XXI - Roberto Bolaños morreu

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Karin é linda.

Thiago tenta, mas não consegue achar uma palavra que a defina melhor. Em alguns momentos, quando a ouve contar algo sobre sua vida, ele chega a se sentir mal por não conseguir parar de achá-la linda. De todo jeito.

O rosto é lindo. Quando sorri, os olhos dela ficam ainda menores. O rapaz pensa em perguntar a ela se existe alguma descendência oriental em sua família, porque os olhos de Karin se estreitam demais.

Ela é linda.

A voz é linda. Mas não só isso, o jeito de falar é lindo. A maneira como ela conta as coisas com simplicidade. O movimento que os lábios fazem.

Os olhos são lindos e, mais que eles, o jeito como Karin vê o mundo.

Thiago sabe que está apaixonado, ainda não compreende como aquilo aconteceu. E pior: como aconteceu tão rápido.

Mas está. E não faz ideia de como lidar com aquele sentimento.

— Então, você realmente não se lembra de nada que aconteceu nos últimos anos? — ela pergunta algo que sempre quis saber ao certo.

— Mais ou menos. Tem coisa que aconteceu há bem mais de cinco anos e eu não me lembro, mas lembro de coisa que aconteceu há três. Sei lá, às vezes acho que imagino coisas para preencher algumas lacunas. Então, tento não contar com memória nenhuma, sabe? Minha biblioteca de lembranças não é um lugar confiável.

— Eu imagino o quanto deve ser complicado...

— Nem é tanto, sabe? Acho que dos males foi o menor. Tanta coisa poderia ter dado errado, tantas sequelas que poderiam atrapalhar meu futuro. É triste dizer isso, mas essas memórias estão no passado.

— É triste, mas é a verdade!

— O mais complicado é ficarem escondendo coisas de mim. Não gosto disso! — Ele fala, olhando para as mesas vazias ao redor. — Acho que eles já querem fechar!

Karin também olha em volta.

— Mas já? — diz, deslizando a tela do celular. — Já são dez e vinte!

Thiago arregala os olhos. Como o tempo passara tão rápido?

— Acho melhor irmos embora! — ele sugere, já se levantando e indo pagar a conta.

— Você devia me deixar pagar — Karin fala, assim que ele volta, e se levanta para acompanhá-lo, mesmo sem saber para onde iriam depois.

— Deu vinte reais, Karin! — Ri, andando pela calçada. A moça o acompanha. — Seria um rombo nos seus cofres milhonários.

— Não gosto muito de cavalheirismos.

— Então paga na próxima! Mas, por favor, vamos manter o nível! Não frequento qualquer lugar — o rapaz brinca e ganha um leve empurrão no braço.

— Terá uma próxima, é?

— Você quem sabe!

— Se tiver milho... — ela devolve, no mesmo tom de brincadeira de Thiago.

— Nossa! Eu conheço um lugar! — comenta, meio indeciso. — Eu acho.

— Se depender da memória, não há certezas, certo?

— Exatamente — ele concorda, segurando a vontade de colocar seu braço sobre o ombro de Karin e caminhar abraçado com ela.

— E onde vamos agora?

— Bom, eu não estou querendo voltar para casa agora... Talvez a gente pudesse, sei lá, continuar andando?

— Por mim, tudo bem!

Sempre estive aquiOnde as histórias ganham vida. Descobre agora