Capítulo 01

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Arredores de Kent, Inglaterra. 

Ano de 1891

Elizabeth não aguentava mais andar. Ela praticamente arrastava uma valise quadrada, pesada, e duas crianças, que também estavam exaustas, pela mão. Patrick e Peter já tinham parado de reclamar do cansaço havia alguns minutos e ela esperava um pouco de paz, só que eles precisavam parar em algum lugar e descansar, já que era quase noite e fazia horas que estavam fugindo de Londres.

Fugindo. A cidade tinha sido tomada pela Escarlatina. Até os adultos estavam adoecendo e já havia muitas mortes declaradas. As equipes sanitárias passavam pelas ruas lavando as vias com jatos de água, como faziam com a cólera, acreditando que, assim, lavariam a doença embora. Elizabeth tinha suas dúvidas e preferiu não arriscar com os dois filhos pequenos.

Pessoas como ela ficavam. Só os nobres fugiam quando uma epidemia começava, recluindo-se em suas propriedades afastadas do epicentro do problema. Pessoas como ela não tinham propriedades, precisavam trabalhar para garantir sustento e não sabiam para onde ir em caso de calamidade. Mas ela já tinha perdido o marido para a cólera, não queria arriscar a vida de seus meninos.

— Mamãe, estou com fome. — Peter reclamou, puxando-a pela saia e tirando-a de seus devaneios.

— Já vamos conseguir um lugar para jantar. Mas precisamos encontrar uma estalagem.

Ela dissera sem muita convicção, já que não tinham visto nenhuma construção nos últimos quilômetros. Caminhavam por uma rua de pedras e muitas carruagens passavam por ali, mas nenhuma ousaria perguntar se queriam ser levados a algum lugar. Para os nobres, eles eram invisíveis, apenas plebeus miseráveis que serviam como criados, mas não eram para ser vistos fora desse contexto.

A esperança de Elizabeth se acendeu quando viu uma fumaça em distância considerável. Aquilo vinha certamente de uma chaminé e, onde tinha chaminé, tinha uma casa ou hospedaria. Qualquer lugar serviria para que ficassem, ela só esperava que fossem aceitos. Não por sua condição plebeia, mas porque vinham de um lugar infectado.

— Eu não aguento mais andar. — Patrick parou e sentou no chão de terra. — Vamos parar só um pouco, por favor.

— Não podemos nos dar ao luxo de parar se quisermos chegar em algum lugar, meu filho. — Elizabeth segurou as mãos pequenas do menino e o puxou para cima. Ele se recusou, voltando a sentar. Ah, Patrick sempre fora teimoso, mas ele estava certo. Os pés dela também a estavam matando, quase a ponto de abandonar os sapatos em um ponto qualquer da estrada.

Enquanto debatia com as crianças se paravam ou seguiam, mais uma carruagem passou por eles. Era apenas outro transporte que os ignoraria, mas aquela, curiosamente, fez meia-volta e parou ao lado da família. Estava escuro, mas Elizabeth percebeu uma dama que colocava a cabeça para fora e os encarava. A dama era muito jovem e usava um gorro para esconder os cabelos louros.

— Estão em apuros? — Ela perguntou a Elizabeth. Era uma surpresa que uma dama tão refinada, em uma carruagem maravilhosa, suntuosa, cheia de adornos e arabescos, falasse com ela.

— Cansados apenas, milady. — Elizabeth fez uma referência. Ela sabia como se portar com a nobreza. — As crianças estão exaustas e com fome.

A porta da carruagem subitamente se abriu e um criado desceu, colocando um caixote para que a dama pudesse descer. Ela, no entanto, disse algo próximo a seu ouvido e se manteve dentro do transporte.

— Minha senhora está se oferecendo para conduzi-los até seu destino.

Elizabeth arregalou os olhos enquanto as crianças pulavam em animação. Eles nunca tinham viajado em uma carruagem e ela precisou segurar Peter pelo colarinho da camisa, porque ele já estava correndo para entrar no veículo.

— Mas não temos destino. Estamos procurando uma estalagem para passar a noite, fugindo da epidemia em Londres.

O criado voltou a ter com sua senhora e conversaram mais uma vez em tom baixo. Peter se debatia, querendo entrar na carruagem, afirmando que tinha sido convidado, que queria sentar nas almofadas. As crianças estavam sujas de poeira e vermelhas de suor, já que fazia calor naquele início de verão.

— Levaremos vocês até a estalagem. — A jovem dama disse, colocando novamente a cabeça para fora. — Ela fica a poucos quilômetros daqui. Podem entrar.

Elizabeth não conseguiu mais segurar os filhos. Os dois meninos correram para entrar no veículo, como se não tivessem sido educados nos melhores modos. Um pouco desconfiada da bondade inesperada da dama, ela se aproximou da carruagem e viu que era tão luxuosa por dentro quando por fora. Nem nos áureos dias em que sua família tinha dinheiro e eles viviam em uma zona mais abastada de Londres, ela tinha viajado em uma carruagem como aquela.

Era certamente o veículo de um nobre. Seria aquela dama uma duquesa gentil demais que assumira o compromisso de oferecer conforto aos menos afortunados? Elizabeth entrou e se sentou, puxando os filhos para seu lado, ficando de frente para a jovem.

— Como se chamam? — A dama perguntou. — Sou Lady Agatha, também estamos fugindo da epidemia.

— Elizabeth Collingworth. — Ela baixou a cabeça, tentando fazer uma reverência no espaço apertado. A carruagem voltou a andar e os meninos celebraram. A vantagem de crianças pobres era que elas se empolgavam com tudo, porque não eram acostumados a ter nada. — Esses são meus filhos Patrick e Peter. É muita gentileza da senhorita nos conduzir até um abrigo, milady.

— Meu pai era um homem que fazia o bem a todos, sempre. Ele jamais deixaria uma família necessitada à margem de uma estrada.

O seu pai era um homem único, foi o que Elizabeth quis dizer, mas não disse. Nenhum nobre se preocuparia com uma família como a dela, não importa onde estivesse. Quando avistaram a estalagem, os meninos comemoraram mais uma vez e Lady Agatha sorriu, contagiada com a alegria deles.

A carruagem parou em frente à construção, que tinha muitas janelas e lamparinas a gás iluminando o pátio. O criado abriu a porta e ofereceu a mão para que Elizabeth descesse. Nenhum dos dois usava luvas, mas não havia aqueles códigos de etiquetas entre criados. Os meninos desceram sozinhos, correndo para dentro da estalagem em enorme algazarra. Será que algum dia aqueles meninos ficariam sem energia para gastar? Ela duvidava.

— Obrigada, milady. O bom Deus lhe pagará tamanha bondade. — Ela agradeceu à dama, que estendeu a mão para o criado, intencionando descer.

— Gosto de honrar a memória do meu pai, mesmo que isso me coloque toda semana nas colunas de fofocas dos folhetins locais. — Ela riu. — John, farei uma pausa na viagem, preciso esticar meus pés.

Milady, seu irmão pode...

— Deixe que me entendo com Aiden depois. — Lady Agatha moveu os ombros, indicando que não se importava com as ordens do irmão, quaisquer que fossem. — Vamos conhecer essa estalagem e ver se suas instalações são dignas de uma dama. 

Começamos agora nossa aventura

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Começamos agora nossa aventura. Eis que a viúva Elizabeth Collingworth é "resgatada" com seus filhos por uma dama muito bondosa. 

O que será que vem por aí nessa estalagem de beira de estrada, hem? Vamos descobrir em breve.

Obrigada pela leitura. Estrelinhas e comentários ao final! :) 

Um Duque para chamar de meuOnde as histórias ganham vida. Descobre agora