Capítulo 1: Narrador

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Hoje


Em algum lugar do internato para garotos Tenreiro Aranha, um som foi ligado e Rock'n Roll Train começou a tocar pelos altos falantes espalhados desde a margem do lago artificial, que os meninos por ali chamavam de Pica d'água, porque lembrava um pênis torto, até a sala dos professores, do lado oposto do terreno.

Não era o tipo de música adequada a um colégio conservador, tampouco vibrando tão alto pelos altos falantes, mas quando Vincent estava na sala de controle, todo o bom senso conservadorístico ia para o ralo. Ele era o rei das peripécias tecnológicas daquele lugar, e ninguém, nem mesmo o chefe da segurança, era capaz de abrir a porta da sala onde ficava a rádio da escola se ele estivesse lá.

Claro que aquilo era sinônimo de detenção para o adolescente, mas ele achava que tocar Rock'n Roll na escola valia a pena em troca de dois dias sem intervalo e sobremesas. Aquilo era o máximo que a direção era capaz de fazer, levando em conta que Vincent era o típico aluno modelo em notas que alcançaria vaga nas melhores faculdades, dando prestígio a escola, e filho de um grande empreiteiro que doava somas consideráveis para aquele lugar todos os anos.

Quando a música de Vincent começou a tocar, outro garoto levantou a cabeça de supetão e sorriu. Thomas sabia que aquilo era coisa do baixinho quatro olhos. Todo mundo sabia, na verdade. Jamais admitiria, mas ele tinha muito orgulho do cara. Não era de briga, mas pegou duas ou três para defendê-lo. Não que Vincent precisasse, afinal era versado na arte de se vingar de maneira discreta e eficaz, mas Thomas não conseguia ficar alheio. Jamais conseguiu.

Um menino sem jeito se aproximou dele e fez um sinal discreto com a cabeça. Thomas foi ao seu encontro, desfilando aquele charme inerente que virava pescoços. Não só pela beleza que tinha, mas pela segurança com a qual simplesmente existia.

Ambos, ele e o menino sem jeito, entraram em uma sala minúscula de materiais de higiene no fim do corredor, se apertando contra as paredes na tentativa de ficarem separados. Então Thomas puxou o saquinho discreto do bolso da calça bem passada e cara e entregou ao menino, recebendo de volta uma nota de cinquenta. Piscou o olho para ele, que parecia envergonhado e afetado ao mesmo tempo, e abriu a porta para que saísse. Não antes de dizer que fosse com calma com aquilo e que não dissesse para ninguém onde arrumou. Como se todos desconhecessem o fato de Thomas ser o vendedor oficial de drogas naquela escola. Qualquer tipo, ainda que maconha fosse o que tivesse uma posição de destaque.

Quando o garoto concordou e foi embora, Thomas voltou a se fechar na salinha e contou o dinheiro que tinha no bolso. Mais de quinhentos reais e estavam na metade do dia. Aquele seria dos bons.

Thomas não precisava de dinheiro. Não quando a mãe era a neurologista mais famosa do estado. Mas, como quase todo adolescente, ele era revoltado, e isso parecia suficiente para fazer muita merda. Não vendia drogas para poder comprar coisas. Vendia drogas para poder comprar pessoas. Tinha cada um para quem vendia na palma das mãos, e ele sabia que um dia isso seria útil.

Voltou a guardar a grana no bolso e sorriu novamente quando, ao sair da salinha, avistou um garoto, de não mais de doze anos, dançando descontroladamente a música de Vincent enquanto andava pelos corredores, provavelmente indo descansar antes das aulas da tarde. Aquela escola conseguia destruir quase tudo o que vinha com eles quando chegavam ali, e ver alguém manter o mínimo de irreverência era de se respeitar.

Por isso ele acelerou o passo e olhou firme para o menino, na esperança de gravar seu rosto. Não venderia drogas para aquele rosto jamais. O resto do mundo podia morrer de overdose, ele ainda ajudaria, mas um rosto que ele respeitasse não compraria drogas em suas mãos. Não teria a morte de um conhecido que admirasse nas costas. Esse era o limite de Thomas.

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