Carta 5 - Crepúsculo

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Santa Clara, 27 de setembro de 2019

Luísa,

Que mentira cabeluda eu dissera na última carta! Não escrevi para você. Escrevi para mim, para satisfazer meu ego, para entreter nossos colegas, para qualquer coisa, menos para você.

E, sim, se estiver prestando atenção às datas, vai notar que meu aniversário acabou de passar.

Não houve e não há o que comemorar.

Hoje, me lembro dessa época com tristeza. Eu estava tão plena, tão feliz. Em um estado raro de graça, desses que precedem o desastre.

E o desastre veio, sentou-se do meu lado, entre nós duas, enquanto segurava uma bebida achocolatada na mão direita e encarava a reunião dos nossos colegas em volta da mais nova carta anônima.

O desastre tinha nome e status:

Meu namorado, Artur.

Eu poderia dizer que "os homens tiraram tudo de mim" e escrever um argumento de doze páginas para explicar o estrago feito por ele. Mas, dessa vez, e só dessa vez, seria mentira.

O Artur não me tomou nada. Pelo contrário, me deu mais coisas do que eu merecia. Mais atenção, mais paciência, mais amor.

E o pior de tudo, Luísa, era que eu o amava também.

Imagino que você tenha parado um instante e respirado fundo, como fazia sempre que algo te incomodava. E que agora esteja voltando para esta carta na expectativa de que eu conte algo novo, que você não tenha vivido.

Mas, não. Desculpa te desapontar mais uma vez.

Aliás, acho que, talvez, você tenha mais coisas para me contar sobre aquele dia do que eu a você.

A começar pelo crime que cometeu ao piratear e distribuir aquele DVD do Crepúsculo. Cidades do interior nos anos 2000 eram mesmo terras sem lei. E Santa Maria Madalena, com seus ilustres cinco mil habitantes, nenhuma locadora, e absolutamente nenhum entretenimento para oferecer, não nos ajudava.

— O filme vai rolar hoje, meninas? — Art perguntou, daquele jeito que ele tinha de sempre parecer desinteressado.

— Lógico — você respondeu, empolgada. Depois, apontando para nossos colegas, perguntou: — O que foi dessa vez?

— O escritor anônimo voltou!

— Eita! — comentei, com ironia. — Cê jura?

— Nossa, tá irritada por quê?

— E a Rafaela precisa de motivo pra ficar irritada, Art? — Você desviou os olhos, assim que Artur te encarou, e observou o pátio da escola. Eu me lembro do saltinho que deu ao ver a diretora andar na direção do maior número de pessoas que havia se aglomerado perto de uma das pilastras.

— Hoje sai morte nessa escola! — Artur comentou.

— O conteúdo das cartas é tão pesado assim, é? — eu quis saber, olhando para Art.

— Não. — Ele se aproximou mais de mim. — É só uma pessoa apaixonadinha por outra pessoa. Inclusive, se dona Desgraça barrar, será censura. Não há nada de mais!

— Lógico que há! — Você se exaltou.

— E por um acaso você leu, Luísa? — Olhei nos seus olhos, curiosa.

— Eu não. Não preciso ler para saber que é um monte de bobagem. Só tem gente idiota nessa escola.

— Ah, não é bem assim, Lu! Eu não sou um idiota! — Artur protestou, rindo.

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora