Capítulo 35

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O duque deveria ser um bom homem, mas possuía a ingenuidade dos aristocratas. Elizabeth não podia esperar que ele a compreendesse nem perderia seu tempo tentando fazê-lo entender coisas que não fariam diferença na vida do nobre. Ela preferia aproveitar o toque de suas mãos quentes enquanto compartilhavam a manhã na praia.

Mas o tempo passou e eles precisaram voltar para a companhia dos outros. Enquanto caminhavam de volta para a realidade, ela via seus filhos se divertindo, imundos e molhados, e imaginava que estava se iludindo. Em breve aquilo iria acabar e eles voltariam para a vida medíocre que tinham, mas era a vida que podiam ter. Que aproveitassem as boas coisas enquanto elas durassem.

— Obrigada. — Foi o que conseguiu dizer antes que a mágica que lhes permitia desfrutar de momentos a dois acabasse. — Isso significou muito para Patrick e Peter, então eu agradeço por essa gentileza.

— Mesmo que eu tenha feito isso apenas pela senhora?

— Nesse caso, os fins justificam os meios.

Ele riu e aquele deveria ser o sorriso mais lindo que Deus criou. Nunca lábios se ergueram daquela forma tão sensual, nem covinhas tão perfeitas se formaram nas bochechas de ninguém como elas se formavam nas dele. Aiden Trowsdale era uma obra de arte que andava e falava. E tinha um cheiro incrível de madeira e bergamota.

— Foi um prazer ter sua companhia hoje.

O duque segurou a mão dela e beijou os dedos de uma forma reverencial. Era impressionante como ele conseguia ser um devasso, tocando-a de forma inadequada em algumas situações, e um perfeito cavalheiro, em outras.

Precisava parar de pensar no homem e conseguiu isso se ocupando de alimentar as crianças. Ela e Moira, a criada pessoal da lady, trataram de organizar um lanche para os meninos, mesmo que eles estivessem tão molhados e sujos que fossem comer mais areia do que qualquer outra coisa. Claro que ela não conseguiu evitar os olhares suspeitos que Lady Agatha lançou tanto para ela quanto para o irmão, que fingia não estar prestando atenção demais em tudo. Claro que também não conseguiu evitar pensar nele, afinal.

Enquanto as crianças comiam, Elizabeth notou movimento ao redor. Duas meninas, uma delas menor do que Peter, observavam a comitiva. Elas estavam muito magras e pareciam famintas. Tinham olhos grandes e claros, cabelos que pareciam loiros mas estavam encardidos. Quando perceberam que estavam sendo vistas, tentaram se esconder atrás de algumas pedras que estavam próximas.

Elizabeth foi até elas.

— Como vocês se chamam?

As duas a encararam sem saber se deviam responder. Seguravam a mão uma da outra e pareciam também amedrontadas. Talvez as pessoas que frequentassem a praia não as tratassem muito bem.

— Podem me dizer. Eu sou a Elizabeth, mãe daqueles dois garotinhos ali. — Ela apontou Peter, que estava de pé imitando alguma coisa, e Patrick, que comia de forma serena enquanto observava os outros. — Eu moro em Londres. E vocês?

Uma delas apontou para a direção da vila.

— Meu nome é Helga. — A de aparência mais velha disse.

— Vocês querem se juntar a nós, Helga? Estamos comendo e acho que vai sobrar um pouco de comida. Querem nos ajudar?

As duas se entreolharam e recuaram dois passos. Elizabeth se distraiu com as meninas e não notou quem se aproximava. Por trás dela surgia a figura imponente do Duque de Shaftesbury. Um pouco desgrenhado pelo vento, pelo sol e pela maresia, ele ainda parecia o homem mais poderoso da face da Terra. E sua presença causava estupefação e pavor em qualquer pessoa.

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora