15 - As Revoltas - Parte Final

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O crepúsculo naquela pequena parte do Sul desse outro planeta é fervor e torpor. Todo o ressentimento e fúria de um povo se encontra em uma pessoa: Hannah. Para eles, ela é o que há de pior, pois foi assim que a sua fé lhes ensinou. 

- Eis, finalmente, aqui, a culpada pela nossa ruína! -  O que brama é mesmo velho que tocou um estranho chifre instrumento anunciando a chegada das Sete num dia festivo. É engraçado como o processo de achar um culpado se faz num frenesi quando ele envolve um aglomerado humano, a religião, o medo e a mágoa. Tudo isso move as mãos que amarram a filha de Ruth numa longa estaca de ferro torta no terreno mais ao sul que é todo feito de ruínas dos recentes desastres. As pessoas pisam sobre o aço descoberto, rachado e amassado que era o teto de suas casas. Muitas vezes também pulam de crateras com a ajuda de outras mãos que as puxam para o outro lado. Tudo para punir alguém; para expurgar toda frustração e todo luto. Todos se ajuntam ao redor de Hannah. As suas roupas estão rasgadas e joelhos ralados por resistir. A sua voz está cansada de ser usada no máximo de sua força para clamar, mas ela ainda o faz:

- Por favor! Eu sou boa! Eu sou... - Ela não quer contar que é filha de Ruth, pois eles iriam até ela. Veja só: aqui estou sofrendo para poupar a minha mãe. Eu realmente mudei.

- O que você é culpada! - Lorona grita ao se colocar a frente da multidão. Hannah sente o nó na garganta se apertando.

***

  Olivia é jogada longe por uma patada de Sonia. Quando a professora termina de rolar na terra e na grama úmidas e frias, ela se coloca de pé, com os punhos fechados para acertar a Sete russa. Outra patada a atinge antes de fazer qualquer coisa. Micaela observa ao recuar cada vez mais. Não quero destruir mais nada. Mais nada!

***

Alice está escondida atrás de uma gorda árvore. Ela observa o mundo em furor lá embaixo.

- Alice... Que bom que está bem - Róru lhe diz ofegante após correr até ela. Ela se vira e clama:

- Nós temos que fazê-los parar! Isso é um absurdo... Eu sempre odiei...

O seu irmão ferido no hospital pela homofobia de seu pai lhe vem à mente e ela termina a sua fala:

-Violência.

***
Martha caminha em direção de Ada, que quieta, reflete em sua rede, com as costas contra a parede.

- Você vai abraçá-la? É isso? - Suzana desconfia.

- Sim... Ou tocar em sua mão. Ela sempre foi uma das legais. Mostrar algum carinho nesse momento é fácil - Martha justifica.

- E ela é africana - Suzana adiciona. Martha lhe encara e lhe explica:

- A África é enorme. É um continente! Mas, sim, a empatia é real. Oi A...

Ela é interrompida antes de cumprimentá-la. Ela simplesmente congela.

***
Mais ao sul, uma memória zarpa na mente de Alice. Quando elas estavam de partida para o Sul e Martha ficaria com o Norte, um soldado de Lura disse algo para a Sete jornalista:

- Chame por Alice, caso queira fugir...

Chame por Alice... Chame por Alice... É, então, quando ela fecha os olhos e com todo o seu pensamento e coração, ao ter o seu corpo todo a irradiar luz branca vívida, ela encontrar a mente de Martha, ela sussurra as palavras que Eles lhes dão:

- Martha... Aqui é Alice. Não faça o que quer fazer - a brasileira digere lentamente o discurso que passa pelo seu corpo como água por um cano - Isso a impedirá de vir ao Sul. Precisamos que venham e nos salvem. Portanto... - os olhos de Alice chamuscam em dourado e ela pode ver o mundo ali através da visão de Martha. - Não incendeie a nave. Não se liberte e nem liberte as outras! Deixe tudo acontecer! Deixe tudo acontecer!

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now