Carta 3 - Malditas garotas

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Santa Clara, 26 de setembro de 2019

Luísa,

Garotas incríveis choram por garotos estúpidos.

Digo isso porque vi você chorar. Naquele dia mesmo, voltando do banheiro da minha casa. Antes de você se deitar na minha cama e fingir que estava tudo bem, eu vi a vermelhidão que ainda estava no seu rosto.

Você se deitou de lado, de frente para mim, e me encarou como nunca antes havia encarado. Seus olhos diziam tantas coisas que eu não fui capaz de ler. Mas a dor era óbvia.

— Tá, mas o que ele falou? — você questionou, impaciente. Disso eu me lembro com perfeição.

Seu olhar sem brilho, seu rosto vermelho nas sobrancelhas e no nariz, você fingindo mal que estava bem. E aquela vontade que eu tinha. Eu tinha sempre, Luísa. Ela andava comigo, de mãos dadas, em todos os lugares.

Eu queria tanto abraçar você, te apertar e não soltar mais.

— Não sei. Uma sequência ridícula de nadas.

— Ah não, Rafaela! Não começa a falar como se fosse letra de música emo!

— Deus me livre de emo! Eu hein?!

— Não sei por que o preconceito. São as melhores bandas e as melhores músicas. E você é a pessoa mais hardcore melódica que existe. É emo, sim. Só não descobriu ainda.

— Nem vem, Luísa...

— É sério. E é só por isso que eu gosto de você, porque, no fundo, é a personificação das músicas mais tristes da Fresno. Afinal, se dependesse de você me contar as coisas, não seríamos amigas.

— Eu te conto as coisas. Só não me lembro do menino ter dito nada relevante. Mas pra que você quer saber disso?

— Quero saber o que ele anda falando de mim pela rua, né?

— E isso importa? A gente já sabe, Luísa! Ele imprimiu e colou por toda a escola!

Você virou a cara para mim, como se eu tivesse te obrigado a tomar limonada sem açúcar, e olhou para o teto.

— Eu não entendo — confessou, inconformada.

— Eu também não, Lu.

Virei-me e encarei a lâmpada desligada sobre nós. Apagada, assim como você. Em um salto repentino, me levantei e a acendi. Eu sabia que não poderia iluminar a parte de você que havia sido apagada. Eu sequer compreendia onde exatamente essa parte ficava, se era no orgulho ou se era na pele. Eu não sabia, Luísa, porque sou branca. Nunca vou compreender. Mas aquela lâmpada eu podia acender, mesmo que estivesse claro.

— Tá maluca, Rafaela? — Seu jeito ultrameigo sempre me comoveu. — Tá de dia!

— Mas está escuro!

— Onde está escuro?

Em todo os lugares. Eu queria ter respondido.

Estou me perguntando agora se você se lembra dessa conversa do mesmo jeito que eu. Acho que não. Na verdade, imagino que nem se recorde. Era só mais uma tarde, como incontáveis outras tardes que passamos juntas no meu quarto. Você falando, sem se cansar, sobre as últimas novidades das suas bandas preferidas; e eu contando, empolgada, as histórias dos livros que lia.

Eu não gostava das suas bandas, você não gostava dos meus livros. Mas a gente gostava uma da outra, e isso sempre havia bastado.

Até aquele dia.

Olhando de longe, vejo perfeitamente onde as coisas começaram a se quebrar. Nessa tarde, no começo de setembro, quando você se sentou na beirada da minha cama e encarou minha pilha de livros.

— Tem alguma história com pessoas negras aí?

— Tem — respondi sem certeza.

— Nenhuma delas é a princesa, né?

— Eu não tenho livros de princesas, Luísa, tá me estranhando?

— Ah, Rafaela, você entendeu! Em algum desses livros, alguma menina negra é a principal?

— Não que eu me lembre. — Eu ainda não tinha compreendido a grandeza do que você queria me dizer.

— Então, aposto que nenhum desses foi escrito por uma pessoa negra.

— Não. — O soco no estômago. — Acho que não.

— Tem muito livro aí. — Você apontou, de um jeito quase displicente.

— É, tem... — Sem graça, me aproximei um pouco. — Mas, Lu, nas suas bandas emo não tem nenhum negro também...

Eu falava cada coisa!

— É verdade, não tem.

— Então?

Meu Deus, como eu era lenta!

Você me fuzilou com seus olhos negros de juíza.

— Rafaela, esse é o problema! Meninas como eu só têm destaque quando é para ser chacota.

— Claro que não, Lu!

— Não? Há quanto tempo a gente se conhece? Dez anos?

— Por aí...

— A gente tira notas parecidas, anda com as mesmas pessoas, conversa sobre os mesmos assuntos. Não, é mentira. Eu tenho muito mais assunto pra conversar que você. Foi um sacrifício te convencer a ver o filme com a gente no fim de semana, e não faz essa cara porque você vai!

— Não tô te entendendo!

— Exatamente, você não está me entendendo. Nós somos quase a mesma pessoa, Rafa. Mas você é o modelo que todos querem seguir. A garota quase perfeita. Eu... sou a chacota. O motivo de piada. Se a tia Desgraça não tivesse proibido aquelas porcarias de listas de mais bonitas da escola, eu estaria onde? — Você fez uma pausa e voltou a olhar para os livros. Depois olhou as costas das suas mãos. — Você é do topo. Nunca vai entender.

Eu realmente nunca vou entender. Mas, me justificando porque é para isso que servem estas cartas também, existiam outros motivos que me levavam a ser incapaz de compreender o que você me dissera.

Para mim, Luísa, você sempre foi a menina mais bonita da escola. Da cidade. E, sinceramente, conheci muitas pessoas nos últimos anos. Nenhuma delas, nem mesmo aquela que levou o resto de beleza que eu via no mundo, tiraria você do topo da minha lista particular.

Você era perfeita.

As marcas de espinha na bochecha direita eram perfeitas. O cabelo crespo curtinho que o mundo odiava era perfeito. Seu corpo que jamais conseguiria ser esguio era perfeito.

Luísa, não havia nada em você que eu não amasse.

Eu amava até as suas bandas emo, porque você as amava.

Luísa, eu me amava mais porque você me amava.

E eu queria dizer tudo isso a você, mas não conseguia. Não conseguia deixar escapar nada que entregasse o tamanho do que eu sentia.

Então, eu me vesti de branca salvadora e quis libertar você dos pensamentos autodepreciativos que o mundo (que sempre me favoreceu) enfiou na sua cabeça.

O pior era que eu realmente acreditava que salvaria você.

Garotas estúpidas fazem coisas estúpidas.

Acho que aprendi isso tarde demais


Rafaela

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora