As Crônicas de Fedors

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Um homem caminha solitário por uma estrada longa e seca. O sol incessante e a leve tempestade de areia castigam o seu corpo e fazem arder seus pés calejados por uma longa e árdua jornada. Para a sua alegria, observa no horizonte uma grande árvore de poucas folhagens, mas capaz de saciar o seu desejo por alguns minutos de descanso. Ao se aproximar dela, assusta-se com uma figura encostada do outro lado.

O indivíduo aparentemente está morto e exala um odor putrefato. Tocando o cajado no corpo decomposto, o viajante arrisca começar um diálogo.

— Olá?

A figura sinistra move vagarosamente o rosto na direção do viajante. Sua face está aparentemente toda queimada, seu corpo coberto por um manto negro dos pés à cabeça, seus olhos escuros levemente fechados. Não possuía nariz, e apenas uma metade dos lábios era visível. Os dentes eram amarelados, com marcas de sangue e escoriações, a face aparentemente derretida e desbeiçada talvez tivesse sido queimada, ou o sol a tenha esturricado. A parte esquerda do rosto é composta apenas por ossos brancos e resíduos de carne apodrecida. Um pedaço de pano sujo em trapos cobre o pescoço e braços. Lentamente os seus olhos se abrem, e ele deixa escapar um gemido baixo e rouco.

— Hum...

Nesse instante, pode-se notar vários insetos voarem em várias direções, abandonando o corpo da criatura imóvel e aparentemente em decomposição. A árvore onde se mantinha encostado está seca e coberta por formigas e coprófagos. Folhas e galhos forram o solo ao seu redor, como que nunca tivessem sido tocados ou movidos por humanos. Os urubus e corvos pousam sobre os galhos, o cheiro de carniça expelido pela criatura incita-os, entretanto não podem devorá-lo, pois seu corpo ainda tem vida.

Salazar, assustado, dá um pulo para trás e, arregalando os olhos, pergunta ao desconhecido:

— Como pode estar se movendo?

A criatura movimenta lentamente o osso maxilar e, repentinamente, começa a dialogar com o viajante:

— Desculpe-me a minha indelicadeza... Sente-se comigo e faça-me companhia.

Ao contrário do homem à sua frente, o ser contínua sentado, cansado e tristonho, mas a sua voz é calma e doce. O viajante senta-se ao lado da criatura sinistra. Encarando-a fixamente faz outra pergunta, agora em voz trêmula:

— O que houve com o senhor? Parece-me muito doente. — Salazar, enquanto conversa com ele, aproxima-se mais do homem e minuciosamente observa suas feridas e escoriações.

A criatura, sorrindo com muita dificuldade, movimenta agora a perna direita que estrala como se os ossos estivessem soltos, e encosta-se no tronco da árvore ao seu lado. Batendo a mão em uma formiga que caminhava pelo seu corpo, pronuncia mais algumas palavras ainda em tom de voz suave.

— A minha história é longa e muito dolorosa e pode demorar muito para ser compreendida. — As últimas palavras já são ditas em voz alta, mas logo desencorajada, parecendo querer a desistência do curioso à sua frente, que nesse momento, no entanto, aparenta muito mais interesse em conhecê-lo.

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