Carta 4 - Sim, eu entrei pelo buraco na parede

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Santa Clara, 26 de setembro de 2019

Luísa,

Sim, eu usei o mesmo buraco no muro que o Não-me-lembro-o-nome havia usado para entrar na escola. Sozinha, às 5 da manhã, para colar a carta que escrevi para você.

Sim, Luísa, fui eu quem escreveu as cartas. Todas elas.

Não assinei porque não tinha coragem. Não coloquei seu nome como destinatário porque eu estava inundada de um medo assustador, não suportaria perder você.

Era o que eu pensava, pelo menos.

Então, naquele dia 5 de setembro de 2009, acordei cedo, vesti o uniforme ao contrário (como eu costumava fazer sempre, e ainda faço, porque sigo sendo incapaz de me vestir dignamente e muito menos de prestar atenção nas coisas que estou fazendo. Mindfulness, por que você está chorando?). Enfim, parti em busca da entrada secreta que o garoto usara.

Luísa, você não vai acreditar!

Lembra daquele espaço entre a sala do segundo ano e a do terceiro, que a galera costumava usar para se pegar durante o recreio e as aulas de Educação Física? Sabe aquela madeira que foi pregada ali, depois que um pedaço da parede caiu durante aquela chuva de 2008?

A madeira nunca esteve pregada!

E a gente passou todo aquele tempo tentando barganhar com o porteiro Julinho para que ele nos deixasse sair mais cedo quando a professora de inglês faltava, sendo que tinha um buraco gigante do lado da nossa sala.

Eu quis tanto te contar isso na época. Mas como confessar aquele segredo sem que você desconfiasse que era eu quem escrevia as cartas? Eu não poderia correr o risco.

Para mim, era óbvio que as cartas eram destinadas à você. Não era necessário colocar seu nome, você entenderia logo de cara. Você se reconheceria naquelas palavras.

Não foi a primeira vez que me enganei, mas talvez tenha sido a mais importante.

Você não se reconheceu. Aliás, nem leu a carta.

Tratou-a com um desdém incomensurável.

Hoje, pensando bem, imagino que você tenha ficado completamente traumatizada com folhas A4 coladas nas pilastras da escola.

Mas, Luísa, foi justamente por isso que colei as cartas lá. Eu queria que você recebesse amor no mesmo lugar onde recebera ódio. Notamos aqui, agora, o quão tapada eu era.

Por mais óbvio que fosse dentro da minha cabeça, absolutamente ninguém apontou você como a pessoa para a qual a carta se destinava. Ninguém mesmo. Foi só naquele dia que eu comecei a entender o que você queria dizer sobre nunca ser a menina mais bonita da escola.

Para eles (nossos colegas), era impossível que uma garota não branca e não magra estivesse no topo da lista de alguém. Era inconcebível que uma menina como você recebesse amor, afeto e palavras bonitas.

Eu soube na hora que meu plano havia sido burro.

Entretanto...

Acho que nunca vou conseguir explicar, nem usando todas as frases da Língua Portuguesa, como me senti ao ver todas aquelas pessoas lendo algo que eu escrevera. Os olhos brilhando, os sorrisos nos rostos, o desejo por desvendar o novo grande mistério da escola: quem, afinal, era a tal menina mais bonita? E o mais importante: quem havia escrito a carta?

Luísa, existe um vazio dentro de mim que eu nunca fui capaz de preencher. Acho que ele me acompanha desde a morte do meu pai, ou de antes, até. O mais próximo do preenchimento que consigo chegar é através das letras que alinho, das palavras que formo. Nunca ninguém havia lido nada meu.

Fiquei deslumbrada, encantada com o poder do que eu escrevera. Fiquei viciada na sensação de ter alguém lendo e gostando da minha escrita.

Você sabe, melhor do que ninguém, que tenho facilidade para vícios. Por isso nunca bebi, nunca usei nenhum tipo de droga, evito remédios, evito até mesmo coisas que gosto demais.

Mas eu me viciei em ser lida.

E me viciei rápido demais.

Eu sabia que a carta havia sido um tiro saído pela culatra. Eu sabia que não tinha chegado até você. Eu sabia, Luísa. Mas quis continuar mesmo assim. Na mesma hora em que vi o rebuliço que a escola virou, já imaginei toda a parte dois.

Lembro que me sentei ao seu lado. Você estava sozinha, sentada no grande banco azul do pátio. Sua expressão de desdém nunca saiu da minha memória.

— Será que já encontraram outra pessoa para zoar? — perguntou, chateada, olhando para os grupos reunidos em volta das pilastras.

— Você não viu o que era?

— Eu não. Cheguei e vi que era para "a menina mais bonita da escola". Ou é alguma chacota, alguma piada de mau gosto, ou definitivamente não é pra mim, então... Não perdi meu tempo.

— Ai, Luísa... — Respirei fundo, com medo de dizer algo que não devia. — Você não ficou nem curiosa?

— Não. E você, leu?

— Não.

— Então! Você quem deveria ler. Provavelmente é de algum admirador seu.

— Para de bobagem, Luísa! Fica ativa!

— Uai... É para a menina mais bonita da escola, Rafa... — Algo no tom da sua voz me incomodou de um jeito que me incomoda até hoje, só de lembrar. Existia rancor ali. Rancor vindo de onde, Luísa? — Deve ser coisa do Artur. É a cara dele fazer essas coisas emo.

— E desde quando escrever cartas é coisa emo?

O olhar de lado que você lançou naquele momento e o sorriso que se formou nos seus lábios em uma resposta velada, contrastaram com o rancor de antes. Você já sabia, àquela altura do campeonato, o que sentia por mim? Hoje você sabe?

Essa dúvida me atormenta.

Não gosto de pensar em como sua mente estava. Na bagunça de sentimentos que existia em você.

Gosto de pensar que eu estaria lá para te ouvir, que eu nunca te deixaria de lado ou julgaria.

Mas, vamos ser honestas? Isso passa longe de ser a verdade

Talvez não com tanto amor assim,

Rafaela

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora