Capítulo 12

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Thanet Bay era uma propriedade enorme e produtiva, próxima ao litoral de Kent. Com um passeio curto de carruagem era possível chegar às praias no verão. Lá a família Trowsdale criava cavalos, algumas das mais belas raças europeias. E também possuía arrendatários que plantavam para subsistência e comércio locais. Não era a principal fonte de renda da família, porém era o lugar preferido de Aiden Trowsdale, tanto na adolescência quanto na vida adulta.

Quando ele avistou a casa, naquela tarde, seus olhos brilharam em júbilo. A carranca que o acompanhava quase desapareceu de sua face e ele sorriu. Havia criados nos jardins, cuidando das plantas de sua mãe, havia janelas abertas e vida na casa. E duas crianças correndo pelo quintal.

Crianças que ele nunca quis ter mas que estavam ali por um acidente do acaso. Dentro da carruagem, repousada em seus braços estava a mãe delas, Elizabeth Collingworth, uma plebeia que ele não conhecia muito bem mas que perecia da mesma doença que ele. Se aquela não era uma grande zombaria do destino, ele não sabia de mais nada.

— Chegamos, Alteza.

O cocheiro avisou que estavam parados nos arredores da casa do poço. Aquela era uma construção tão antiga quanto a mansão e ficava afastada alguns metros, para dentro do bosque que ladeava a propriedade. Havia uma trilha que passava pelas árvores frondosas e desembocava em um poço como aqueles das histórias infantis. O casebre fora moradia de empregados e estava vazio desde o 9º Duque de Shaftesbury

Já fora um lugar para o qual Aiden levara suas mulheres. Algumas delas. Muitas delas. Quase todas elas já tinham passado pela casa. O que aquilo queria dizer sobre sua própria relação com Elizabeth Collingworth?

Depois de abrir a porta da carruagem, o cocheiro se afastou conforme orientado pelo duque. Com Elizabeth ainda apagada em seus braços, Aiden entrou na casa e depositou a mulher em uma das camas. Deixou que ela ficasse com a menor, porém naquela ele nunca tinha fornicado com ninguém.

Com um sinal, mandou o cocheiro levar a carruagem embora e checou se todas as suas determinações tinham sido cumpridas. Havia comida, muita água fresca e da lareira emanava um fogo suave. O médico só iria vê-los no dia seguinte, então teria mais uma noite isolado. Não que esse fosse um problema para Aiden, ele adorava ter razões para se livrar dos compromissos sociais enfadonhos, principalmente quando sua mãe os organizava de sua reclusão. E, quando ele estava na propriedade, ela insistia em fazer jantares e bailes que apenas o irritavam porque eram todos com a intenção de arrumar para ele um casamento.

Os músculos doloridos pela febre reclamaram do cansaço pela viagem, por carregar uma mulher nos braços - duas vezes - e por insistir em fingir que estava saudável. Sem nem mesmo se preocupar em tirar as botas, o duque deitou em uma das camas e relaxou.

**********

Elizabeth sentiu que dormira por uma semana inteira. A dificuldade em reagir à doença e ao delírio fora enorme mas, depois de algum esforço, ela conseguiu abrir os olhos. Estava em um sono agitado havia horas e queria muito acordar, sem conseguir. O ambiente desconhecido fez com que ela sentasse na cama, assustada. Eram muitos sustos em menos de uma semana, muitos eventos inquietantes.

Enrolada em um cobertor, tentou fazer um reconhecimento rápido. Era um espaço novo, aquele, muito mais elegante do que a estalagem. A cama era menor, de mogno e com enormes dosséis que chegavam ao teto. A parede decorada com papel damasco e algumas pinturas que ela não reconheceu. Ela estava sozinha. Calor emanava de outro cômodo e Elizabeth podia jurar que sentia a brisa fresca com cheiro de mar entrando pela única janela aberta no quarto.

— A senhora acordou. — A voz do duque veio antes de sua imagem gloriosa na porta. Estava tudo muito escuro e ele carregava uma vela, que iluminava seus olhos escuros. A forma como ele a olhava não sugeria que ele fosse um aristocrata - Aiden Trowsdale tinha feições duras e uma expressão masculina que sugeria que ele fosse como os homens com quem ela lidava em Shadwell, como os negociantes e industriários, como os plebeus.

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora