Capítulo 06: Futatsu Monogatari

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São Paulo, Brasil

1988

Ofegante por causa da corrida, Edgar de Souza tentava salvar sua própria vida. Ele sabia que se meter com Joseph Rotterdan não resultariam em boas coisas. Rotterdan era o dono de uma das maiores empresas de marketing do país; chegou até mesmo a fazer três propagandas para a Coca-Cola durante o final dos três últimos anos da década. Ele, porém, tinha negócios suspeitos.

Rotterdan era conhecido por traficar todo tipo de coisa pela dark web, desde drogas, remédios e entorpecentes, até humanos – homens e mulheres sem distinção, tudo conforme os pedidos do cliente; às vezes em pedaços. Edgar quase vomitou quando descobriu essa última parte.

Detetive particular, Edgar atuava em São Paulo há pelo menos doze anos. Noventa e nove por cento de seus casos envolviam relacionamentos extraconjugais, contudo, quando a mulher entrou em sua sala dizendo que sua filha havia desaparecido, Edgar viu a oportunidade de subir na vida; se ele achasse a garota, com certeza atrairia mais clientes do que ele poderia lidar.

No momento em que o nome Joseph Rotterdan surgiu na investigação, ele sabia que não daria certo. Não tinha certeza quais eram os crimes de Rotterdan, mas alguém com tanto dinheiro quanto ele estava envolvido em esquemas pesados, na casa dos milhões.

Edgar parou em frente a uma delegacia de polícia. Havia alguns do lado de fora, conversando. Correu até eles, pedindo ajuda. Rotterdan surgiu em seguida, caminhando; vestia uma camisa de seda azul marinho e calças sociais brancas – ele não parecia ter passado dos anos 1970.

Rotterdan, que estava com uma faca na mão direita, aproximou-se de Edgar. Os polícias, antes preocupados, cumprimentaram o recém-chegado com um movimento de cabeça. O detetive particular sabia exatamente o que estava acontecendo: eles estavam na folha de pagamento de Rotterdan. Era bem provável que toda a polícia estava – afinal, além de extremamente rico, ele era supostamente um membro da Ordem da Rosa Cruz, uma sociedade secreta enfiada em todos os níveis do governo.

Edgar sabia que seria seu fim. Tentou lutar, mas Rotterdan facilmente o subjugou. A faca cravou-se em suas costas, na diagonal e baixo para cima, perfurando seu pulmão e chegando ao coração. Sua morte seria lenta, mas irreversível. Antes de perder a consciência para nunca mais recuperá-la, Edgar ouviu Rotterdan pedindo para os policiais limparem a bagunça.

De alguma forma, Rina sabia que seu marido havia morrido. Não estava presente nem havia recebido a notícia, mas sabia que ele havia morrido. A mente de Edgar havia se apagado. Rina de Souza Watanabe tinha certeza que sua filha estava órfã de pai. Até mesmo a pequena Akira começou a chorar no momento exato em que Edgar morrera; ela sabia.

O tocar de sua campainha não foi inesperado. Rina sentiu uma mente cheia de ódio se aproximando de seu apartamento; a sentira quando ainda estava na portaria. Tentou descobrir quem era a pessoa que estava ali, mas o porteiro não tinha pego seu nome, o que significava que havia sido comprado.

Quando bateram em sua porta, o coração de Rina estava mais rápido do que ela achava possível. O perigo era iminente; seu único instinto foi ligar para polícia. O homem que entrou, vestindo uma camisa azul marinho e calças brancas – com algumas gotas de sangue de Edgar, ela sabia, espalhadas. Ele nem se dera ao trabalho de esconder ou limpar.

Ele a encontrou no quarto do bebê, onde, sobre o berço pintado na parede estava o kanji: 渡辺. Era o nome de sua família – Watanabe – o que ela fez questão de manter como seu último e o de sua filha – graças a uma aposta que fizera com Edgar. Se nascer menino, será Edgar de Souza Júnior, ele disse quando fizeram a aposta, se nascer menina, Akira de Souza Watanabe. Rina concordou, principalmente por já saber que era uma menina.

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