UM AMOR PARA KARIN

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V

Santa Clara - julho de 2019

Oi, Karin.

Tenho uma lista de coisas que gostaria de dizer a você. Sem saber por onde começar, vou falar de mim.

A criança calada que eu fui encontrou abrigo nas palavras. A adolescente solitária que eu era encontrou companhia nas cartas que escrevia. Acho que é por isso que hoje escrevo esta carta para você.

Porque é através da escrita que eu vivo.

Então, eu quero que você viva também.

Quando nos encontramos pela segunda vez, eu podia jurar que o destino estava brincando com a minha cara. Nada na realidade era tão perfeito. Quando perdi você pela primeira vez, juro que pensei que não seria para sempre, que o universo te traria de volta como fizera antes.

E ele quase trouxe, lembra?

As mensagens que trocamos quando você expulsou o Marco da sua vida, as conversas, as músicas... Eu me lembro de imaginar você cantando Frejat, no dia em que me mandou aquele vídeo de Amor pra recomeçar.

Naquele dia, desejei que você recomeçasse em um amor.

No meu amor.

Foi quando perdi você pela segunda vez.

E tudo pareceu se fechar em mim, como uma tempestade que nunca cai.

E continua sem cair, mesmo depois de ter escrito cinquenta e três mil palavras para você. A chuva ainda não cai. Talvez eu fique assim para sempre, flutuando escura no meu próprio céu.

Depois de muito tempo, as palavras daquela música do Frejat ainda ecoam em mim como um trovão distante.

Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansada ainda exista amor pra recomeçar.

Eu queria que você pudesse recomeçar, Karin. Por isso, quis te escrever esta história, quis te dar este amor clichê, cheio dessas coisas que você amava ler.

Lembra o quanto você amava aqueles filmes melosos? Eu me lembro.

Eu sempre me lembro.

Enfim, depois de tudo, acho que devo te pedir desculpas. Por favor, me desculpa por esta história.

Preciso que você me perdoe por repetir tantas vezes a palavra "olha" durante o livro. É que eu não sabia como explicar, com um termo melhor, o jeito como você me encarava e parecia ler até os segredos que eu mesma já havia esquecido.

Quero me desculpar também por ter me colocado tanto na história, até mesmo em momentos e formas diferentes. Não consegui imaginar para você uma vida onde eu não estivesse.

Ah, peço perdão por colocar aquele homem na sua história perfeita. Acho que não pude me afastar do que ele fizera. Não consegui escrever sem me lembrar, a cada segundo, que ele tirara de você a chance de viver uma história como aquela. Naquele dia, no corredor do seu prédio. Eu ouço, e acho que sempre ouvirei, seus gritos de socorro ecoando por todo o andar. Mas eu não estava lá. Não estava lá para ver que, na realidade, ninguém nunca apareceu para te ajudar.

Na vida real, dificilmente aparecem. Ouvem os gritos, mas se escondem em seus apartamentos, fingem que não devem meter suas colheres, esquecem que são humanos. Quantos ajudam quando uma mulher grita por socorro?

No seu caso, ninguém.

Coloquei Marco na história que escrevi para você, porque eu queria puni-lo. Queria que ele tivesse a sentença que não recebera na realidade. Mas nenhuma justiça nunca vai ser suficiente para tirar de mim essa dor.

E me perdoa de novo, milho, por me colocar na sua história.

É que eu sempre estive aqui, nestas palavras. Sempre fui eu. Em todas as dores e esquecimentos. Eu e as minhas lágrimas.

Eu, Amanda.

Ou Rafaela.

Já nem sei mais onde nasce a escritora e morre a pessoa. Não sei se isso é possível.

Depois que você morreu, tudo o que eu quis foi criar um amor para você. O amor que pensei que não tivesse sido vivido. Mas eu estava errada.

Depois que você morreu, eu não percebi que queria escrever uma história que já havia sido escrita. Não com palavras, mas com vida e amor.

E isso foi mais do que suficiente.

Pelo menos para mim.

Hoje eu sei que amo você, com tudo o que eu sou.

E sei que você me amou de volta.

Obrigada por sempre estar aqui,

Rafaela.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora