O Minuto Final

29 6 6
                                                  

Ouvi batidas à porta.

Era estranho, tão tarde da noite nunca se espera que alguém esteja acordado, e que resolva sem mais nem menos perturbar o sossego alheio.

Vesti o roupão às pressas, correndo os olhos pelo relógio em meu criado-mudo, que indicava 3:42 da manhã.

No caminho até a sala de estar foi impossível não esbarrar nos móveis e mentalmente pedir desculpas aos vizinhos do andar de baixo, caso os houvesse acordado.

Uma vez em meu destino, sinto crescer a estranheza dentro de mim. A estreita fresta sob a porta indicava a ausência de qualquer luz no corredor externo. O silêncio reinava, tornando improvável a presunção de que havia realmente alguém do outro lado.

Encarei o olho mágico com certo receito, ainda que não entendesse sua causa, e acabei por decidir não olhar através dele, até mesmo por saber que nada veria.

Meus dedos trêmulos envolvem o metal frio da maçaneta, e é preciso um rápido movimento de pulso antes que mude de ideia, dê meia volta e finja que nada aconteceu.

O resultado é, para meu total espanto, um sentimento agonizante de puro terror. As luzes seguem apagadas, tão intensa a escuridão que nem mesmo o pequeno abajur no móvel ao lado da porta parece capaz de penetrá-la.

O que me tomou em seguida foi a certeza esmagadora de que o fim havia chegado, e nada mais havia a ser feito. Impotente, temeroso diante da dúvida sobre o que há além, e pela agonia que é não saber se sequer há uma resposta. Tomado pelas memórias não construídas de uma vida que não passou de um livro em branco. Finalmente, absorvido pela escuridão.

Quando abro os olhos, a respiração ofegante, encarando o teto do quarto, sinto alívio correr por minhas veias.

Somente um pesadelo, meu cérebro murmurava contra o som atordoante que era o das batidas de um coração acelerado. Desejava que fosse, mas a sensação permanecia — o medo, a dúvida, o pavor.

Ideal seria ser capaz de ignorar os sentimentos que gritavam, exigindo uma reação, uma resposta, mas a mente humana é fraca, e sem ela de nada serve o corpo, apenas uma carcaça inerte.

A única solução que me foi possível — encararfixamente o pequeno relógio no criado mudo, marcando 3:41 da manhã.

O Minuto FinalOnde as histórias ganham vida. Descobre agora