Para a garota mais bonita da escola

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Santa Maria Madalena, 5 de setembro de 2009

Para a menina mais bonita da escola,

Espero que você leia esta carta.

Estou há dias tentando encontrar a melhor maneira, a mais real e mais honesta, de contar o que está preso dentro da minha cabeça:

Não há nada que você faça que não seja bonito.

Tipo, nada mesmo.

Você tem uma risada estranha, mas ninguém repara nela, porque você nunca ri sozinha.

Já notou o quanto está cercada de pessoas? Bom, acho que não. Mas está. Por mais que elas ainda não saibam, todas as criaturas que te cercam te amam.

Talvez porque você tenha esse jeito estranho de olhar para o lado, com o canto do olho, e julgar silenciosamente as aulas chatas de biologia.

Ah, menina, você não é a primeira e nem vai ser a última a se olhar no espelho e não ver o que os olhos dos outros querem ver. Mas e o que você quer? Quem você ama ser? Existe espaço no seu olhar para um pouco mais de autoamor?

Não quero ditar as regras da sua vida, muito menos a maneira como você se vê. O que eu queria era poder te dar meus olhos (no sentido metafórico da coisa, pelo amor de Deus) para que você pudesse se enxergar do jeito que eu te enxergo.

Eu vejo você.

Sei quem você é.

Conheço seus pensamentos mais horríveis, suas piadas mais sem graça, seus defeitos mais humanos.

Você é tão humana que chega a doer.

Dói em mim perceber que sente dor e que chora escondida quando está sozinha no seu quarto. E que sofre por ser assim, do jeito que você é. Mesmo que não diga nunca em voz alta, eu sei. Observo você. Não de uma maneira doentia, não sou assim. Mas eu noto seu olhar distante quando algo se desencaixa, quando olha em volta e o que vê é feio, mau e cheio de preconceito.

Eu queria poder escrever um milhão de coisas bonitas aqui, entregar esta carta para você e, com os olhos amedrontados, esperar a sua reação.

Será que está tão claro assim que isso é uma declaração de amor?

Se não está:

Eu amo você.

Caso tenha ficado alguma dúvida:

Amo você!

Queria poder te abraçar e, secretamente, roubar a sua dor. Roubar esses pensamentos que te jogam tão para baixo. Roubar essa sensação de que nada que você faça jamais estará bom para esse lixo de sociedade.

E eu mudaria o mundo por você. Destruiria o capitalismo, a indústria, a história. Tudo para que você pudesse se sentir confortável no corpo e na pele que tem.

Mas eu não posso.

O mundo não é gentil, menina!

Essa missão é sua:

Seja gentil com você mesma, por favor!

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora