Capítulo 07

346 74 95

Batidas à porta fizeram com que Elizabeth abrisse os olhos. Ela quis levantar mas não conseguiu, seu corpo insistia em ficar deitado por causa da dor e da febre. Sua garganta arranhava. A luz do dia já estava entrando pelas janelas e iluminando o quarto onde ela estava, a cama onde estava acomodada. Ao lado do duque.

Aquilo fez com que ela erguesse o corpo em um salto. Havia um homem ao seu lado e ele dormia profundamente, relaxado e suando muito. Gotículas de suor brilhavam em sua testa, escorriam por seu pescoço e por seu tórax nu. Ele estava nu. Ela passou a noite ao lado de um homem nu.

Passou a mão seu corpo, ela também não estava completamente vestida. Elizabeth sentiu calor imediato, e não era da febre, ao imaginar que aquele duque a despira e a vira em suas roupas de baixo. Se ela soubesse que seria desnudada por um nobre, teria vestido alguma seda. Bem, ela não tinha seda para vestir.

Por mais que ela soubesse que aquilo era um escândalo e que não haveria sobreviventes quando as fofocas começassem, ela não conseguia se importar muito.

— Alteza. — A voz veio da porta. — Sou eu, Davies.

O médico. Elizabeth levantou de uma vez, sentindo seus ossos estalarem, e se enrolou na coberta. O duque virou para o lado e grunhiu, agarrando-se ao seu cobertor. Mesmo doente e febril, aquele grunhido era sensual. Aquele homem era sensual.

Abrindo uma fresta da porta Elizabeth se apresentou ao doutor. Ele colocou a mão na madeira e a empurrou sem pressa, entrando completamente no quarto. Estava com um pano à frente do rosto e suas mãos cobertas por plástico.

— Preciso examiná-los, senhora. — O médico apoiou uma maleta preta sobre o aparador. Ele era baixinho e estava ficando calvo, um homem na meia idade. Vestia-se com roupas bem cortadas e costuradas, indicando que sua posição social era elevada. — Onde está o Duque de Shaftesbury?

— Vossa Graça está dormindo. Ele teve muita febre, ontem.

— Certo. Vou examiná-la primeiro, então. A senhora poderia...

O doutor Davies fez um gesto indicando que ela precisava se desenrolar da coberta. Uma corrente fria a fez tremer da cabeça aos pés assim que o ar entrou em contato com as finas camadas do tecido que pouco a cobria. Tudo que vestia era uma camisola e calçolas.

Não precisou de muito esforço do médico para identificar a doença. Elizabeth tinha manchas rosadas por todo o torso e braços, também espalhadas pelas pernas. Sua garganta estava inflamada e a febre era alta, ainda. Depois, ela conduziu o médico até o quarto, onde estava o duque, e foi acender a lareira.

Elizabeth sempre acendia sua própria lareira. A casa onde morava, com os filhos, era um sobrado simples e gelado, com chão de terra e alguma umidade. Patrick vivia adoecendo por causa disso, sempre espirrando e tossindo. Para evitar o frio, até no verão, ela mantinha a lareira constantemente acesa, o que também ajudava a secar as paredes. Carregar madeira e fazer fogo nunca foram mistério para ela. Naquele momento, no entanto, ela sentia dor e ajeitar a lenha no compartimento foi uma tarefa árdua.

Feriu o dedo com uma farpa e arranhou o braço com um pequeno tronco mais rebelde. Depois de algum esforço, o fogo estava finalmente queimando e ela pode se acomodar na poltrona ao lado.

— Senhora. — O médico retornou. — A infecção é mesmo Escarlatina, mas parece uma forma mais branda. Só o tempo dirá. Não há muito que eu possa fazer, além de recomendar banhos frios para baixar a febre, repouso e muita sopa. Deixarei um tônico de acônito para a infecção que pode ser muito útil, e recomendarei láudano se a febre causar euforia.

— Podemos ir para casa? — Ela perguntou, ansiosa.

— Recomendo que fiquem em isolamento para evitar que essa doença se alastre. Sei que as condições são... impróprias. — Ele pigarreou e frisou a última palavra indicando que a permanência de um duque, em um quarto, com uma viúva, causaria a ruína da reputação dela. — Mas informarei aos criados e pedirei vigilância.

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora