Exórdio

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A realidade humana era algo monótona e sem muitos prazeres, além de haver muitos porquês que não eram respondidos com facilidade. Por que existimos? Por que morremos? O que há depois da morte? Essas são alguns exemplos de perguntas que o humano não é capaz de responder, sem recorrer a algo, a ciência ou a crença.

A ciência e a crença existem há milhares de anos, cada uma com sua simplicidade que, com o passar do tempo, passou a ter muitos seguidores que aumentassem suas teorias e a deixasse cada vez mais convincente de ser a verdade absoluta. Para dar conta de cada pergunta que surgia, novas lendas e teorias foram aparecendo para sanar a curiosidade humana.

A história que aqui será relatada não se importa com a ciência, a época em que ela surgiu tão pouco a aceitava de braços abertos. Quem amasse a ciência era herege, alguém que vivia amaldiçoado e que queimaria em algum submundo por um deus da castidade. Quem amasse a ciência era considerado louco ou bruxo, e tão pouco a mente humana criou personagens que pudessem dar vida a esse conceito.

Era bastante comum, por volta do século XIX histórias como o de conde Drácula surgiam pelo autor Bram Stoker, que deixavam seus leitores ávidos a acreditarem que de fato alguém sobre humano existia no mundo. Apesar de ter sido comprovado que é apenas uma ficção, isso nos tempos atuais, há de quem ergue o dedo para comentar uma história sobre os vampiros.

Entretanto, há uma em que raramente se fale. Ela é conhecida pelo mundo como a lenda do conde das cartas, mas ninguém sabe ao certo contá-la em sua singularidade... a não ser as pessoas que vivem próximo ao castelo. Chegava a ser curioso o como um vilarejo por inteiro poderia desaparecer com o passar do tempo, a lenda se alastrara de tal maneira que se tornou insuportável viver sem medo por ali.

Mas afinal... o que era a lenda do conde das cartas?

Ora, ninguém sabe ao certo os seus detalhes e se quer imaginam o motivo de isso ter ocorrido, apenas sabiam dos boatos de que houvera uma desavença por aqueles campos, por volta do século XIX envolvendo títulos ingleses. O castelo se encontra em um local remoto da Inglaterra, seu dono era um conde que parecia ter uma linhagem um tanto quanto questionadora. Ele se encontrava em meio a arvores e uma densa neblina que escondia seus portões, deixando a vista apenas a torre alta e escura. Em sua volta alguns pedregulhos e casas abandonadas se encontravam, no geral o tempo parecia ter se passado arrastando para o que sobrava do vilarejo.

O conde teria tido um filho com sua primeira esposa, que morrera por conta da malária que lhe acuminava havia alguns anos. Três anos depois tornara a se casar tendo dessa vez mais um filho homem, que ficara na segunda linha de sucessão.

Há quem dizia que ambos os filhos teriam recebido o mesmo tratamento educacional, o que de fato parecia ser justo, entretanto era notável que o filho caçula continha uma arrogância extrema e negava qualquer parentesco com seu irmão mais velho. A característica de tal filho era comum e gerada apenas por boatos, já que na presença do conde o menino adquiria uma personalidade cavalheiresca sem igual. Quando os garotos estavam sozinhos em seus estudos era comum que o caçula fizesse piadas e estorvos para incomodar o irmão mais velho a ponto de o mesmo levar a bronca de professores sem os merecê-los.

O motivo da desavença entre os irmãos era que o mais velho recebia algumas aulas a mais e acompanhava o conde em reuniões para poder aprender sobre os negócios que lidaria futuramente. O que diverge de algumas outras lendas, que comentavam sobre o primogênito ter alguma deficiência, por isso recebia mais atenção e cuidados do pai. Claramente que aquele garoto era tão visionado que o pai não o permitiria que se casasse com qualquer mulher, cuidado esse que não teve para com o filho caçula que se casou cedo por volta dos 18 anos quando ainda estava na faculdade.

A notícia do casamento não deu tanta alegria ao conde, que parecia não gostar da moça desconhecida. Ela teria aparecido durante uma viagem do filho caçula e quando voltaram a terra traziam a notícia do casamento. O conde era cuidadoso com os boatos e detestou quando lhe apontaram o dedo como se tivesse falhado na educação do filho caçula. Mesmo com perguntas, que resultaram em discussões entre pai e filho, não houve nenhuma informação sobre a família da moça. O caçula e esposa optaram por sair do castelo, não se sabendo para onde foram morar.

O conde tornou todas suas feições para o primogênito, que apesar do segredo que o rondava, aceitava todas as ordens de seu pai, o tornando o rapaz mais respeitável. Quando completou seus 22 anos chegara o momento de desposar uma jovem da temporada. Não se demorou para que em um baile no castelo, as atenções fossem dadas para o filho caçula do conde que retornara – anos depois – com sua esposa e uma criança pequena.

Todos ficaram imensamente curiosos e estarrecidos com sua chegada repentina, mas o mesmo parecia ter mudado da água para o vinho e pediu desculpas ao seu irmão mais velho. Claramente o herdeiro pensou que teria seus laços reatados e abraçou seu irmão de bom grado – sempre o amara e imaginava que ele precisava amadurecer, o que parecia ter ocorrido por conta do seu casamento.

E assim foram se passando os dias, o herdeiro do conde dançando com as senhoritas à procura de uma condessa. Tão breve, cartas começaram a surgir, endereçadas para o rapaz mais velho o alertando sobre um possível perigo de uma criatura jamais vista, que invadiu seu castelo sem que tenha notado. O primogênito considerou as cartas e as mostrou para seu pai, que as negligenciou e despreocupou o filho também.

Com a chegada de mais cartas, todas do mesmo remetente, o medo voltara a surgir. Tudo piorara quando o Conde morrera em uma noite, sem nenhuma explicação para sua morte. Nenhum médico sabia dizer o que lhe causara, e o enterro foi aberto para as pessoas próximas ao ele.

Agora com a morte do conde, o título deveria passar para o filho mais velho. Enquanto a democracia estava sendo preparada para a sucessão, mais cartas chegaram totalizando seis. O filho mais velho as reuniu e sentiu a onda de arrependimento tomar conta de si, deveria ter dado atenção àquelas cartas e cuidado de seu pai como lhe fora proposto. A sétima carta direcionava a atenção para si mesmo, e com o medo o rapaz correu para pedir ajuda a seu irmão mais novo.

O caçula ofereceu ajuda e escondeu todas as cartas do irmão, e semanas depois o mesmo fora chamado em seu escritório.

Ninguém sabe ao certo o que ocorreu naquela noite, alguns dizem que estava chovendo intensamente forte com direitos á raios e trovões que abafaram o grito de dor do irmão mais velho ao ser morto. Não fora comprovado nenhum assassinato, as pessoas ficaram estarrecidas com a novidade e o condado foi entregue para o filho mais novo do conde pai. Sete dias depois, o vilarejo entrava em pânico, alguns diziam ter visto o irmão mais velho passando pelas janelas do castelo, outros diziam ter visto andar pelos jardins.

A história em si parecia altamente fantasiosa para quem ouvisse, e somente então quando viam com os próprios olhos é que começaram a juntar seus objetos para saírem do vilarejo. Apenas alguns poucos restaram, e tão breve ninguém mais teria ouvido falar sobre o que acontecera com os sucessores do condado, e quem teria ficado no vilarejo.

O que era fato seria, ninguém ousava entrar naquele local até ser considerado um patrimônio histórico. Não estava aberto para visitas turísticas, e aguardavam a ida de historiadores para concluir algo antes de iniciar a restauração do castelo no lado de fora – algo como cortar mais a grama e prepará-la para a recepção dos viajantes.

Ninguém sabia explicar como que poderiam ter visto a figura do filho mais velho do conde andar pelo castelo tão livremente. Entretanto na época a história de Drácula estava se popularizando e não demorou para que uma razão fosse estabelecida. O verdadeiro herdeiro do condado havia se tornado um vampiro. 

{Degustação} O Conde - A lenda das dez cartasWhere stories live. Discover now