Capítulo 6 (Parte III) - Eva

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Ainda era estranho atravessar aquele corredor que por tantos anos fora a minha casa e vê-lo tão diferente de outrora, antes ele parecia tão sombrio e frio, no entanto as cores e calor pareceram ter tomado conta de cada pedaço do lugar. Apesar de ter nos mudado há mais de uma semana, aquela sensação de estranheza não passara com o decorrer dos dias e talvez nunca passasse, já que estar ali fazia-me sentir exatamente como o ditado dizia, uma estranha no próprio ninho.

O barulho dos meus saltos ecoavam pelo chão enquanto seguia até a sala e quase tropecei quando recuei um passo para trás, ao dar de cara com as pessoas que estavam a minha espera.

Merda! O que elas estavam fazendo ali?

— Olá, Eva. — Antonella Caravaggio me cumprimentou, enquanto eu permaneci ali, ainda chocada com a presença delas na minha casa.

— Oi — balbuciei de forma débil, ainda sem consegui fazer muito mais do que piscar.

— Olá, Eva. — Stephanne emitiu com um sorriso perigoso no rosto e com o coração quase a boca, me limitei a menear a cabeça. — Podemos nos sentar? Ou não somos bem-vindas? — testou, erguendo as sobrancelhas de modo provocativo, os olhos azuis ardendo desafiadores.

Droga! Eu estava ferrada!

— Claro... Er... desculpe, fiquem a vontade. Eu só não estava esperando por uma visita — apontei para o sofá, aja visto que eu não tinha alternativa a não ser ser educada. Ainda que sentisse que aquela visita tinha um motivo. Um que talvez eu não gostaria.

— Obrigada, Eva. Todavia, acredito que você, no fundo, sabia que viríamos. — Stephanne sorriu outra vez enquanto se sentava, sendo acompanhada por Dona Antonela, que ocupou o lugar ao seu lado e ainda desconfortável, não vi alternativa a não ser me sentar também.

— Vocês querem beber alguma coisa? — indaguei, tentando esquecer meu súbito nervosismo por estar sozinha com as Caravaggios mais assustadores e sinceras e elas negaram de pronto.

— É muito gentil da sua parte perguntar, Eva. Mas não foi para isso que viemos. — Antonella soltou e Stephanne concordou, sorrindo de maneira dócil. Contudo, eu não me enganava com aquela falsa amabilidade, eu conhecia muito bem a Princesa.

— E o que seria? — eu quis saber, engolindo em seco em seguida.

Os cabelos platinados da Princesa caiam em ondas pelos ombros da mulher esbelta que nem mesmo parecia ter dado a luz há poucos meses, os fios claros conferindo-lhe um ar angelical, mas que por trás do sorriso escondia uma pessoa ardil, que não tinha papas na língua e jamais levava desaforo para casa. Se tinha uma característica que ela usava com afinco, era a sinceridade e todos que tinham a chance de conhecê-la sabiam bem disso.

Stephanne Di Montalccino desafiava todos os dias as as regras que a sociedade impusera para uma Princesa. E mais do que isso, desafiava o sistema da Monarquia, tradições e costumes, não tinha nada de Princesinha de conto de fadas, na verdade, ela estava mais para uma Princesa guerreira, que fazia questão de mostrar sua garra. Eu admirava ela, de verdade. Admirava o fato dela não se importar em agradar ou não as pessoas, pois para ela tinha que ser do seu jeito e o resto que se danasse. Eu tinha inveja daquilo, da sua impetuosidade, da coragem de ser quem era, de ser tão cheia de vida e luz. Por ser autêntica e verdadeira em sua essência.

Ainda assim, eu não era uma pessoa bem quista aos seus olhos e vê-la sorrir para mim daquele jeito, trazia-me um medo do caramba e uma sensação terrível no estômago. Foi quando senti-me um pouco zonza e agradeci por estar sentada, ainda assim me forcei a ser mais forte do que podia ser e respirei fundo, tentando não me intimidar.

Uma Mentira Quase Nobre - Completo até 08/11Onde as histórias ganham vida. Descobre agora