Noite de Halloween

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I

O dia promete ser bom com o sol brilhando e uma brisa fria tocando meu rosto, fazendo as poucas folhas das árvores se mexerem. Estou caminhando pelo bairro com meus três amigos Aleksei, Mayers e Hank. É uma das poucas manhãs agradáveis em meses. As ruas estão silenciosas, as pessoas estão tomando café da manhã ou dormindo em suas camas quentes e confortáveis.

Aleksei, o mais velho de nós, fica resmungando ao tentar me convencer de que o Halloween é um dia para desafiar os mortos e vasculhar confins desconhecidos. Mayers, alto e magrelo, faz um barulho irritante com a boca cheia de gomas de mascar. Hank escuta Alek com atenção como se ele fosse uma espécie de guru ou algo do tipo, seus olhos brilham de excitação diante tal ideia.

— Porra Alex, é assim que vai ser?! — Alek fala e me puxa para ficarmos cara a cara. Seus cabelos enrolados estão emplastrados de vaselina e penteados para trás. Seus olhos afiados e as orelhas gigantescas que marcam seu rosto conferem-lhe uma aparência de cansaço.

— Merda Alek, todos os anos é a mesma coisa, desencana caralho eu não vou fazer isso! — Falo enquanto me desvencilho das suas mãos.

— Alex, Alex, Alex meu querido amigo Alex você sabe que dia é hoje, não é? Não me diga que ficou estúpido do nada, então por favor me diga que dia é hoje. — Ele sustenta um sorriso de escárnio que me entedia e, ao mesmo tempo, me deixa incomodado.


— É Halloween... — Minha indiferença fica nítida, mesmo assim Alek se mantém firme.


— E você sabe o que acontece hoje, não é? — Alek força ainda mais o sorriso.

— O dia que os espíritos saem por aí...blá blá bla, porra você poderia só me deixar e...


— Alex! Nós vivemos uma vez porra e é isso! — Ele segura meu rosto com força.

— Deus!? Não existe Deus meu camarada, eu e você aqui só vamos dar uma volta por aí e vai ser isso, e sabe o que? Não é pra fazer sentido, nossa vida, nossa existência ou o que os seus pais planejam pra você numa conversa pós-foda, você só faz o que tiver na frente e hoje mais que todos os dias é perfeito para isso, perfeito para abraçar o absurdo que é a vida.


Alek lambe os lábios realmente inspirado. Como um treinador passando energia para seu jogador, um soldado pronto para morrer pela pátria. Mayers e Hank não falam nada, eu também não. Eu fico atônito. Seria aquela convicção de Alek a solução para os meus pensamentos tortuosos que me consomem todas as horas do dia? Eu não tenho outra opção a não ser dar o braço a torcer.

— OK!OK! Alek. Vamos fazer como você quer, mas eu quero o seu mvp*! — Tento falar da forma mais corajosa e animada possível. Mesmo concordando com a ideia ou o discurso eu não estou muito animado. Eu só quero que ele pare de encher minha cabeça.

Alek esboça um sorriso enorme, quase maldoso.

— Pode deixar meu amigo que esse ano o desafio vai ser de fuder! Vamos até a minha casa para planejarmos tudo, quem sabe eu não deixe vocês tomarem umas das minhas cervejas.

A manhã deixa de ser agradável e para se tornar tensa, minha ansiedade sobe por meus pés e alcança o peito.

Alek toma a frente, muito animado tagarela sobre o que tinha preparado e o quão incrível será. Algo que nunca tínhamos vivido! As ruas continuam silenciosas, mas minha cabeça não. Os pensamentos sobre o que pode acontecer, o quanto toda aquela merda pode dar errado ocupa todos os cantos do meu cérebro ansioso.

Eu conheço Alek, se isso não for no mínimo nos fazer ser presos ou nos foder não valerá a pena. Ele sempre foi uma espécie de líder e eu odeio isso. Talvez, porque deseje estar no seu lugar e tomar o controle das coisas. Talvez consiga nos deixar fora de problemas até o natal. Isso seria um bom começo, acho até que eu conseguiria, mas a minha falta de motivação atrapalha tudo.

Contos NefastosWhere stories live. Discover now