Capítulo 12: Otoko no Shinjitsu

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Kyoto, Japão

1969

A garota gritava. Sua cama estava empapada de sangue, como se alguém tivesse sido esfaqueado ali. Entretanto, aquele não era um lugar de morte, pelo contrário, ela um lugar de vida, no qual dezenas de crianças – inclusive ela mesma – nasceu. Era ali que nascia seu filho.

A garota gritava. Sentia uma dor que achava impossível. Sentia dores dentro e fora do corpo, como se o feto tivesse empurrado todos os seus órgãos para ter espaço; como se ele tivesse rasgado sua intimidade com uma faca afiada. Sentia tanta, mas tanta dor, que ela começava a delirar. Começava a ver coisas.

A garota gritava. E em meio a seus gritos, ela viu a face dele. Viu os olhos escuros, como duas lagoas em uma noite se lua prontos para afogar uma desavisada. Como ela mesma queria ter recebido o aviso. Como ela não queria ter se apaixonado por ele. Como ela não queria ter desviado do caminho do seu senhor e libertador, Amatsu Mikaboshi.

A garota gritava. De dor. De arrependimento. De paixão.

Até que não gritou mais. Quando ouviu o choro de seu filho, todas as dores, ilusões e arrependimentos cessaram como se nunca tivessem existido. Aquele som primal, de uma vida que acabava de começar, soava como a melhor sinfonia da cantora italiana Gianna Paoli. A garota, em seus quinze anos, não tinha conhecido amor verdadeiro, nunca havia sentido, mas assim que colocou os olhos nele, soube com todas as suas forças que faria o possível para mantê-lo vivo, mesmo que isso custasse sua própria vida.

E quando o Sumo Sacerdote entrou, ela sabia que sua vida estava próxima do fim.

Seu olhar era de uma pessoa que era superior, e gostava de ser. Seus cabelos eram cumpridos e lisos, sua barba espessa como uma floresta – algo incomum para os japoneses. Vestia um kimono cinza escuro, quase preto, uma hakama até o tornozelo e um casaco largo. Bordado na seda, ao lado direito dele, havia alguns kanjis: 天津甕星, que significam Amatsu Mikaboshi.

Já ao lado esquerdo, havia um kanji dentro de um círculo: 寛, Hiroshi, o nome da família do Sumo Sacerdote. Logo abaixo deste, havia uma cruz de pontas iguais com uma rosa de caule trepado e o botão na quina noroeste.

– Lorde Hiroshi. – Ela encontrou as palavras em meio a dor que retornara depois de seu filho parou de chorar. – Mas que honra...

– Você não tem direito algum de falar de honra, Fuyumi. – Sua voz era como as batidas de taiko gigante. – Você deu as costas para a maior honra de nosso senhor.

– Kaito Nomura. – A menina não queria, mas as palavras não estavam mais sob seu controle. Disse o nome que daria ao seu filho.

– Vejo que ainda se recusa a dizer o nome do pai dessa criança de luxuria. – Ele era tão solene, que suas palavras pareciam estarem saindo de um pergaminho. – Não importa. Não fará diferença. – Duas mulheres de máscaras gueixa entraram; os sorrisos feitos de vidro. – Limpem-na e preparem-na. Amanhã, ela será entregue ao senhor Mikaboshi.

Seu filho foi levado de seus braços. A garota foi arrastada de sua cama e colocada sobre seus pés; ela mal conseguia manter-se de pé, mas fez o possível para não ceder a dor. Os panos que a cobriam foram rasgados e arrancados de sua pele. Ela não se importou de estar nua, afinal, coisas piores já haviam acontecido com ela.

Com panos banhados em água, limparam o sangue em suas pernas e sua intimidade. Então, com panos em óleo, deixaram sua pele escorregadia, para que a lâmina tirasse seus pelos – seu cabelo, sobrancelhas, braços, pernas. Tudo. O deus Mikaboshi não aceita sacrifícios com pelos. Era seu meio.

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