16 - Todos Os Mortos - ÚLTIMO CAPÍTULO - Parte 3

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– Filha! – Ruth responde ao clamor da filha. Perder a mesma coisa duas vezes dói de tirar o fôlego da vida, podendo torná-la insuportável. Ainda mais quando essa coisa faz tão parte do que você é feito. É desse perder que Ruth corre para o mais longe que puder.Vai desesperada em direção às árvores que tampam o buraco em que Hannah se encontra de braços quebrados. Os passos da mãe vão famintos até os troncos caídos até que um forte tremor faz com que ela vá ao chão antes de completar a sua pequena jornada. Assim ocorre com todas as outras Sete ali. O mundo no Sul começa a rachar devido à fúria irradiada de Micaela. O solo treme e espalha buracos na paisagem que expõem as raízes das árvores e fazem com que elas caiam uma por uma. O som que emana daquele ponto do planeta é feroz, pancadas e estrondos.
– Micaela! – Olívia clama ao esticar o braço em súplica, enquanto caída na terra. Está impossível de se ficar em pé, se você não é a Sete destruidora.
– Você vai matar a gente! – A professora de Chicago avisa.
– Você vai matar a minha filha! Por favor, pare! – Ruth implora, também deitada.
– Micaela, tente se acalmar, por favor – até mesmo Sonia lhe pede, mesmo que sem muito alarde emocional.
– Amiga... Foque aqui – Alice se rasteja até a jovem médica grávida com a mão brilhante em azul claro. Logo ela grita de dor ao ter a mão quebrada por Micaela, que a observa impassível, num transe. Um desespero profundo arrasta as entranhas de Alice para um lugar de visceral cansaço. Ela quer dar um fim a todo esse desespero recente, ao que ela vem acumulando desde que chegou nesse novo mundo e àquela voz que repete o que ela ouviu através de mundo na noite anterior: todos os seus familiares, amigos e amados estão mortos há mais de cem anos. Portanto, eis o que ela diz com muitas lágrimas de dor pela mão quebrada e em voz alta o suficiente para cobrir o rugido do mundo:
– Mica, a sua família está morta. A minha família está morta. Todos têm mentido, de uma forma ou outra, para nós. Presta atenção nisso. Presta atenção na verdade. Temos que ir atrás da verdade. Ela está com a Martha. Temos que salvá-la.
É então que ela se dá conta do que disse: que elas têm que salvar Martha. Por que salvá-la? As últimas lembranças da noite anterior se tornam mais vívidas. Ela viu a Sete sul-africana ser esfaqueada na barriga por alguém. Pelas garras de uma outra Sete. Ela tira a próxima ordem e próximas atitudes do resto das suas forças:
– Pare agora, Micaela! – ela lança sobre a Sete destruidora um luz azul clara com a outra mão. O mundo para de tremer. Micaela pisca ao sair de seu transe. Alice lhe sussurra:
– Temos que salvar a Martha. Todas nós temos.
– Valeu, Alice. Vê se morre, Micaela! – Ruth lhe pragueja enquanto tenta empurrar das árvores para longe da abertura do poço em que sua filha está.
– Eu sinto muito, Ruth. Me perdoe – Micaela caminha até a outra e para isso pula sobre uma abertura no chão. Ao se agachar para ajudar, Ruth lhe dá um tapa no braço esquerdo para que ela se afaste. O semblante de Micaela volta ao estado de fúria. O mundo volta a tremer todo. A não muitos quilômetros de distância, duas naves pretas se aproximam no céu nublado de um dia cheio de vento frio. Dentro de uma delas, o radar  avista atividade anormal identificada como “Sete em violência. Cuidado!”. Airte faz um muxoxo com a boca e bufa:
– Espero não ter que matar essa também.
O radar traz outro aviso incômodo:
– Multidão morta à frente.
– O quê? – Airte se levanta de sua poltrona.

MAIS CEDO NA MANHÃ DAQUELE DIA

– Eis o plano: levar os corpos das Sete mortas e mostrá-los como exemplo de possessão por ilóricos. Isso nos ajudará com as Sete contra Hannah. Não sabemos se as Sete a amam ou a odeiam. Caso ame, tudo será mais fácil. Se a realidade for a oposta, hm... Lura terá um outro papel. Lura também é adorada pelo povo sulista. Os tais Destruidores. A força de sua aprovação será um peso para essas Sete que mal acabaram de chegar neste mundo. Elas serão reféns do povo. É mais fácil que eles as dominem do que o oposto.
– E se Hannah tiver mudado a cabeça das Sete? E se ela tiver mudado a cabeça do povo também? – Janine lhe questiona sentada ao seu lado, com amarras de segurança, num dos assentos laterais daquela nave toda branca por dentro. Essa que tem o ambiente tomado por bipes de computadores funcionando; um ruído silencioso de motor. Airte se ajeita como pode, mesmo apertada pelos cintos no banco. Ela se incomodou com a pergunta de Janine e se defende:
– Isso não vai acontecer. Tudo está devidamente planejado.
– Você... – A francesa pigarreia para organizar as palavras na boca. – Você   já tinha planejado matar todas?

Airte lhe lança um olhar que se contém para não fulminar totalmente a pessoa a quem observa e expõe, ao fixar os olhos no nada:
– Eu já havia desistido de todas assim que vocês fugiram. O que eu fiz agora foi um teste. Separei as fiéis das infiéis. Eu precisava de uma profeta; de uma que não se contaminou; de um bom exemplo para as Sete que são líderes.
Um silêncio se alonga por mais de um minuto com Janine também focando a visão fixamente à frente. Ela volta a se ajeitar na poltrona e indaga:
– Mas e Martha? Ela é uma das líderes.

Airte olha fundo em seus olhos, inclina o corpo e cochicha:
– Ela vai ser Dulan.
– O quê? – Janine realmente não entende.
– Transplante de mente – Airte ri singelamente no fim da frase.
– Isso-isso é possível? – A Sete lórksel engole saliva e deixa o seu rosto expressar uma gélida perplexidade.
– Ah, Janine
... Se você soubesse.
– Não ficam sequelas?
– Só se você de alguma forma desencadear imagens, lembranças do outro corpo que habitou.
– Espere. A Dulan não vai lembrar de ser a Dulan?
– Não até a hora em que eu decidir que assim seja feito.
– A senhora fala disso como se fosse tão rotineiro.
– Já foi. Esse era um dos maiores pecados do Norte na Era de Oceanos: não querer morrer. Tecnologia dada pelos ilóricos. Infelizmente, vou ter que usar um pouco dela para trazer Dulan de volta. Até que ela assuma completamente o corpo de Martha, a mente de Martha ali estará. Depois, ficará em sono profundo.
– Isso é... – Janine expressa o desconserto no rosto.
– Necessário. Estamos em guerra. Os fiéis contra os infiéis.

O zumbido do motor se mantém enquanto Janine, em silêncio, tenta processar tudo o que ouviu. Do que ela sabe de vida, ninguém ouve tantos segredos perturbadores de uma vez. Não se vão ficar vivos para contar história. Eu precisava de uma profeta. Profetas geralmente morrem e se tornam mártires. Há algo mais poderoso do que um profeta morto?
A francesa engole a saliva mais uma vez enquanto sua boca fica seca de nervoso.

Na outra nave, alguém afia o metal de suas algemas.

***

No alto de uma colina, as duas naves estão estacionadas. Os soldados de Airte usam aparelhos semelhantes a telescópios para analisarem o cenário mais abaixo.
– Todo o povo sulista se encontra desacordado e não emanam calor. Estão mortos. As Sete se encontram caídas. Somente Micaela permanece de pé. A Sete destruidora que causa tremores de terra ali na área.

Airte e Lura se entreolham profundamente sérias e tensas.
– Você não é mais útil, Lura – Airte se aproxima andando de lado e cochicha. Lura nada responde. Ela só deixa toda a sua raiva ferver dentro de si. Metal afiado.
– Você me ouviu, sua tola? – Airte lhe questiona e gargalha. – Já sei o que vou fazer aqui e não preciso de você. Todos foram assassinados por Micaela: povo sulista e as outras sessenta e quatro mulheres guardadas em uma de nossas naves. Salvamos Janine e as outras Sete líderes da morte.  Denunciamos para o Norte. Voltamos como herois. O povo de fé que cada vez se torna mais e mais nos adorará e o Norte não poderá nos punir. Teremos o povo em nossas mãos. Eles só precisam de heróis. E eu não preciso mais de uma traidora como você, Lura. Ouviu, tola? Ouviu? OUVIU?

Os olhos de Lura lacrimejam em ira. As suas mãos estão algemadas, mas as algemas são de metal. Metal que ela passou a viagem toda afiando. Ela ergue o seu pulso e o crava na nuca de Airte por cinco vezes. A cada uma delas, mais sangue sai rasgado da pele da líder militar-religiosa que grita e clama caída no chão. Lura vira a cabeça dela, que está ornada com dois olhos assustados, e passa a ferir a garganta com a mesma ferocidade até que ela perca a consciência. Os soldados entram em furor e a tiram de cima de seu corpo. Lura chuta o ar freneticamente enquanto chora – o que nunca viram ela fazer. Eles estão a arrastando até a entrada de uma das naves. Troveja no céu. De repente, Lura se vê livre das mãos que a oprimiam. Garras e dentes animais as dilaceram. É um lórksel. É Janine? É, sim. Quem mais poderia ser?
Após matar todos os soldados, isso se prova real. De volta à forma humana e com a roupa rasgada, Janine respira ofegante cheia de sangue pelo corpo e conclui:
– Abomináveis.
A chuva começa e a água se mistura com todo o sangue alimentando, assim, a terra.

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now