Capítulo 05: Yokai no Ie

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Tokorosan, Japão

2011

Mikasa parou com a mão na maçaneta de sua porta. Ouvira os passos no sótão, ouvira algo caindo escadas a baixo e, por fim, ouvira o terrível grito. Ela sabia que era o grito de dor de uma mãe que perdera seu filho; Mikasa já tinha ouvido esse exato grito – porém menos animalesco. Talvez o medo ou talvez a lembrança a fizeram paralisar onde estava. Talvez ambos.

Ela tinha oito anos. Estavam em uma viagem pelo interior do Japão, chegando a cidade montanhesa de Takayama. Seu pai sempre foi fascinado pelas estruturas e arquiteturas antigas do país, por isso, fazia visitas anuais àquela pequena cidade cuja cultura era única por causa de seu isolamento nos alpes japoneses. Por séculos, os moradores de Takayama foram carpinteiros famosos que foram chamados para construir diversas estruturas pelo país, incluindo o Palácio Imperial de Kyoto.

Seu pai, que dirigia, não viu o caminhão vindo na contramão. O motorista estava dormindo ou distraído com o rádio – Mikasa nunca se preocupou em saber. Ele bateu com força, de frente. Seu pai, mãe e ela própria se machucaram, mas como usavam o cinto de segurança, sobreviveram. No entanto, sua irmã mais nova, naquele exato momento estava procurando por um livro que estava no porta-malas.

Mikasa estava sentada na poltrona dentro de uma ambulância; sua cabeça estava apoiada no ombro de seu pai, ambos já haviam sido atendidos e estavam com apenas alguns ferimentos leves; ela tinha um corte mão feito pelo copo de plástico que, de alguma forma, se quebrara na batida. Sua mãe estava sendo examinada naquele momento na maca diante deles.

Um dos bombeiros, o que havia retirado Mikasa dos destroços, aproximou-se com um olhar triste. Ele não precisou dizer as palavras para que sua mãe compreendesse. Ela se desvencilhou do enfermeiro que cuidava dela e saiu; seu pai, levantando, tentou impedir. Mikasa foi atrás a tempo de ver um saco preto com um zíper ser fechado; dentro dele, o corpinho da sua irmã.

Sua mãe gritou de pura dor. Alto e agudo. Seu pai a abraçou, assim como Mikasa.

Sentia a maçaneta fria onde estava sua cicatriz. Virou a palma para si, sem abrir a porta.

– Ayuka. – Sussurrou o nome de sua irmã. Um estrondo do lado de fora a tirou de seu devaneio.

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Sakura olhava, procurava, desesperadamente em volta. Ela sabia exatamente o que Yagyuu e aquele menino grotesco eram: Joro-Gumo. Meio-mulher, meio-aranha, uma Joro-Gumo era uma criatura capaz de assumir a forma de uma bela mulher que seduzia homens para comê-los. Algumas versões das histórias diziam que viam o monstro com um bebê no colo e pedia para os passantes segurá-lo. O bebê, porém, tornava-se um monte de aranhas que cobriam a vítima e facilitavam a refeição de Joro-Gumo.

De acordo com as lendas, Joro-Gumo fora uma mulher belíssima amante de um Príncipe Imperial durante o Período Jomon, mais de dez mil anos antes. Tal príncipe – cujo nome havia se perdido na História – era conhecido por todo Japão por sua deslumbrante beleza, tanto, que até mesmo as deusas caiam de seus tronos celestiais para uma noite de amor com o príncipe.

Ele estava noivo de uma princesa coreana; o propósito do casamento era trazer uma aliança entre os dois países. Entretanto, a princesa estava apaixonada pelo príncipe e desejava a noite de núpcias como nenhuma outra mulher jamais desejou. Quando soube de Joro-Gumo, ela sentiu-se enfurecida e pediu para os deuses de sua terra para lhe darem poder de amaldiçoar a pobre plebeia – que nem gostar do príncipe gostava, apenas fazia o que lhe era mandado.

A princesa viajou para o Japão para seu casamento. Em uma noite sem lua, quando Tsukiyomi fechava seus olhos, levou Joro-Gumo para a cachoeira Jōren, em Izu. Ali, jogou a mulher na água e, em seguida, um tronco repleto de aranhas Nephila, tecedeiras-de-seda-dourada. Ela amaldiçoou a menina.

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