Capítulo 33

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Aquele evento de chá parecia um pesadelo para Elizabeth. Além de ficar de pé ao lado da mesa para servir as damas, ela tinha que suportar a conversa desagradável sobre um casamento sendo arranjado para o duque. Sua função não era servir, mas Lady Agatha parecia solicitar sua companhia para todas as ocasiões. Ela não se importava, gostava da jovem e estar na presença dela era empolgante.

Mas aquele evento não estava sendo nada divertido. Sua invisibilidade se acentuou com a chegada a duquesa viúva e nem mesmo Aiden pareceu notá-la no salão. Sem contar o assunto que ouvira sem poder evitar. Deveria ser discreta porque uma criada não revelava nada sobre seus patrões, mas não concordava que a mãe decidisse a noiva do filho por suas costas.

Aquilo não deveria surpreendê-la, era como as coisas aconteciam na sociedade.

— Como se chama?

A voz da duquesa atraiu a sua atenção. Elizabeth sentiu o coração disparar e, pela primeira vez desde que fugira de Londres, não fora por uma boa sensação.

— Elizabeth Collingworth, Alteza.

— Certo. Sirva-me mais chá.

Ela pegou a xícara da duquesa e serviu o Earl Grey com leite, sem açúcar. Sua mão tremia e ela pensou que pudesse derrubar a louça quando a entregou novamente.

— Ouvi que tem boas referências. — A duquesa continuou falando com ela, mesmo sem olhar para ela. — E sei que Eleanor Pensington é uma mulher bastante corajosa por contratar uma jovem tão bonita para ser acompanhante de sua filha.

— Eu era tutora de Lady Charlotte, Alteza.

A duquesa virou-se para escrutinar Elizabeth e ela sentiu as bochechas arderem.

— Quais idiomas fala?

— Inglês e Francês.

— A senhora é muito educada e limpa para ser uma criada qualquer. Entendo por que meu filho a contratou e por que Agatha demonstra interesse na sua companhia. Porém espero que não se esqueça do seu lugar nessa casa.

Elizabeth não sabia como reagir nem entendia o que significava aquele momento. Provavelmente a duquesa viúva decidira aparecer para uma demonstração de força e para garantir que o comando da casa ainda era de sua responsabilidade.

— Jamais me esqueceria, Alteza.

— Isso é bom.

A duquesa terminou seu chá e cutucou Emma, indicando que subiria de volta para seu quarto. A dama de companhia a auxiliou a levantar-se e depois a seguiu, sempre um passo atrás, até saírem do salão de chá. O coração de Elizabeth batia totalmente fora de ritmo e ela estava rígida como uma estaca de madeira. Não relaxou nem mesmo depois que a duquesa viúva se fora totalmente e ficara fora de suas vistas.

Como as jovens conversavam e o chá já estava no final, ela pediu licença a Lady Agatha para retornar a seu trabalho. Não que tivesse muito a fazer, mas queria garantir que o jantar saísse conforme o esperado e precisava terminar de inspecionar o restante daquele andar. Só havia finalizado os cômodos do segundo andar.

Eram cinco salões, todos muito bem decorados. O salão de baile era enorme e não tinha mobiliário significativo, apenas quadros e candelabros pendurados. O salão de jantar estava fechado havia algum tempo e a mesa central era tão grande, mas tão grande, que ela imaginou ser capaz de acomodar mais de cinquenta pessoas. Nunca vira uma mesa imensa como aquela. Depois visitou os outros salões e terminou na biblioteca.

Por sorte não precisava inventariar os livros, pois eram três paredes cobertas até o teto por estantes repletas de obras encadernadas com perfeição e cores variadas. Azul, verde e marrom se dividiam em coleções bem organizadas. Esperava que houvesse uma contagem daquelas obras em algum lugar, por isso vasculhou as gavetas da escrivaninha localizada no canto.

Como nada achou, Elizabeth entendeu que precisaria fazer a contagem ela mesma. Talvez devesse perguntar a John sobre aquela informação, mas seu estado de espírito estava conturbado depois da breve conversa com a duquesa viúva. A mulher pretendia afetá-la e conseguiu. Não esqueça do seu lugar nessa casa, a frase ecoava em sua cabeça.

Não era como se ela pudesse se esquecer. Entendia que não precisava ser lembrada daquilo.

— Elizabeth.

Ela piscou ao ouvir seu nome. Estava virada para a janela, segurando alguns cadernos na mão, olhando para o monte de obras em diversos idiomas. Não esperava encontrar ninguém, ou ser encontrada por alguém.

Era ele, o duque que parecia presente demais em todos os lugares nos quais ela estava. Com uma casa daquele tamanho, deveria ser mais difícil que eles se encontrassem tanto.

— Pois não, Alteza.

— A senhora está bem?

A forma como ele se dirigia a ela era muito informal e deveria deixá-la constrangida. Só que, depois de tudo que aconteceu entre eles, era meio ridículo que ela se sentisse ofendida por ser tratada sem cerimônias.

O problema foi que ela não conseguiu respondê-lo. Elizabeth não estava bem. Havia toda a conversa que ouvira sobre o casamento de Aiden e o quanto aquilo a incomodou. Também a forma como ela fora tratada pela duquesa. Mesmo que Elizabeth soubesse que os criados eram sempre tratados daquela maneira, acabou se acostumando rapidamente com a gentileza de Lady Agatha e o interesse do duque. Isso a deixou um pouco incomodada, sim, até mesmo irritada.

— Minha mãe estava no salão. — Ele se aproximou dela. A presença de seu corpo próximo causava arrepios em sua nuca. — Se eu a conheço, ela provavelmente falou algo desagradável. O que foi?

— A duquesa nem mesmo me notou ali.

— Acho difícil de acreditar. Ela desceu apenas por sua causa, Elizabeth. Eu peço desculpas, se tivesse ido até ela falar sobre sua contratação...

Ele a tocou. Passou a mão sem luvas pelo braço dela e subiu até seu ombro.

— Vossa mãe não disse nada demais.

Mas ela se virou e seus olhos a traíram, de forma que ele compreendeu que ela mentia. Aiden levou as duas mãos à face de Elizabeth e roçou os lábios nos dela, que deveria resistir e se afastar porém não conseguia.

— Eu queria tanto cuidar de você. — Arrastou um polegar por suas bochechas. — Por que não me aceita, Elizabeth Collingworth?

Eu aceito, eu aceito tudo. Ela quis gritar, mas não diria nada. Por mais que o desejo de ser cuidada fosse maior do que a razão, ela manteria sua decisão. O silêncio fez com que o duque entendesse e se afastasse. O espaço vazio que ele deixou era incômodo demais. Se ela continuasse com aqueles encontros, seria difícil que resistisse por mais tempo. 

Capítulo do domingo postado

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Capítulo do domingo postado. A duquesa conseguiu abalar Elizabeth. Será que foi mesmo porque ela a tratou como uma criada ou porque o assunto do chá era o casamento do duque? Eu aposto na segunda opção.

Amanhã temos ... um passeio na praia. 

Let the sun shine! 

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora