Carta 6 - Quando você dormiu comigo

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Santa Clara, 27 de setembro de 2019

Luísa,

Não sei o que passou pela sua cabeça ao presenciar as lamentáveis cenas que meu namoro começou a produzir a partir daquele dia. Sinceramente, demorei entender até o que se passava na minha cabeça.

O olhar de decepção do Artur quando eu disse a ele que você dormiria lá em casa me persegue até hoje. Não é exagero.

Aquela foi a primeira vez em que ele pareceu compreender que eu não queria o que ele queria. Não era só decepção que Artur carregava no olhar, era rejeição.

Enquanto eu arrumava um colchão perto da minha cama, ouvi que você conversava com meu namorado. Não consegui entender o que era dito e não me importei. Foi só depois de um tempo que aquela conversa de vocês voltou para me assombrar. Pensei nela durante meses.

Hoje eu sei que era bobagem.

Eu te emprestei uma blusa do Felipe e, enquanto você se trocava no meu quarto, tratei de dispensar um Artur que já dava sinais de desistência.

Quando voltei ao quarto, você estava lá, deitada no colchão que eu colocara, folheando o meu exemplar de O morro dos ventos uivantes.

Aquela foi a primeira vez que agradeci a Deus por não sentir o que as pessoas costumam sentir. Observar você, vestida apenas com uma calcinha rosa e uma blusa branca do Engenheiros do Hawaii, causava em mim um misto de adoração e tristeza.

Como você não via o quão bonita era?

Luísa, a forma como suas coxas grossas buscavam conforto, as curvas do seu corpo, o jeito como você sorria. Tudo era perfeito. Eu poderia ficar ali, olhando cada detalhe do seu corpo, e não encontraria nada que eu não amasse.

Você abriu um sorriso cúmplice para mim. Seus olhos eram sempre doces? Eles sempre estavam brilhando ou aquilo acontecia somente quando você olhava para mim? Não foram raros os momentos em que pensei que pudesse existir algo. Mas era só minha imaginação, não era, Luísa? Eu soube disso no dia em que você golpeou a minha cara, sem dó, e me deixou caída no chão.

Mas isso é conversa para o futuro.

A cena que tento reviver para te contar, do meu ponto de vista, era tão mais pura e simples, era tão mais a gente, que eu poderia ficar presa nela e nunca reclamaria.

Seu rosto irradiava uma alegria quase irônica.

— Esse é o livro que eles falam no Crepúsculo! — disse, admirada, erguendo o livro em minha direção. Revirei os olhos. — Vou ler!

— Você vai o quê?

— Ler, uai!

— Você não vai gostar... — adverti.

— Por que não?

— Porque não é um romance fofinho...

— Não acho que seja. Está na sua estante. Jamais seria um romance fofinho.

— Você me subestima, Luísa. — Eu me sentei na beirada da cama e te encarei.

Você é que me subestima — disse, recolhendo o livro e o colocando sobre seu colo.

— Bom, se quiser, pode levar — respondi, com desdém.

— Eu vou mesmo.

— Vou dormir agora. Credo, tô morta de sono! — Suspirei e voltei a me levantar. Pronta para me arrumar e me deitar.

— E a Luna? Você vai deixar sua irmã dormindo no sofá?

— Ela sempre dorme no sofá. Aquele é o habitat natural dela.

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora