Levantou-se e começou a andar, procurando por alguém que estivesse no seu nível de interações sociais. Quando viu um rapaz de sua escola mexendo no celular, sentado sozinho ao lado de um vaso de plantas, pensou em se aproximar para descobrir se as coisas haviam, de fato, mudado. Recompôs na mente as coisas que diria, embora ainda sentisse a antiga Íris tentando dominá-la. E se aquele garoto houvesse visto a vez em que ela foi humilhada por Gluci e suas amigas no refeitório? E se ele risse dela de novo? E se a xingasse ou falasse mal de sua aparência? Aquelas preocupações já não tinham mais sentido. Além do mais, ela conseguiu conversar com Natto normalmente, não conseguira? Se ela pudesse vencer os medos agora, mais uma vez... talvez não precisasse mais fazer o que planejara contra Gluci e os outros.

          Porém, naquela vez, ela queria justamente o contrário: que aquela nova Íris encapuzada fosse simplesmente ignorada.

          Aproximou-se dele, com as mãos tremendo e o rosto pálido. Seria sua única chance de testar.

          — O-Oi? T-Tudo bem? — cumprimentou.

          — Hã? O que foi? — perguntou o colega, de cara feia, aborrecido por ter se distraído do joguinho. Até que ele percebeu os traços físicos da garota que tentava puxar conversa. — N-Nossa. Você, por acaso, quer se sentar? Fique à vontade.

          Uma risada alta eclodiu atrás dela. Íris travara de novo, as mãos encharcadas de suor e os músculos da face endurecidos. Ela se virou e viu Gluci e os amigos indo se sentar na praça de alimentação após pegarem as bandejas de comida num balcão de fast-food.

          Não havia dúvidas: antes, para vencer, ela precisava se desfazer daquela cicatriz e das pessoas que a marcaram.

          Um tanto desengonçada, ela simplesmente ignorou o rapaz, balançou a cabeça e correu em direção ao grupo, camuflando-se novamente entre as pessoas. Sentou-se em frente a um balcão de atendimento numa lanchonete e pegou um cardápio para se disfarçar.

          A pergunta era: de que modo os abordaria? Simplesmente usaria suas novas habilidades para varrê-los da face da Terra de uma vez ou os torturaria, como eles costumavam lhe fazer? Para decidir a abordagem, quis antes ouvir o que eles planejavam.

          — Cara, a gente tá tão na merda — exclamou uma garota, estufando na boca uma porção de batata fritas.

          — Eu falei que era uma má ideia, mas a retardada da Gluci não escutou — disse um dos rapazes.

          — Ah, sem essa — rebateu a acusada, com o cotovelo apoiado na mesa e a mão sobre o queixo. Ficou cutucando, lentamente, a argola de um dos brincos. — Você sabia muito bem no que a gente estava se metendo. Não vem querer dar uma de santo agora não, porque, na hora em que eu dei a ideia, todo mundo concordou.

          — Então por que você não manda seu pai pagar a casa dela? — perguntou Dário, cruzando os braços. — Não deve custar nem um centavo mesmo.

          Saindo do estado monótono, Gluci fechou os punhos, se levantou e lhe lançou um olhar de reprovação.

          — Esse não é o problema, ô estrupício. Você não viu o que aconteceu com aquela velha?

          — Tch. É mesmo — concordou Dário, levando as mãos ao rosto. — O que nós vamos fazer, então?

          — Poderíamos subornar a vaquinha — respondeu Gluci, dando de ombros. — Aposto que ela nem devia gostar da doente da mãe. Nós fizemos um favor a ela.

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