Carta 8 - Nós somos uma família

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Santa Clara, 27 de setembro de 2019

Luísa,

Vamos falar de família?

A nossa família (eu posso negar o tanto que quiser mas a sua família é a minha também).

Depois de toda aquela confusão, a Luna expulsou os três lá de casa. Mas você estava lá, você viu.

O que não viu foi o que aconteceu horas depois, quando minha mãe já estava em casa, e toda a confusão tinha virado segredo de estado. Ela não podia sonhar que os três brigaram daquele jeito, na casa dela, sem que ela estivesse lá.

Você não viu o Felipe se sentar, cabisbaixo, no banquinho, pegar a baqueta que o Fabrício quebrara, e colocar a caixa que eles derrubaram no lugar. Por um momento, assim que me viu ali, parada à porta o observando, ele apenas me encarou. Depois, pesarosamente, gesticulou devagar, porque eu ainda estava aprendendo a ler aquela língua.

"Acho que eles quebraram a caixa. A mãe vai matar você".

"Ela não pode nem sonhar". Tentei dizer, com as mãos. Mas acho que falhei um pouco. No fim, ele entendeu.

"Seus amigos fizeram uma bagunça aqui". Lipe olhou, com uma expressão de tristeza, para a bateria com as peças todas fora do lugar.

"Você sente muita falta, né?", perguntei.

"Demais. Ainda não superei. Essa é a parte mais difícil!", comentou antes de bater na caixa. Eu notei que o som estava estranho, mas sei que ele não. "Não precisa me olhar com essa cara de pena. Não é tão ruim assim. Agora eu até tenho uma namorada!".

"Grande coisa!", desdenhei.

"É grande coisa, sim. Eu sei que você queria uma namorada também. Já sei até o nome dela..."

Fiz aquele gesto universal com o dedo do meio. Esse não precisava de tradução.

Meu irmão desceu do banco, e veio até mim, deixando para trás a bateria que ele amava tocar, mas não podia mais.

"Amanhã tem almoço na casa da tia Sandra". Meu irmão sempre considerou sua família como nossa, Luísa. Eu não. Não depois do júri que fizeram para definir o que achavam melhor para a minha irmã. Não depois das coisas horríveis que acumulei por anos. Dos mais velhos, os únicos que valiam a pena eram a sua avó, sua mãe e sua tia Graça.

"Não vou", gesticulei, categórica.

"A vó vai estar aí". Lipe me olhou com cara de cachorro sem dono. Revirei os olhos. Eu quase nunca via a sua avó, mas sempre que via, me sentia bem na presença dela. Era a referência que eu tinha. "Todo mundo vai, Rafa".

— Esse que é o problema — resmunguei, sabendo que meu irmão não podia ouvir.

E foi mesmo o problema.

Toda reunião na sua família virava um tribunal. Sortudos eram aqueles que não eram os réus da vez.

Pelo menos, para diferir das demais vezes, a minha família não era a acusada do dia.

Minha mãe fez questão de levar a pauta da bateria quebrada para o rolê. Nunca descobri como foi que ela soube, mas desconfio de Luna.

Não sei que força era aquela que ela possuía. No lugar da minha mãe, depois do meu padrasto simplesmente ir embora sem dar satisfações, eu não teria voltado a frequentar a casa da família dele.

Às vezes, acho que minha mãe é incapaz de sentir ódio por alguém. Mesmo depois de mudar toda a sua vida, sua carreira e sua estabilidade, para ir morar no interior por causa de um homem, mesmo depois que esse homem a deixou sozinha, com três filhos e sumiu no mundo. Ainda assim, ela não o odiava, não odiava o que vinha dele.

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora