Carta 2 - Malditos garotos

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Santa Clara, 26 de setembro de 2019

Luísa,

Não me lembro o nome do garoto. Apesar de ter uma memória que beira o surreal, não consigo me lembrar. Era um menino branco e só. Nada extraordinário. Um rosto comum, um nome comum, um garoto comum.

Mas ele se achava tão especial, vestido de um sorriso arrogante, segurando um cartaz mal montado, impresso em folha A4. Ainda hoje me pergunto o que levou aquele sujeito a se dar ao trabalho de montar tal humilhação. Quão vazio alguém deve ser para perder o tempo tentando diminuir o outro? Minha mãe costuma dizer que o nada quer transformar tudo em vácuo. "Um abismo chama outro abismo", está escrito em algum lugar na bíblia.

Aquele garoto era um abismo, Luísa.

Assim como você.

Armado com todo o seu nada, ele chegara à cidade havia pouco tempo. Queria marcar território, chamar a atenção. Como o predador que achava ser, buscou uma vítima, a mais fraca, aquela excluída, deixada para trás pelo bando.

Mirou em você, porque te leu errado.

Todo mundo lia errado.

Principalmente eu.

Mirou em você porque não te conhecia, porque te enxergou com um olhar cheio de preconceito.

Já vou pedindo desculpas por inventar quase todos os diálogos destas cartas. É impossível me lembrar de tudo, como foi dito, há dez anos. Então, dou a mim mesma a liberdade de imaginar o mais próximo da realidade que conseguir.

Posso não me lembrar dos detalhes. Mas me lembro dele, vestido com uma camisa verde, em pé, de frente para outros três garotos. Os meninos davam risadas altas, sentados na mureta recém-pintada do coreto da praça, enquanto ele lhes mostrava, com orgulho, o papel que segurava.

As risadas altas foram diminuindo de volume lentamente quando os meninos notaram que eu estava ali. O último deles, um garoto negro que você conhece bem, foi o último a deixar o sorriso morrer.

Está aí uma coisa que eu nunca vou compreender.

Aproximei-me deles, completamente puta. Eu sentia tanta raiva que era capaz de enrolar aquele papel A4 e enfiar goela abaixo em todos aqueles meninos. Mas eu não era tão forte e poderosa como minha imaginação desejava, então, apenas arranquei a folha das mãos do garoto e o fuzilei com todo o meu ódio.

— Quem é você? — Eu devo ter dito isso, não me lembro. O que nunca vou esquecer é do olhar que ele me lançou. Aposto que não gostara de ser peitado por uma menina de (quase) um metro e setenta, magra e frágil. Feri seu ego, tomei seu lugar de conquistador. Naquele instante, eu era uma ameaça.

Encarei a montagem em minhas mãos. Senti o gosto salgado da minha saliva, predizendo que o nojo que eu sentira subiria à boca. O mau gosto daquelas imagens, alinhadas sem preocupação alguma com quem iriam ferir.

Nunca vou compreender totalmente os motivos daquele garoto.

E nem quero.

— Foi você mesmo quem colou essa porcaria nas pilastras da escola? — questionei.

— Não é da sua conta.

— Você sabe quem eu sou, imbecil? — Isso eu me lembro de ter dito. O rapaz me olhou de cima até embaixo, fazendo uma cara de desdém. Mas, antes que ele pudesse me ofender com alguma frase de quinta-série, o garoto negro (que agora já não ria mais) se meteu entre nós.

— Rafa, é só uma brincadeira. Não precisa ficar brava.

— Brincadeira? Sua avó vai adorar ver o tipo de brincadeira que faz você rir, Alex.

— Você nem brinca... — disse, em tom de ameaça. Você conhece seu primo melhor do que eu, Luísa, o tom dele era sempre de ameaça, como se alguém fosse acreditar que ele oferecia algum perigo.

— Uai, você não adora brincar? Não gosta de rir das brincadeiras dos seus amigos? Então, vamos ver quem ri dessa daqui na próxima reunião da sua família.

Se fosse possível, ele teria ficado branco.

— Quem é essa daí, Alex? — O fulano (realmente me fugiu o nome. Era Lucas? Mateus? João? Marcos não era, se fosse, eu me lembraria) perguntou. — É sua parente.

— É a minha prima!

Como eu odiava ser incluída na sua família. Mas, naquele dia, não reclamei. Pelo contrário, usei como argumento.

— Você é baixo, Alexsandro. Como tem coragem de rir de uma porcaria dessas? — Joguei o papel sobre o peito do seu primo. — Depois de tudo o que aconteceu. Depois desse ano horrível... Sua avó...

Não terminei a frase, porque eu sempre gostei de jogos psicológicos. Deixaria o Alex lá, com minha voz martelando em sua consciência, enquanto o papel voava e caía entre os meus pés e os pés do tal garoto que fizera a montagem.

— E você... — Ergui meu dedo na direção do Sem Nome. — Nem precisa desarrumar a mudança, porque não vai durar aqui.

Tenho certeza que o menino pensou que chegaria na minha escola, humilharia a minha amiga e ficaria rindo, impune, pela praça da minha cidade. Em Santa Maria Madalena, você precisa conquistar o seu espaço. Precisa conquistar respeito.

Juro que a promessa era vazia. Eu era popular na escola, sim. Mas só isso. Tinha o ego e a arrogância de uma menina de dezesseis anos que acha que tem o mundo nas mãos. Só que, na real, eu não tinha poder algum.

De todo jeito, em menos de um mês, o tal garoto sumiu de Santa Má, assim, como havia aparecido. Apenas para fazer um estrago que não desapareceu com ele.

Eu me lembro de ter desviado o olhar do rosto branco e comum dele e encarado a folha no chão. Na impressão virada para cima, sua foto de perfil no Orkut, linda como sempre, mas com o cabelo alisado, o rosto maquiado, um filtro que te embranquecia. Ah, Luísa, aquela montagem mudou tudo. Ao lado da sua foto de perfil, outra fotografia trazia a Luísa que eu amava mais: a do dia-a-dia, com o cabelo curtinho e natural, o uniforme da escola e um sorriso que eu achava perfeito.

Para aquele garoto sem nome, porém, sua imagem era motivo de chacota. Junto à primeira foto, ele escrevera "no Orkut"; junto à segunda "na vida real", como se você fosse um produto passível de testes de qualidade, um objeto, um troféu quebrado.

Não satisfeito em apenas criar aquela maldade sem tamanho, ele ainda se sentiu no direito (ou no dever) de alertar a todos sobre a falsidade da sua aparência, algo que só existia naquela mente podre que ele carregava dentro do crânio. Tão vazio e infeliz, imprimiu cópias coloridas (que custavam uma fortuna na época), entrou na escola bem cedo, pelo buraco no muro que eu descobri depois, e as colou por todo o pátio, pilastra por pilastra.

Sua imagem, Luísa. Uma humilhação que te marcou para sempre, que tirou tudo do lugar e desviou você da minha rota.

A maldade deixa marcas profundas demais.

A tentativa de conquistar o espaço vazio de idiota da escola, fez com que o Não-me-lembro-o-nome acabasse sendo suspenso e, depois, ignorado e deixado de lado. Ninguém queria ter associação com o garoto que tentara humilhar você. Desesperado por atenção, ele meteu os pés pelas mãos, até ser transferido de escola e, consequentemente, de cidade.

Garotos estúpidos fazem coisas estúpidas. Está aí uma coisa que eu nunca vi mudar

Rafaela

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora