XXX - A história que escrevi para ela

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Se a vida fosse uma escolha entre tragédia e romance, qual história eu contaria? Sempre me questionei os motivos de nunca ter finalizado nada. Sempre me perguntei por que corria tanto de finais.

A verdade é que a vida real não dá escolhas. Ela é tudo, ao mesmo tempo, tragédias, comédias, romances, dramas. E eu só conheço a vida. Por mais que eu leia, por mais que mergulhe nas profundezas da ficção, sempre escrevi sobre a vida.

Agora, finalmente, vou terminar alguma coisa. Mas estou enrolando. Tentando adiar as últimas palavras.

Ou fugir delas, como Thiago e Karin fugiram de tudo.

Depois do que houve no bar, Marco foi preso. Dessa vez, Ana Alice prometera que o homem apodreceria na prisão, ou terminaria em um caixão, mas nunca mais chegaria perto de sua neta.

E ela falava sério.

Entretanto, o destino de Marco não havia definido o de Karin.

Ela escolhera ir embora, porque, no fundo, era o que sempre quis fazer. Karin sempre quis fixar seus pés em um lugar, de preferência longe de tudo. Mas nunca quis ir sozinha. Buscara por companhia durante toda a vida, até bater seu carro na moto de Thiago.

Naquele dia chuvoso, enquanto ouvia Ed Sheeran, Karin não fazia ideia de que estava muito perto de encontrar o que procurou por tanto tempo.

Hoje, Karin vê o quão distante está daquela pessoa que havia sido. O medo que andava sempre ao seu lado, no banco do passageiro de seu carro, lhe dando as mãos na rua, sussurrando em seu ouvido quando alguém chamava seu nome. O medo não existia mais. Havia, claro, uma apreensão, bem ao longe. Nada que se comparava ao pavor que ela vinha sentindo nos últimos anos.

Marco ainda estava respirando, em algum lugar do mundo, e ainda atormentava Karin em seus pesadelos. Mas até os pesadelos tinham diminuído.

Ela não queria dar aquele crédito a Thiago. Entretanto, sempre que choramingava à noite, sem perceber, o rapaz a acolhia nos braços e afastava os sonhos ruins para longe.

Karin não precisava de proteção, mas ficava feliz em se sentir segura no abraço de Thiago.

O celular dela toca. Sem medo, ela vê o nome de Rafaela piscar na tela.

— Eu terminei! — a garota grita, eufórica, do outro lado da linha. — Nem acredito que eu terminei!

Karin abre um sorriso.

— Eu disse que você terminaria.

— Quero gritar, Karin!

— Então grita!

— Vou gritar só depois que você ler!

— Você quer que eu leia?

— É lógico, Karin! Escrevi para você!

— Então, me manda. Você sabe onde.

— Estou mandando.

Karin sente o celular vibrar com a notificação do e-mail antes mesmo de desligar a chamada.

— Espero que você goste — Rafaela diz, com simplicidade.

— Eu também espero! — a moça responde, antes de desligar e conferir o arquivo recebido.

O livro realmente está ali. Não é grande, não parece ser complexo, provavelmente ainda tem muito o que melhorar. Mas está ali. Amanda conseguira.

Rafaela conseguira.

O fim, que sempre a perseguiu, está no papel.

E é apenas um fim entre muitos que ainda viriam.

Karin abre o arquivo e se acomoda na poltrona. Antes de começar a ler, dá uma última olhada no dia que amanhece.

Rafaela sempre acordava cedo para ver o dia nascer. Hoje, Karin compreende o motivo.

Toda noite que acaba dá lugar a uma manhã que nasce.

Karin olha para o livro, esperando encontrar muitas coisas ali, principalmente a si mesma.

E encontra.

Karin está na praia. As ondas se quebram longe, mas chegam até seus pés, devagar, antes de se unirem novamente ao oceano.

O vento forte bate em seu cabelo, que ela finalmente havia deixado crescer, mas não parece incomodá-la. Thiago se aproxima dela e olha para a linha do horizonte.

— Vai chover! — comenta, observando as nuvens cinzas ao longe.

— Vai — ela responde, e enrosca sua mão na dele, aproximando os braços. Está frio.

— Acho melhor a gente entrar! — chama, e só então a olha no rosto. — O que foi?

— A Rafa terminou o livro!

— Até que enfim! E aí?

— É muito bom — Karin deixa sua voz ser levada pelo vento.

— Você vai me deixar ler?

— Talvez.

— Nossa, milho! Não seja ruim!

— Se você merecer, eu deixo. — Ela o puxa para um abraço.

— E do que fala esse famoso e finalizado livro?

— Sobre um processo de cura, eu acho. — Karin se solta de Thiago e o encara, encostando sua mão no rosto dele. — Sobre a descoberta e o reencontro de um amor que sempre esteve ali. Sobre como, através da lembrança, podemos eternizar alguém.

— Que profundo! E o que ela eterniza?

Karin desvia o olhar, observando a tempestade chegando. Ela vê os raios clareando as nuvens cinzas, mas não sabe onde a chuva vai cair, não sabe a força que vai ter, não sabe o tempo que vai durar.

Só sabe, com certeza, que aquelas nuvens vão se desfazer e depois vão se formar de novo, para cair em outro lugar.

— O amor, Thiago. O amor dela.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora