Arte

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Betty Lockre, nascida em 14/03/1972. Vinte e quatro anos. 1,65 m de altura, provavelmente 60 kg. Cabelos cor mel, olhos castanhos, dentes bem alinhados e saudáveis. Seios medianos. Uma barriga lisa. Coxas torneadas. O peso bem distribuído pelo corpo, chutaria 10% de gordura corporal. Talvez fizesse exercícios diariamente. Não parecia fumar. Os pelos pubianos eram escuros e curtos. O resto do corpo era bem depilado. Calçava 36. As unhas bem-feitas, cobertas com esmalte vermelho sangue. O rosto tinha uma aparência agradável apesar dos hematomas e rugas acentuadas oriundas de cansaço e estresse intensos, mas nada disso importava. Tudo estava no passado.

Conheci Betty num bar sujo de esquina na parte mais decadente da cidade. Ela tomava um Dry Martini, e eu um Conhaque. À primeira vista, notei o quanto era solitária e lidava com a vida de forma desesperada. Os olhos bonitos, mas cansados, nem mesmo a pesada maquiagem conseguia disfarçar.

Aproximei-me sorrindo, lhe ofereci um drinque e começamos a conversar assuntos aleatórios tão ordinários quanto as segundas-feiras. Descobri que ela desejava cursar faculdade, administração talvez. Não lembro. O assunto ganhou um teor sério. Betty começou a dizer que se sentia inútil, uma derrotada. Sentia tanta raiva por ser tão pouco, por ter feito tão pouco. Dizia que não era boa em nada. Apenas mais um corpo ocupando espaço no mundo. Depois de longos silêncios, ela encarava seu drinque intocado, perdida em pensamentos sombrios. A pressão dos familiares e do mundo ao redor pesava em suas costas. Eu via o sofrimento emanar e envolvê-la numa áurea negra e espessa.

Virei o resto de conhaque no meu copo e então chamei-a e olhei no fundo dos seus bonitos olhos castanhos, convidei-a para sair dali comigo. Iria mostrar-lhe a solução, um caminho a ser seguido. Confusa pela dor latente, Betty demorou um pouco a captar minhas palavras, por fim conseguiu tomar sua decisão.

Em pouco tempo, estávamos na minha casa, avisei que seria algo difícil de aceitar, mas que era seu destino, seu legado. Ela me olhava confusa e perplexa sem entender muito bem, mesmo assim, concordava ao balançar, lentamente, a cabeça. Betty dizia ter medo, mas estava ansiosa. Peguei em sua mão e a levei até a porta do porão. Descemos as escadas, ela me seguia grudada em minhas costas. A cada degrau, eu imaginava sua reação, a gratidão e apreço por minha arte. Nossa arte!

Ao fim da descida para a escuridão do porão gelado, acendi a luz. No fundo, havia uma mesa e sobre ela estava minha belíssima escultura!

A composição se resumia ao tórax de uma mulher com os belos e fartos seios expostos, os braços estavam levantados como se recebessem uma benção amaldiçoada; das laterais do tronco, braços peludos estavam anexados e, também, voltados para cima com as unhas pintadas com sangue; das costas surgiam estacas feitas de colunas vertebrais com cabeças perfeitamente acopladas nas pontas: os rostos sem olhos estavam contorcidos em pleno horror, dentes expostos sem lábios que os cobrissem. Tudo havia sido retalhado gentilmente por minhas mãos. Eu sentia a excitação acelerar o coração ao lembrar de suas gloriosas mortes! O rosto da mulher era o detalhe mais deslumbrante. A parte inferior da mandíbula foi arrancada e os dentes também, dali pendia a língua inchada que se mesclava aos longos cabelos negros como plumas de corvos. O toque final era a coroa de arame farpado sobre a cabeça.

Eu sorria magnificado mais uma vez com a escultura, olhei para Betty esperando nada mais que lágrimas de felicidade. Para minha decepção o que vi foi horror, nojo, repulsa expostos em seu belo rosto. Ela soltou minha mão e andou para trás sob passos lentos. A pobrezinha tremia e soltava sussurros chorosos que foram seguidos por um grito roufenho.

Como fui tolo! Se nem Van Gogh e Monet foram aceitos ou compreendidos, por que veio a mim o pensamento de que eu seria? Betty não poderia entender! Meu passado não poderia entender!

Ela olhava para mim com a maquiagem borrada pelo choro, a boca torta de medo. Quando se virou em direção da escada na propensão de fugir dali o pé alcançou o primeiro degrau, mas minha mão agarrou-a pelo cabelo. O outro pé foi em direção aos degraus acima, mas antes do solado do seu calçado pisar no degrau, bati sua cabeça com toda a força na parede. O ruído oco do crânio se chocando contra o cimento frio me estremeceu de prazer.

Em seguida joguei-a para trás, ela caiu no chão soltando um ganido agudo de dor. Não havia outra forma. Meu presente e futuro não suportariam. Betty, meu passado, ficaria pra trás, ela deveria morrer.

Ela se contorcia de um lado para o outro, a cabeça sangrava enquanto cuspia palavras incompreensíveis. Em cima da mesa, onde estava a escultura, havia uma corda grossa o suficiente para o que pretendia. Fiz o laço que finalizaria suas memórias, minhas memórias. Enrolei no pescoço de Betty, ela se debatia numa tentativa vã de luta. Os dedos tentavam tirar a corda enlaçada no pescoço, puxava com força e tossia.

Tomada por desespero, ela se levantou aos tropeços em busca de alguma escapatória, a adrenalina bombeava pelo seu corpo. Naquele momento, a corda estava apoiada num cano grosso, seus passos a trouxeram para mais perto da morte.

Aproveitei os movimentos de Betty e puxei a corda usando toda minha força, meu corpo foi para trás e desabou no chão enquanto a vi, suspensa no teto, balançando para todos os lados. As mãos alternavam movimentos entre sacudir para todos os lados, procurando ao redor algo no que se agarrar e arranhar a corda envolta do pescoço em busca de ar.

Eu puxei com mais força até a corda estralar junto do seu pescoço. Betty soltou gorgolejos estranhos, os olhos injetados de sangue quase saltaram para fora, segundos depois se instalou o silêncio. O vácuo de um passado asfixiado e esquecido.

Betty. Betty Lockre está morta. Morta, morta, Betty Lockre está morta. Betty. Betty. Betty Lockre está morta. Morta, morta, Betty Lockre está morta. Betty. Betty. Betty Lockre está morta. Morta, morta, Betty Lockre está morta. Betty. Betty. Betty Lockre está morta. Morta, morta, Betty Lockre est...

-Ei aberração! - A voz de um homem de jaleco e roupas brancas percorre o pequeno e simples quarto.

-Chegou a hora da sua consulta diária, mas hoje é um doutor diferente. Então é bom você tomar os remédios e sorrir bastante. Você sabe que eu posso piorar e muito sua vida aqui se me der trabalho. - O homem sustenta um sorriso de puro escarnio enquanto a encara.

-Merda, ela ainda brinca de boneca, cara. - Diz outro homem de jaleco e roupas brancas.

-Era de se esperar, ela é retardada!

-Meu Deus, cara você sem dúvida vai para o inferno! Dá logo os remédios para ela e vamos! - O segundo homem se vira e caminha para a porta do pequeno quarto.

-Eu sou Deus meu camarada! Eu sou Deus!

-Urrmm- Alguém pigarreia atrás do enfermeiro.

-Ah Doutor hehe eu nem vi você aí... - Ele se afasta da paciente, constrangido.

-Que tal dar logo as medicações da paciente e ir atrás do paciente do quarto 5? É a quarta vez na semana que ele escapa.

O doutor fala de forma gentil, mas sua "energia" e presença são estranhas, são ácidas. Seu olhar era como um dos pacientes que ele tratava. Como se, de alguma forma, a insanidade pudesse ser transmitida.

-Certamente senhor! Certamente! Aqui senhorita seus remédios.

O enfermeiro espera que ela estenda as mãos, entrega os comprimidos em um copinho de plástico. Ela os coloca na boca e engole de uma vez. O homem de jaleco sai rapidamente do quarto e o doutor fecha a porta. A mulher decrépita continua imóvel encarando para a parede. Um caderno repousa em suas mãos e a boneca está sobre a mesa.

-Bem... vamos ver... - O doutor folheia algumas páginas dentro de uma pasta. Ele parece encontrar algo em uma das páginas, analisa as letras e depois encara a paciente. Volta a folhear, senta-se na cama e cruza as pernas. Então, diz na sua fala serena:

-Olá Betty, eu sou o Dr. Alex.

A paciente ao ouvir isso sai de seu estado catatônico, vira o rosto o suficiente para conseguir olhar Dr. Alex. Com seus incandescentes olhos castanhos ela o encara, fala numa voz áspera:

-Betty? Betty está morta.

O caderno em suas mãos está aberto, mostrando umdesenho de uma mulher enforcada.

Contos NefastosWhere stories live. Discover now