Capítulo 54

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A chegada da comitiva causou mais rebuliço do que a partida. As mulheres tomavam chá na varanda do solário quando perceberam o retorno dos homens e foram bisbilhotar para descobrir o que estava acontecendo. As fofocas não confirmadas pelas criadas indicavam que o filho da governanta fugiu e o duque, um homem magnânimo e muito altruísta, decidiu ajudar a encontrá-lo.

Caroline Eckley sabia que era muito mais do que aquilo. Ela conhecia Aiden melhor do que aquelas damas alienadas e não acreditava que o deslocamento da programação se desse apenas a um surto de bondade. O duque destacaria seus criados e arrendatários para encontrar o menino e prosseguiria com sua caçada. Afinal, era a caçada dos Trowsdale, o maior evento de Kent em todo verão.

Quando viu o puro-sangue marrom apontar no horizonte, ela teve certeza que seu amante estava escondendo algo. Na noite anterior ele não estava em seu quarto. Ela foi até ele, bateu à porta, mas Aiden não respondeu. Não havia velas acesas, nada que indicasse que ele retornada depois de uma escapada pelo campo. E, então, ele retornava da busca com a governanta sentada em seu colo.

A forma como ele conduzia o cavalo e, ao mesmo tempo, protegia a Sra. Collingworth era tocante. Lady Eckley não teve dificuldade de identificar o gesto como cuidado. Carinho. Algo que um homem só faria por alguém que ele nutrisse sentimentos de afeto.

O Duque de Shaftesbury estava envolvido com a governanta.

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Elizabeth lembrava da ausência de sentidos apenas quando perdeu Gregory. A cólera era cruel e já tinha levado muitos conhecidos e amigos, mas a perda do marido a deixou desorientada. Peter, ainda recém nascido, chorara por horas até que ela conseguira dar a ele a atenção necessária. Talvez aquilo tivesse influenciado nas atitudes de Patrick. O filho mais velho era uma criancinha quando precisou lidar com a perda súbita do pai.

E então ela estava vivendo tudo aquilo de novo. Desde o momento em que viu Patrick no chão, tudo não passava de uma sucessão de eventos que iniciavam mas não terminavam. Ela não veria, se terminassem.

Sentada à beira da cama onde o filho dormia, ela segurava a mão dele enquanto as pessoas estavam alvoroçadas indo e vindo. Gretha colocou um pano frio na cabeça ferida de Patrick. Havia um calombo em sua testa e a pele estava machucada. John segurava um crucifixo e fazia uma oração. Geoffrey trouxe um odorizante alcoólico e levou ao nariz do menino para que ele cheirasse.

Até o doutor Davies chegar, dias poderiam ter se passado sem que ela sequer percebesse. O barulho das vozes era ouvido, mas não lhe importava.

— Aiden. — Lady Agatha disse, em baixa voz. Elizabeth sabia que ele estava ali, o duque. Ela quase podia sentir a mão dele em seu ombro. — Vá entreter os convidados. Eu ficarei aqui com ela.

Elizabeth também não notou a negativa dele. O movimento de cabeça que indicara que não, ele não sairia daquele quarto. Mas ele precisava ir. Lady Agatha tinha razão e os convidados não podiam ser deixados sozinhos. Os comentários se intensificariam e a duquesa...

— Se você insistir em ser cabeça dura, mamãe vai surgir aqui para saber o que está acontecendo.

— Mamãe. — Aiden repetiu a irmã em uma súbita realização de algo. — A duquesa. Ela causou tudo isso. Foi por causa dela que o menino fugiu.

— Ela é uma pessoa má. Cruel. Nós sabemos que ela é assim mas, de qualquer forma, é nossa mãe.

— Ela quase matou uma criança, Agatha! — A voz do duque se intensificou. — Não dá mais para ser complacente com as atitudes dela. Mamãe passou dos limites e isso eu não vou tolerar.

Aiden rompeu para fora do quarto no mesmo instante em que Hodges chegou, arfante, com o médico. O duque teve tempo de recomendar ao doutor que fizesse tudo que estivesse ao alcance da medicina para curar o menino. Que não faltaria dinheiro para pagar as despesas nem recursos para tratá-lo. 

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Enquanto as mulheres fofocavam no salão de chá, Myrtle Trowsdale imaginava como faria para impedir que aquilo se espalhasse. Eles estavam ali em Kent, um pouco afastados do furor londrino que ela há muito desconhecia, mas o escândalo não demoraria a se alastrar como erva daninha. Ela bebericava sua xícara com Earl Grey quando Aiden entrou salão adentro.

As damas se agitaram. As solteiras estavam animadas, mesmo depois de terem visto o duque chegar com Elizabeth em seus braços. Para as ingênuas perseguidoras de maridos nobres, ele era um herói. O salvador de crianças indefesas, aquele que devolvia os filhos perdidos para suas mães. Para as mais velhas, era apenas um devasso incorrigível que fizera da governanta o mais novo nome no seu interminável rol de amantes.

— Mamãe. — Aiden colocou-se à frente de Myrtle. Seus cabelos estavam desgrenhados e ele não se preocupou com a aparência. Era incomum que o duque se postasse tão desalinhado na frente dos convidados, mas aquele era um dia atípico. — Nós precisamos conversar. O que a senhora disse ao menino Collingworth antes de ele sair galopando daqui?

O burburinho de vozes indicava que todas estavam prestando atenção no duque.

— Nada demais. Por que acha que eu tenho algo a ver com o que aconteceu?

— Porque a senhora tem. Diga, o que foi que a senhora falou que o transtornou tanto?

— Já disse, Aiden - nada. O pirralho é muito sensível, eu apenas o impedi de continuar mexendo nos livros.

Aiden pressionou as têmporas com os dedos, visivelmente perturbado. A vontade de agredir a mãe era quase maior do que seu autocontrole. Era a primeira vez em sua vida que ele não sentia pena de Myrtle, nem se compadecia da condição dela.

— Mamãe, ele não estava "mexendo nos livros". Estava procurando um gatinho fujão. Mesmo assim, Patrick está aprendendo a ler e eu deixei que lesse os títulos na biblioteca. Ele tem minha autorização para estar onde quiser nessa casa. A senhora não pode achar que manda na minha casa. Minha. Casa. — Ele enfatizou as palavras. Sua voz saía como um rosnado. O Duque estava perto de uma síncope. — Se alguma coisa acontecer com esse menino, o sangue dele estará nas suas mãos.

— Você é muito ingênuo se não consegue ver que está sendo manipulado por essa família. — A duquesa se levantou. Emma se aproximou, mas ela escorraçou a criada. — A governanta...

— Elizabeth é uma mulher honrada. — Ele a interrompeu e fez com que se sentasse novamente. A duquesa quase caiu no sofá. — Ela foi contratada por mim e os filhos dela são bem-vindos nessa casa. Se a senhora fizer qualquer coisa que a incomode ou atacar aqueles meninos novamente, eu prometo que Paris será um destino próximo demais para suas próximas férias.

Aquele era o fim do resquício de controle que restava ao duque. Ele saiu pisando forte do salão. Não cumprimentou as damas, não demonstrou nenhuma elegância nem fineza ao bater a porta atrás de si. Se continuasse ali, Aiden faria algo do que se arrependeria. A mãe poderia ser uma alma sem salvação, mas aquela tinha sido a última maldade da duquesa.

 A mãe poderia ser uma alma sem salvação, mas aquela tinha sido a última maldade da duquesa

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A duquesa má está por trás de tudo. Aiden ficou bravinho e deu um ultimato para a mãe - ou ela se comporta e respeita Elizabeth, ou será deportada para Paris. 

Paris. PARIS!

Mas é castigo porque era assim que os filhos se livravam das mães inconvenientes e maldosas. Teremos outro capítulo hoje ainda porque sim. Beijo grande.

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora