um pub a céu aberto; lanternas de papel chinesas derramavam luzes douradas nas mesas de madeira.
O amigo de uma amiga ocupava a mesa com o nosso grupo, tomando cerveja. Ele tinha o cabelo pintado de ruivo, um nariz longo e um sorriso atraente.
Em certo momento, esvaziou o copo inteiro e se levantou da mesa para o banheiro.
Nas mesas ao redor, o cheiro de cerveja e cigarro aceso, as gargalhadas das conversas alheias.
Assim que ele se distanciou, minha amiga se inclinou para mim e apertou o meu braço.
— Você devia investir no Edu. Ele é bonito e, bom... também é gay — disse sorrindo e encostando em minha mão.
"Ele também é gay".
Talvez fosse o álcool, pensei, e engoli mais um gole.
"Mas eu não sou gay".
A cerveja tremeu no meu copo; tremi eu também.
A frase me pesava na boca, mesmo sem ser dita. Já tinha sido falada tantas outras vezes, que me fazia pensar se valia a pena eu repeti-la.
Costumo me calar para não complicar as coisas. Não respondo algo pra não iniciar uma discussão. Mas então, eu afundo, e ao mergulhar, me lembro.
Recordo vagamente a primeira vez em que ouvi a palavra proibida, aquela que parecia ter cheiro de ozônio, algo elétrico e faiscante, que abriu um trinco para uma porta escondida dentro de mim que até então eu desconhecia.
Quem sabe tenha sido em uma entrevista de algum ator ou cantor para a TV.
Talvez tenha sido por causa do David Bowie, por conta de algum burburinho da época sobre o Leonardo DiCaprio ou o Will Smith, ou em algum livro que caiu em minhas mãos. Ou apenas a Natureza seguindo seu curso, e eu descobrindo aquilo em mim, de uma maneira óbvia, em tudo ao meu redor.
— O que é bissexual?
— É quando você gosta dos dois, caras e meninas.
No fundo, eu já sabia. A palavra apenas deu corpo, forma e cheiro ao que já me habitava; os monstros precisam de nomes para existir.
No meu âmago, aquele meu oceano mais íntimo, senti uma confirmação. Sabia que estava lá, e quando soltei a respiração, percebi que a segurava sem saber.
"Mas eu não sou gay, não apenas gay. É diferente".
Vinha à minha cabeça vagamente a imagem da minha mãe me perturbando para saber se eu estava namorando uma amiga de escola quando eu tinha 12 anos. Achei aquilo um absurdo na época. Nem tinha beijado.
Quero dizer, beijado sério, como as pessoas realmente se beijam. O máximo tinha sido esbarrar na cabeça de alguém, os lábios se tocando por acidente.
Lembro de andar com meus dois melhores amigos e de passar mais tempo com eles do que com as meninas, de ficar conversando ou brincando no recreio ou depois da aula, de explorar o além do muro da escola com eles...
E aí, deve ser a bebida.
Afundo ainda mais. De-va-gar.
Naquela época, eu tinha 16 anos quando, sozinho no quarto à noite, imaginei uma das meninas da escola.
Ela era alta, magra. Uma mecha roxa cortava seus cabelos castanhos. Os lábios bem vermelhos. No fim do período de aulas, naqueles dias quentes de verão, a camisa amarrada deixava à mostra a barriga.
Naqueles fins de tarde, depois da aula, a turma toda se reunia e comprávamos sorvete e ficávamos sentados na calçada, perto da escola. Era o momento em que mais podia me aproximar.
Ela namorava, é claro. O cara era alto, loiro, ligeiramente musculoso e usava um brinco na orelha. Era um típico jogador de basquete.
Os dois se abraçavam contra a parede e ficavam ali, dois deuses dourados, e eu chegava a me arrepiar sempre que ficava perto demais deles.
Sempre sentia um ligeiro choque elétrico, breve, ao imaginar abraçar os dois, tocar os dois.
Me lembro de outras coisas ainda.
Uma garota e um garoto. Amigos meus. Estávamos na casa dela. Os pais tinham saído e só voltavam tarde.
Misturamos vodca com refrigerante de limão.
Brincando, os dois esfregaram os narizes em meu pescoço, me fazendo sentir arrepios.
Seus lábios se aproximaram dos meus, uma coisa levou à outra e nos beijamos, os três, sedentos.
Nossas línguas se enrolavam, quando dividimos as bocas um do outro. E eu sentia que ia derreter.
Depois, ficamos deitados, abraçados. As pernas entrelaçadas, os braços enrolados, rindo, como se fôssemos uma ninhada de filhotes órfãos se aconchegando.
Eu poderia morrer feliz naquela hora.
Afundo mais.
— Sou bissexual, na verdade — soltei de repente, no nosso terceiro encontro, diante do shopping.
A palavra soa esquisita na boca, um limiar suspenso. Me senti um mentiroso, um farsante.
Tínhamos dois com sorvetes nas mãos dele: o meu de chocolate, o dele de pistache.
Foi um jeito abrupto e estranho de falar isso para ele, mas é assim na maioria das vezes, nunca fiquei bom nisso.
Ele engoliu uma colher, piscou e sorriu.
— Não tem problema. — me disse. — Por mim tanto faz.
Ele ainda segurava o sorvete dele, intocado. Uma gota escorreu pela sua mão.
Estava sorrindo, mas tinha algo de incômodo, como se fosse condescendência.
— Mas, ãhn, você já saiu mais com qual?
Acho que ele não acreditava em mim. Pistache sendo pistache. E eu, nada.
Nunca mais nos vimos. Agora, costumo dizer logo de cara que não sou gay e espero a reação que vem em seguida.
"Não, na verdade eu sou bi"
Na cama, com um cara aleatório, ainda suado. Deitei no travesseiro, olhando o teto. Minha respiração ofegante voltou a normalizar.
— Então... você é bi mesmo?
— Aham.
— Mas... você faz exames pra DST, não é? — ele perguntou, sem me olhar, tentando soar descontraído, mas visivelmente constrangido.
— Você pergunta isso para todo cara com quem fica?
— Claro que sim. Você não?
Não respondi. O silêncio era mais seguro que qualquer palavra. Tínhamos conversado sobre PREP. Sabia que perguntar dos exames era só o verniz.
Acendo os semáforos vermelhos diante de qualquer presença.
E eu novamente não sei o que responder. E não tenho uma casquinha nas mãos para fingir que não posso falar nada, porque tenho apenas um copo vazio de cerveja nas mãos agora. Minha muleta social perdendo o seu efeito mágico.
O garoto ruivo, o Edu, de alguma maneira já voltou pra mesa.
E eu me convenci secretamente de que ele nem é tão interessante assim.
Sirvo-me outra vez e deixo o gole escorrer devagar.
Perdi alguma piada que algum dos meus amigos contou. Todos riram, como a claque de um programa de televisão.
Eu forcei uma risada curta. Talvez seja convincente. Ela flutuou, não mais alto que nossas cabeças, e morreu antes das lanternas.
N. A.: Texto reeditado e revisado em setembro de 2025 para o Dia do Orgulho Bissexual.
