Capítulo 08: Izu kara no Joro-Gumo

16 2 0
                                              

Abashiri, Japão

2011

Mikasa observava o rosto de porcelana de sua mãe enquanto ela lavava a louça do almoço que tinham acabado de comer. Ela não costumava fazer aquele tipo de serviço – seu pai não permitia e, ainda, pagava pessoas para o fazer.

A fazenda de arroz onde chegaram três dias antes pertencia a ele, apenas mais uma de dezenas de outras propriedades espalhadas pelo país. Havia uma família de sete pessoas, os Miyazaki, que trabalhavam e cuidavam da fazenda com mais de seus quinze funcionários que plantavam, colhiam, encaixotavam e enviavam para os compradores – restaurantes e mercados da região.

Ela sabia, porém, que aquele negócio era apenas fachada para lavagem de dinheiro – foi sua descoberta dos esquemas dele dois meses antes que a levaram para a casa escondida. Mikasa tinha seu próprio senso de certo e errado; poderia ser seu pai, mas se era um criminoso, ele tinha que estar atrás das grades.

Sua mãe terminou, com ajuda de Mikasa, a guardar a última louça. Yagyuu o estava fazendo para se distrair.

– Mãe... – Mikasa tentou começar uma conversa, algo simples, para ajudar com a dor que ela estava sentindo.

– Se você não está em luto por seu irmão, eu não sou sua mãe. – Ela revidou, irada.

As duas tiveram aquela discussão logo que chegaram ali e toda a adrenalina dos acontecimentos na casa tinha passado. De acordo com a mãe, Sakura havia assassinado Fuuta, que vivia escondido no sótão. Diferente de sua mãe, ele ainda não era capaz de ficar na forma humana, por isso não podia ser visto por ninguém. Mikasa, porém, sabia que a história não deveria ter sido assim.

Fuuta havia nascido depois de Izu e, por isso, era um joro-gumo como sua mãe, contudo, seus instintos de yokai eram muito mais fortes que a humanidade. Mikasa não tinha provas ou como confirmar, mas era fácil para ela imaginar que Fuuta havia atacado Sakura assim que ela colocou os pés dentro daquele sótão.

– Ele não era meu irmão. – Sussurrou, esquecendo-se que sua mãe tinha os sentidos mais aguçados. O tapa que recebeu no rosto doeu mais do que os outros que ela tinha recebido quando era pequena.

– Fuuta era meu filho. Era filho de seu pai. – Vociferou. – Eu não vou permitir que você negue isso. – Enquanto ela falava, Mikasa bateu os pés até porta de saída que ficava na cozinha.

– Ele era um monstro, como a mãe e o pai dele. – Retrucou, deixando a casa.

Mikasa estava do lado de fora, mas ouviu o grito de sua mãe. Neste havia apenas ódio, não apenas contra ela, mas também contra Sakura e Akira, assassina e cúmplice.

Caminhou pela fazenda, assistindo aos trabalhadores colhendo arroz. Eles o faziam a mão, como seu pai exigia, o que era extremamente ineficaz, mas ao mesmo tempo aumentava o preço final do grão, que era considerado orgânico devido a produção em pouca escala.

Seus pensamentos iam longe, de fato, voltavam para o ano de dois mil e quatro, um ano após o acidente que levou a vida de sua irmã mais nova, Ayuka. Sua mãe estava em uma depressão profunda, tomando remédios controlados e visitando psiquiatras e psicólogos praticamente duas vezes por semana. Yagyuu não via mais motivos para viver.

Acima de tudo isso, Yagyuu desejava com todas as suas forças ter um terceiro – segundo, depois do acidente – filho. Um menino para ser preciso. Este também era o desejo de seu pai, mas até isso o acidente havia tirado. Os exames feitos não mostraram nenhuma consequência grave em Yagyuu, porém detectaram uma anomalia em seu útero.

Histórias Curtas do Sétimo UniversoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora