XXIII - Eu estou aqui

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— Mas você disse que não está acontecendo nada...

— Ainda, mano. Não está acontecendo ainda.

Thiago se despede e desliga o telefone. Em seguida, escolhe alguns pães e compra um bombom para Karin, torcendo para que ela goste de chocolate.

Ela gosta.

Mas uma coxinha sem catupiry, com bastante milho, seria mais certeira.

O rapaz volta ao prédio de Karin sem conseguir parar de sorrir, feito um bobo, pelo caminho. Ele presta atenção ao trânsito, antes de atravessar a rua, sem saber bem o motivo de ter tanto medo de ser atropelado. Uma das coisas que contaram a ele foi que, graças a um acidente de trânsito, o tumor foi descoberto e tratado a tempo. Mas Thiago nunca quis saber o que acontecera, tinha esperança de se lembrar.

Não se lembrou.

No entanto, agora, chegando ao prédio de Karin, Thiago não se preocupa com as lembranças que não tem mais. Tudo o que ele quer é viver.

O rapaz para ao ver que o segurança que acompanhava Karin no outro dia tinha acabado de chegar. O homem está conversando com outro sujeito uniformizado. Devem estar trocando de turno.

Em silêncio, Thiago sobe pelo elevador. Ansioso, ele olha para o bombom em sua mão. Será que a Karin vai gostar? Há muito tempo, o rapaz não se preocupa tanto assim em agradar alguém. Em sua memória, o casamento com Marcela foi há meses e, desde aquela época, alguma coisa estava se quebrando. A última vez em que ele se importara tanto fazia quase de uma década.

Quando o elevador se abre, Thiago vê um entregador parado à frente da porta de Karin, entregando a ela um buquê enorme de rosas vermelhas. O rapaz olha novamente para o bombom em sua mão, desejando ter trazido algo melhor. Ele sente as bochechas esquentarem e uma raiva subir, como vômito, por sua garganta.

Thiago não é de sentir ciúmes, então, que sentimento é esse? É como se ele soubesse de algo, se seu corpo estivesse reagindo a algum incômodo do qual o rapaz não se lembra.

O entregador passa por ele, espalhando aquele cheiro doce de rosas por todo o corredor. Thiago dá alguns passos à frente, observando Karin, que permanece parada na porta, com o buquê lhe tapando o rosto.

— É... — ele comenta, assim que se aproxima dela. — Acho que não vou conseguir competir com isso.

Thiago ergue o bombom, antes de notar a expressão congelada de Karin, olhando o buquê. O rosto dela está pálido, sem movimento, ela nem parece estar respirando. Os olhos pequenos arregalados revelam um horror que Thiago não compreende, como se ela estivesse olhando para um morto que acabara de ressuscitar.

— Karin? — o rapaz a chama, mas ela não responde. Nem pisca. — Karin? — Ele toca o ombro dela, que não se move, no entanto desvia o olhar das flores para ele. É quando Thiago observa o buquê. No meio das rosas vermelhas, há uma rosa branca, molhada. Ele vê a água escorrendo por ali, chegando até as rosas vermelhas. No meio, junto à flor branca, um bilhete:

Você sabe que eu estou aqui. Você sabe que não pode me esquecer.

- M

Aquele enjoo volta com tudo e vem acompanhado de uma dor esquisita no peito. O rapaz olha para Karin com pena. Ele retira o buquê das mãos dela com cuidado e a conduz para dentro da casa. Devagar, Thiago a leva até o sofá e observa quando ela desmorona de uma vez.

Sem o peso do buquê, Karin chora. Ela apoia o rosto nas mãos e estas nos joelhos, e chora. Thiago a deixa ali só o tempo suficiente para que leve o buquê para fora da casa e o jogue de qualquer maneira em um canto no corredor. Depois ele lidará com aquilo.

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora