Capítulo 02

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Elizabeth entendeu que seu agradecimento a desvinculava da senhora nobre e se aproximou do balcão onde um jovem magricela, de cabelos espetados para cima e dentes mal formados, fazia anotações em um papel.

— Boa noite. Preciso de abrigo para mim e meus filhos, e de um bom jantar.

— Vai te custar três libras, uma por pessoa.

Sem nem olhar para ela, o rapazote continuou rabiscando o papel.

— Mas esse valor é muito acima do que é praticado! — Elizabeth se indignou. Uma noite em uma estalagem como aquela não lhe custaria mais do que alguns xelins. Três libras era dinheiro que ela não poderia dispor naquele momento. Ficaria sem ter como alugar um casebre para se abrigar quando chegasse a... algum lugar.

— Tempos de crise, senhora. O dono mandou cobrar uma libra de qualquer um que requisitasse hospedagem nesse período. Como a senhora está com duas crianças...

— Isso é um absurdo! — Ela bateu com a mão sobre o balcão, pretendendo que isso mostrasse sua indignação. — Vocês estão explorando o sofrimento das pessoas, isso é imoral. Quero falar com o dono.

Outras pessoas entraram na estalagem e se aglomeraram no balcão. O rapazote desapareceu por uma porta para buscar o gerente e Lady Agatha também se aproximou. Os filhos começaram a reclamar que tinham fome e queriam a comida que viram em outro salão, mas foram impedidos de entrar porque não eram hóspedes. A balbúrdia instalada fez com que ninguém conseguisse ouvir ninguém.

Quando o dono chegou, Elizabeth protestou pelo valor cobrado. Sua veemência, no entanto, fora tratada apenas como insubordinação de uma mulher exagerada. Ela já estava acostumada a ser chamada de louca, sempre se colocando contra as injustiças que presenciava.

— Senhora, o preço é esse. — O homem disse, irredutível. — Se quiser, pague, se não, pode se retirar com esses pequenos vândalos.

— Meus filhos não são vândalos. — Elizabeth indignou-se ainda mais, apesar de não poder afirmar com muita certeza que o homem estava errado. Seus filhos eram muito educados, mas também muito ativos.

— O senhor não deveria se aproveitar das pessoas para lucrar. — Lady Agatha se envolveu na discussão. — Isso é vil, vai manchar a reputação do seu estabelecimento.

— São apenas negócios.

Eram apenas negócios, Elizabeth sabia, mas aquele dinheiro iria fazer falta. Ela não podia pagá-lo mesmo sabendo que os meninos precisavam comer. Teria que continuar caminhando pela estrada até encontrar um lugar em que eles não fossem explorados.

— Pode ficar com sua ganância. Vamos embora daqui.

Os meninos protestaram, reclamando. Peter ameaçou chorar e lágrimas rolaram por aqueles olhinhos pequenos e muito azuis. Elizabeth ajoelhou na frente do filho para explicar a ele que pessoas pobres, como eles, não tinham muitas escolhas na vida. Desistiu, não precisava destruir os sonhos dele, era melhor ensiná-lo a progredir e não a aceitar sua miséria.

Elizabeth conhecia dos dois lados da vida, a riqueza e a ostentação e a pobreza miserável das docas. Depois que o pai perdeu tudo que conquistou em mesas de jogos, eles precisaram todos trabalhar para não passar fome. Elizabeth tinha apenas quatorze anos quando começou a costurar para fora e, depois, se tornou dama de companhia de jovens nobres. Sua educação irretocável era seu talento e o que garantiu o sustento de sua família por muitos anos, depois que seu marido morreu.

Os filhos foram criados com a mesma educação dos pequenos nobres, mesmo que, de vez em quando, parecessem pequenos diabinhos. Bem, quase sempre eles se pareciam diabinhos, mas sabiam se portar se quisessem.

— Vou pedir a meu irmão que interfira. — Lady Agatha disse para ela, depois que o movimento dissipou. — Não é justo que esse homem explore as pessoas em momentos de necessidade.

— Creio que não haja lei contra isso. — Elizabeth desanimou. — Agradeço toda a sua bondade, Lady Agatha, mas não vejo como seu irmão terá influência em uma situação como essa.

— Ele é o Duque de Shaftesbury.

Oh. Por aquela Elizabeth não esperava. Aquela gentil dama era irmã de um duque. E não era um duque, mas o duque, um dos mais ricos e prósperos da Inglaterra inteira.

Assim que Lady Agatha disse o título do irmão, como se as palavras fossem mágicas e abrissem portas secretas, um barulho na entrada chamou a atenção de Elizabeth. Talvez ninguém tivesse ouvido nada e fosse apenas a presença intensa da pessoa que acabara de chegar, mas ela sentiu como se um lufo de ar fresco lhe tivesse arrebatado o corpo. O vento imaginário bateu em sua face e esvoaçou seus cabelos.

Pela porta entrava um homem que parecia iluminar o ambiente mais do que qualquer lamparina. Elizabeth teve certeza, em um segundo e meio, que aquele era o homem mais lindo de toda a Inglaterra porque era inadmissível que outros como ele existissem. Vestindo calças de linho bege, camisa branca e colete vinho com paletó da mesma cor, ele tinha os cabelos castanhos e ondulados penteados cuidadosamente. Seus olhos eram de um castanho escuro tão intenso que podiam conter a noite inteira dentro deles e sua pele tinha uma tonalidade bronzeada similar a dos homens que trabalhavam nas docas.

Mas aquele homem certamente não trabalhava nas docas. Ele tinha o porte da realeza. Não havia dúvidas de que era um nobre perdido por aquela região, provavelmente fugindo da epidemia como ela. Sua boca era vermelha e os lábios grossos estavam comprimidos. Os olhos atentos procuravam alguma coisa e miraram Elizabeth alguns segundos depois.

Ela quase deixou cair ao chão a bolsa de moedas que segurava. Sim, o homem olhava para ela, não olhava? Sua expressão não era suave, havia um vinco severo entre suas sobrancelhas que lhe conferia um ar de quem seria capaz de implodir o lugar, se assim quisesse. Como se a sua presença já não fosse impactante o suficiente, ele veio na direção dela.

E, naquele instante, enquanto seu coração disparava por causa de um completo desconhecido que nunca deveria tê-la notado em lugar algum, a fraqueza do dia a abateu. Elizabeth sentiu o peso de um dia inteiro de fuga, caminhadas e desejos de matar um dono de estalagem, e seu corpo sucumbiu. Tudo ficou escuro, girando, até que ela sentiu o chão se aproximar enquanto caía desmaiada no meio do salão.

 Tudo ficou escuro, girando, até que ela sentiu o chão se aproximar enquanto caía desmaiada no meio do salão

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Chegou um homem misterioso tão impactante que fez Elizabeth desmaiar. Ou será que foi outra coisa? Mistério.

Semana que vem saberemos o que aconteceu com nossa mocinha! Beijos e obrigada pela leitura até aqui.

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora