Capítulo 04: Yaneuraheya no Ikimono

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Tokorosan, Japão

2011

Sakura não pregou os olhos. Não apenas por causa do constante medo que tinha por estar prisioneira em uma casa que, apesar de bela, era sinistra, mas por causa dos constantes barulhos. Desde que percebera os passos no sótão, não conseguira deixar de ouvi-los. Tum, tum, tum, em rápida sucessão, como se alguém passasse correndo de um lado para o outro. A vezes ficava tão rápido, que parecia que havia mais do que duas pernas.

Quando o relógio-alarme analógico em sua cabeceira apontou a meia-noite, ela levantou-se e foi para a porta de saída. Abriu-a devagar, tomando cuidado para olhar se havia alguém no corredor; tomou um susto quando viu a luz de um lampião descendo as escadas – parecia até que Yagyuu usava aquele método de iluminação para aumentar o fator creepy de sua estadia. Esperou a luz desaparecer para sair.

A terceira porta a direita da sua era aquela da qual vinha o Rock n' Roll daquela tarde. Levantou a mão para bater, mas ela se abriu no momento exato. A garota gótica puxou Sakura para dentro, olhou para ambos os lados do corredor antes de fechar a porta outra vez.

– É estritamente proibido sair dos quartos a essa hora. – Ela confirmou o que Sakura já tinha imaginado. – Então, não faça qualquer barulho. – Sakura confirmou com a cabeça, todavia, os passos do sótão chamaram sua atenção.

– Você está ouvindo isso?

– É claro que estou. Todas nós escutamos. – Informou. – Mas a maioria ignora.

– Sabe o que é? – Ela olhou para os lados; Sakura julgou-a um pouco paranoica, afinal, estavam em seu quarto, ao mesmo tempo, porém, ela não tinha ideia do quanto Yagyuu tinha poder sobre a casa e seus moradores.

– É... O filho de Yagyuu. Aparências são enganadoras. Yagyuu não é humana. – Visto o que tinha visto nos últimos meses, Sakura não duvidou. – Mas não sei dizer o que ela é.

Apesar de tudo que a garota havia explicado e dito para Sakura, havia algo que ela havia esquecido de perguntar em meio a tantas coisas bizarras: quem era aquela estranha mulher?

– Akira de Souza Watanabe. Sou meio brasileira. – Explicou o estranho nome do meio. – E meu pai adorava o desenho e o mangá.

– Como você veio parar aqui?

– Como todas as outras. Nomura veio a mim dizendo que apreciava meu talento e queria me patrocinar de tal modo que eu iria me dedicar apenas a minha música. – Enquanto falava, Akira guiou Sakura até seu quarto especial em formato de estúdio com dezenas de instrumentos, diferentes e repetidos. – Contudo, ele não me levou para ser sacrificada.

– Por que não? – Sakura estava completamente investida na história de Akira.

Entretanto, sua resposta não veio. Alguém começou a socar a porta do quarto, o que imediatamente acelerou o coração de Sakura – que só não estava mais aflita com o estúdio completamente fechado por não estar sozinha e o quarto anterior ser uma cópia exata do seu, exceto pelos pôsteres de bandas de Rock nas paredes. Era Yagyuu, só podia ser.

Akira mandou Sakura se esconder atrás de algumas caixas de instrumentos musicais. A mulher de porcelana entrou com o rosto sério. Seu robe azul marinho com detalhes em azul claro indicavam que ela já havia se preparado para dormir – e provavelmente fora interrompida pela visita noturna de Sakura. Yagyuu andou por todo o quarto, procurando.

Quando chegou a vez de olhar o estúdio, Sakura não sabia como controlar-se. Sentia que seria descoberta e sofreria consequências desconhecidas, as quais deviam envolver muita dor e morte. Quis deixar seu esconderijo, se entregar, dizendo que não conhecia as regras da casa, clamar por misericórdia. No entanto, suas pernas não se levantaram; se recusaram a obedecer a seus comandos.

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