XXVIII - Quando o amor vencer

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Eu amava ver o sol nascer. Em todos os lugares que eu ia, fazia questão de acordar cedo e ver o amanhecer. Já vi tantos dias nascendo, em tantas cidades diferentes, que sou incapaz de dizer qual foi o mais bonito.

Há muito tempo não vejo a mesma beleza que eu via antes nas coisas.

Eu me lembro, na primavera em Sapporo, de me levantar cedo, com cuidado para não acordar Karin. Não havia nada particularmente bonito naquele amanhecer, mas o céu estava diferente. Eu sentia que estava diante de algo precioso, como uma pintura cara de museu. Olhei para Karin e desejei acordá-la para que ela visse o sol nascer, junto comigo. Mas ela ainda estava cansada da viagem e dormia tão serena...

Aquele era para ser como todos os outros dias que vi nascendo, no entanto, nunca o esqueci.

Porque Karin estava lá.

Porque, naquele dia, comecei a entender o que é amar alguém. Eu, que nunca havia entendido nem mesmo o que sentia. Eu, que não sabia, antes de Karin, que amar alguém não tem nada a ver com desejo, e, sim, com querer estar.

Naquele dia, entendi que amor não é sobre querer mostrar algo bonito ao outro e impor sua vontade sobre a dele. É sobre respeitar o tempo e o espaço da pessoa, e continuar querendo dividir tudo o que tem de bonito no mundo com ela.

Tem dias que o que eu mais quero é poder dividir com Karin tudo de bom que acontece comigo. Às vezes, me pego buscando pelo nome dela nos meus contatos. Às vezes, me pego ligando, falando sozinha, imaginando que converso com ela.

Mas Karin não está aqui.

Se Thiago soubesse a sorte que tem, não teria ficado parado naquele quarto de hotel, enquanto Karin ia embora. Por mais certo que estivesse, ele devia ter puxado Karin pelo braço e dito que nada daquilo importava mais.

Porque não importa.

Ele mesmo dissera que o importante não são as lembranças que se perderam, mas o futuro que queria construir.

No entanto, Thiago fica ali, parado, enquanto ela vai embora.

Porque amor é respeitar o tempo e o espaço do outro.

Thiago volta para o Brasil e, ainda perdido, vai direto para a casa de Marcela. Mesmo depois de semanas morando com Luan, sua mente se confundira. Ele precisava conversar com alguém e sabia que sua ex o ouviria.

— Não, peraí! Você está namorando a Karin? — É a primeira coisa que Marcela questiona, quando consegue interromper o monólogo de Thiago.

— Sim. A filha do meu médico.

— A Karin, Karin?

— É... — Thiago a olha. — Mas é lógico que você já sabia que estivemos em Acapulco juntos. Agora um monte de coisa faz sentido. — Ele se joga no sofá.

— Thiago, me conta tudo do começo.

— Qual começo? — O rapaz olha para ela, de um jeito desesperado.

— O seu começo!

Então ele conta. Desde o dia em que vira Karin no elevador, até o momento em que ela saiu do hotel em Acapulco, brava com ele. Marcela não comenta nada. No fundo, está feliz por Thiago e Karin, e chateada com os dois por serem tão burros.

— Aí vocês brigaram por causa disso?

— Pois é... Ela devia ter me contado!

— Você é burro, Thiago?

— O quê?

— Eu, o Luan e o Leo também escondemos coisas e você lidou muito melhor. Isso soa como autossabotagem.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora