da biblioteca capenga que a gente tinha lá na escola. Você se lembra da nossa biblioteca, Luísa? Acho que não. Nunca ia lá.

Mas eu ia. Todos os dias. Era quase a minha religião.

Eu ia, pegava alguns livros, me sentava lá e ficava folheando as histórias da Helena Gomes e do Marcelo Carneiro da Cunha. A escola tinha um exemplar do volume único de Senhor dos Anéis. Eu sempre entrava na biblioteca prometendo a mim mesma que finalizaria aquele livro, mas nunca passei de As duas torres. Então, procurava outra coisa, algo internacional que me levasse para outro país.

E tinha dias que eu não estava a fim de ler, então eu só ia para lá, e ficava rodando o globo, passando meus dedos sobre todos os países que eu queria conhecer, sobre todos os lugares que eu nem sabia que existiam, mas que eu queria conhecer mesmo assim.

Sabe o que é mais engraçado? Acho que conheci todos eles e outros.

A Luna costumava dizer que essa minha vontade de viajar o mundo era minha ânsia por fugir, por não precisar parar e encarar a pessoa que eu sou. No fim das contas, minha irmã sempre estava certa.

No entanto, naquele dia, quando eu me sentei à mesa grande da biblioteca e comecei a imaginar como seria a Botsuana, ela apareceu.

Chegou devagar, como quem não quer nada, tipo aqueles pensamentos que chegam e te denominam sem que você perceba, sentou-se à minha frente, do outro lado da mesa.

Eu só fui perceber aqueles dois olhos sobre mim alguns minutos depois, quando a Botsuana parou de fazer sentido.

Quando minha mente se calou, ela disse:

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora