Capítulo 23

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Eu tinha grandes planos para hoje à noite: fazer um jantar, comer com Hero, finalmente decidir qual apartamento alugar em Nova York, discutir o que levar de sua casa e de meu apartamento, descobrir como arranjar tempo para empacotar tudo.  Ah, e passar as oito horas restantes redescobrindo cada centímetro do corpo do meu cretino irresistível. Duas vezes.  Mas esse era o itinerário antes de ele entrar pela porta de sua casa e me encontrar cozinhando. Antes de jogar o casaco e as chaves no sofá e praticamente correr pela sala. Antes de me agarrar por trás e chupar a pele debaixo da minha orelha como se não me visse há semanas.  Então, nem é preciso dizer que meu planejamento foi reduzido dramaticamente. Um: jantar. Dois: tirar as roupas.  Mesmo assim, Hero parecia inclinado a pular passos.  – Nós não vamos conseguir comer nesse ritmo! – eu disse, deixando minha cabeça cair para trás enquanto ele beijava meu pescoço. Senti sua respiração quente em minha pele e a faca que eu segurava caiu na pia.  – E...? – ele sussurrou, pressionando seu quadril na minha bunda antes de me girar para me encarar.  O armário estava duro nas minhas costas. Hero estava duro na minha frente. Ele se agigantou sobre mim e passou os lábios em meu pescoço.  – E... – eu murmurei. – Comida nem é tão importante assim.  Ele riu suavemente, deslizando as mãos pelas laterais do meu corpo até chegar aos quadris.  – Exatamente. Meu Deus, parece que faz semanas que não toco em você.  – Foi hoje à tarde – eu o corrigi, me afastando apenas o suficiente para olhar em seus olhos.  – Foi nesta tarde, lembra? Quando eu chupei você no seu escritório?  – Ah, sim. Acho que lembro de algo desse tipo. Mas minha mente está um borrão só. Quem sabe você não refresca minha memória? Língua... pau...  – Que jeito de falar, Fiennes ! Sua mãe sabe que você tem a boca tão suja assim?  Ele soltou uma risada.  – Pelo jeito como ela olhou para nós dois depois de transarmos no guarda-volumes do casamento do meu primo, eu diria que sim
– Fazia duas semanas que eu não te via! – eu disse, sentindo meu rosto esquentar. – Não fique tão convencido, seu bundão.  – Sou o seu bundão – ele disse, beijando demoradamente meus lábios. – Não finja que você não gosta – isso eu não podia negar. Ultimamente Hero passou a maior parte do tempo fora de Chicago, mas ele era todo meu. Ele nunca deixou nenhuma dúvida sobre isso. – E por falar em bundas... – ele esticou o braço e apertou forte o meu traseiro – você nem imagina o que vou fazer com a sua hoje à noite...  Comecei a responder – para discutir ou dizer algo espertinho –, mas não consegui pensar em nada.  – Meu Deus. Você ficou sem palavras! – ele disse, os olhos arregalados com a surpresa. – Se eu soubesse que bastava isso para ter um pouco de paz e sossego, eu teria falado há tempos.  – Eu... humm... – abri e fechei a boca algumas vezes, mas nada saiu. Isso era novidade.  Quando a campainha do forno tocou, me forcei a dar um passo para o lado, ainda um pouco abalada. Tirei o pão do forno e escorri a água do macarrão, sentindo Hero se mover atrás de mim novamente. Ele enganchou o queixo em meu ombro e envolveu minha cintura com os braços.  – Você tem um cheiro muito bom – ele disse. Sua boca voltou a trabalhar em meu pescoço, enquanto suas mãos começaram uma lenta descida até a barra da minha saia. Fiquei mais do que animada para deixá-lo continuar.  Mas, em vez disso, fiz um gesto mostrando a tábua de corte.  – Você pode terminar a salada para mim, por favor?  Ele grunhiu e me soltou, resmungando alguma coisa enquanto começava a trabalhar do outro lado do balcão.  Uma nuvem de vapor com cheiro de alho subiu da tigela quando despejei o macarrão e o molho juntos, tentando limpar minha mente. Como de costume, isso era impossível quando ele estava por perto. Havia algo em Hero Fiennes que parecia aspirar todo o ar ao meu redor.  Fui pega de surpresa pela força com que me apaixonei por ele, e ultimamente sentia muita saudade quando não estávamos juntos. Às vezes, sozinha em meu quarto vazio, eu falava em voz alta: "Como foi o seu dia?" "Meu novo assistente é hilário." Ou: "Meu apartamento sempre foi silencioso assim?".  Em outros dias, depois de vestir sua camiseta de dormir por tanto tempo que seu cheiro já sumira, eu saía e ia até a sua casa. Eu me sentava na grande poltrona com vista para o lago e ficava imaginando o que ele estaria fazendo. Imaginava se era possível ele sentir por mim pelo menos uma fração da saudade que eu sentia por ele. Deus! Eu nunca entendera as mulheres que agiam desse jeito quando os namorados viajavam. Até então, eu achava que era apenas uma ótima oportunidade para uma boa noite de sono e umas horas de tranquilidade.  De algum jeito, Hero conseguiu se infiltrar em todas as partes da minha vida. Ele ainda era o homem teimoso e obcecado de sempre, e eu adorava o fato de não ter mudado só porque estávamos juntos. Ele me tratava como uma igual e, apesar de eu saber que ele me amava mais do que qualquer coisa, ele nunca me dava qualquer folga. Por isso, eu o amava ainda mais. Levei os pratos para a mesa e olhei para trás por cima do ombro. Hero ainda estava resmungando enquanto fatiava os tomates.  – Você ainda está reclamando? – eu perguntei.  – É claro! – ele trouxe a salada e deu um tapa na minha bunda antes de puxar a cadeira para eu sentar.  Ele nos serviu o vinho e sentou na minha frente. Ficou me olhando enquanto eu tomava um gole; olhou para meus lábios e subiu para meu rosto. Um doce sorriso surgiu no canto de sua boca, mas então ele pareceu voltar a se concentrar, como se estivesse lembrando de algo.  – Faz tempo que eu queria perguntar: como vai a Sara?  Sara Dillon tinha se formado no mesmo MBA que eu, mas saíra da RMG para trabalhar em outra empresa. Ela era uma das minhas melhores amigas, e Hero lhe oferecera o cargo de Diretora de Finanças na nova filial, mas ela recusara, pois não queria deixar sua vida e sua família em Chicago. Ele não a culpou, é claro, mas o grande dia se aproximava e ainda não tínhamos achado ninguém para o cargo, e eu sabia que ele estava começando a se preocupar.  Eu dei de ombros, lembrando da conversa que tivemos mais cedo. O babaca do noivo da Sara foi fotografado beijando outra mulher, e agora parecia que ela finalmente enxergava algo que todos já sabiam: Andy era um traidor idiota.  – Ela está bem, eu acho. Andy continua dizendo que foi uma armação. O nome da outra mulher ainda aparece nos jornais toda semana. Você conhece a Sara. Ela não vai mostrar para o mundo o que está sentindo, mas eu sei que está completamente devastada por causa disso.  Ele concordou.  – Você acha que ela finalmente vai por um fim nisso? Finalmente vai parar de aceitar as desculpas dele?  – Quem sabe? Eles estão juntos desde que ela tinha vinte e um anos. Se não o deixou até agora, talvez nunca deixe.  – Eu queria ter seguido minha intuição e dado um soco na cara dele no evento da Smith House no mês passado. Que babaca estúpido.  – Tentei convencer Sara a se mudar para Nova York, mas... ela é tão teimosa!  – Teimosa? Eu não consigo acreditar que vocês são tão amigas... – ele disse, irônico. Joguei um tomate nele.  A conversa do jantar foi toda sobre o trabalho, sobre arrumar os novos escritórios e todas as peças que ainda precisavam se encaixar para isso dar certo. Começamos a discutir se a família dele deveria voltar para Nova York antes da abertura da filial, e eu perguntei:  – Quando seu pai voltou para Chicago?  Esperei um momento, mas quando Hero não respondeu, olhei para ele e fiquei surpresa ao vê-lo mexendo sua comida de um lado para o outro no prato.  – Está tudo bem aí, Hero?  Alguns segundos de silêncio se passaram antes de ele responder:  – Sinto falta de ter você trabalhando para mim.  Senti meus olhos se arregalarem.  – O quê?  – Eu sei. Também não faz nenhum sentido para mim. Nós éramos péssimos um para o outro e a situação era impossível – caramba, isso era um grande eufemismo. O fato de termos trabalhado no mesmo escritório por dez meses, sem que um banho de sangue acontecesse, ainda me causava surpresa. – Mas... – ele continuou, me encarando do outro lado da mesa – eu via você todos os dias. Era algo previsível. Consistente. Eu te provocava e você me provocava. Foi o período mais divertido que eu já tive no trabalho. E eu subestimei a importância daquilo.  Baixei minha taça de vinho na mesa e olhei em seus olhos, sentindo uma esmagadora onda de afeição por aquele homem.  – Isso... faz sentido – eu disse, buscando as palavras certas. – Acho que também não percebi a importância de te ver todos os dias. Mesmo querendo envenenar você em vinte e sete ocasiões diferentes.  – Idem – ele respondeu, com um sorrisinho. – E às vezes eu me sinto culpado pelas minhas fantasias de te jogar pela janela. Mas eu certamente planejo compensar tudo isso hoje – ele pegou sua taça e tomou um longo gole.  – É mesmo?  – Com certeza. Eu tenho uma lista.  Levantei a sobrancelha em um questionamento silencioso.  – Bom, primeiro vou tirar sua saia – ele se inclinou para olhar debaixo da mesa. – Eu deveria te xingar por usar essa calcinha de renda só para me torturar, mas nós dois sabemos que eu gosto desse tipo de coisa.  Fiquei olhando enquanto ele se endireitava e se recostava na cadeira, colocando as mãos atrás da cabeça. O peso de sua atenção fez minha pele se arrepiar. Qualquer outra pessoa ficaria intimidada – eu ainda me lembrava do tempo em que isso acontecia também comigo –, mas agora tudo que senti foi adrenalina, uma excitação que partiu do meu peito e chegou ao meu estômago, quente e pesada.  – E essa blusa – ele continuou, com os olhos em meu peito agora. – Eu quero rasgar e ouvir o som desses pequenos botões saltando e se espalhando pelo chão.  Cruzei minhas pernas e engoli em seco. Ele imitou meu movimento, com um sorriso vagarosamente se erguendo nos cantos de sua boca.  – Depois, talvez eu deite você em cima da mesa – ele se apoiou na mesa, testando sua robustez. – Vou colocar suas pernas nos meus ombros e te chupar até você implorar pelo meu pau.  Tentei não mostrar reação, tentei fugir de seu olhar. Mas não consegui. Limpei a garganta e senti minha boca seca.  – Você poderia ter feito isso na noite passada – eu disse, provocando-o.  – Não. Ontem estávamos cansados e eu só queria sentir você gozar. Hoje, quero ir devagar, tirar sua roupa, beijar cada lugar do seu corpo... e te foder. E olhar você me fodendo.  Por acaso está ficando quente por aqui?  – Você está muito confiante, não é? – eu perguntei.  – Com toda a certeza.  – E o que faz você pensar que eu também não tenho uma lista? – fiquei de pé, ignorei a sobremesa e andei até ficar de frente para ele. Seu pau já estava duro e apertado contra a calça justa. Ele seguiu meu olhar e sorriu de volta, as pupilas tão negras e dilatadas que quase apagavam o castanho ao redor.  Eu queria rasgar minhas roupas e sentir o calor de seu olhar em minha pele. Queria acordar de manhã exausta, cheia de marcas e ainda com a lembrança de seus dedos pressionando dentro do meu corpo. Como ele conseguia, apenas com um olhar e algumas palavras safadas, fazer eu me sentir assim?  Hero virou sua cadeira e eu me posicionei entre suas pernas, estendendo o braço para arrumar seu cabelo – aquele eterno cabelo de quem acabou de transar. As suaves mechas deslizaram entre meus dedos e eu inclinei sua cabeça para trás, trazendo seus olhos para os meus. Senti tanta saudade, eu queria dizer. Fique. Não vá para longe de mim. Eu te amo.  As palavras ficaram presas em minha garganta e apenas um "oi" conseguiu escapar. Hero pendeu a cabeça para o lado, aumentando seu sorriso enquanto olhava para mim.  – Oi – suas mãos quentes agarraram minha cintura e me puxaram para perto. Ele riu com minha palavra solitária, e eu sabia que ele entendia minha mente como se fosse um livro aberto, enxergando cada pensamento tão claramente como se estivesse escrito na minha testa com tinta. Não é que eu me sentisse desconfortável dizendo "eu te amo", é só que tudo era tão novo! Eu nunca dissera isso para ninguém, e às vezes me sentia assustada, como se fosse preciso abrir meu peito e entregar meu coração.  Sua mão subiu e pousou em meu seio, o polegar acariciando a parte de baixo.  – Não consigo parar de pensar no que tem debaixo dessa blusinha linda – ele disse.  Eu ofeguei e senti meus mamilos enrijecerem debaixo do leve tecido de caxemira. Ele abriu um botão, depois outro, até a blusa se abrir e seus olhos se moverem para o pequeno sutiã que eu usava. Ele gemeu com aprovação.  – Isso é novo.  – E caro. Não estrague – adverti.  Ele não conteve seu sorriso convencido.  – Eu nunca faria isso.  – Você comprou uma camisola de quatrocentos dólares e usou para me amarrar na cama, Hero.  Ele riu e tirou minha blusa pelos ombros, me desembrulhando devagar, como se fosse um presente. Longos dedos se moveram até a cintura da minha saia e o som do zíper preencheu a sala. Ele fez como prometido, descendo a lã lentamente pelas minhas pernas até os pés, deixando-me apenas com o sutiã de renda e minha calcinha minúscula.  O ar-condicionado ligou automaticamente e um som grave se espalhou pelo apartamento, trazendo uma lufada de ar gelado que envolveu minha pele. Hero me puxou para o seu colo, com minhas pernas envolvendo seu corpo. O tecido áspero de sua calça raspou contra a nudez de minhas coxas e minha bunda. Eu deveria me sentir vulnerável desse jeito – eu com tão pouca roupa, ele todo vestido –, mas eu apreciei o momento. Parecia muito com nossa primeira noite juntos em sua casa, depois da minha apresentação, depois que admitimos não querer mais ficar separados e ele me deixou amarrá-lo para que eu tivesse coragem de ouvir o quanto eu o machucara.  E então percebi que essa posição era intencional. E suspeitei que ele também estava pensando sobre aquela noite. Seus olhos brilharam com tanta vontade, tanta adoração, que eu não pude evitar uma sensação de poder, como se não houvesse um pedido meu que aquele homem não atenderia.  Levei as mãos até os botões de sua camisa, querendo vê-lo nu por cima de mim, atrás de mim – em todas as posições. Eu queria sentir seu sabor, marcar sua pele com arranhões e depois percorrer as marcas com meus dedos, lábios e dentes. Eu queria deitá-lo na mesa e transar com ele até que qualquer pensamento sobre sair daquela sala fosse apenas uma memória distante.  Em algum lugar da casa, um celular tocou. Nós congelamos e ficamos em silêncio, apenas esperando, desejando que fosse só um engano e que a chamada parasse rapidamente. Mas aquele toque agudo – um som que já me era muito familiar – voltou a preencher o espaço. Trabalho. Era o toque da emergência. E não uma emergência comum – era uma emergência de verdade. Hero praguejou, pousando a testa em meu peito. Meu coração batia acelerado e minha respiração parecia rápida e alta demais.  – Merda, desculpa – ele disse quando o toque continuou. – Eu preciso...  – Eu sei – fiquei de pé, usando o encosto da cadeira para apoiar minhas pernas bambas.  Hero esfregou as mãos no rosto antes de se levantar, cruzar a sala e pegar seu celular no bolso do casaco que deixara sobre o sofá.  – Alô – ele disse, e então ficou apenas escutando.  Eu abaixei para apanhar e vestir minha blusa, encontrei minha saia e a puxei até a cintura. Levei a louça até a cozinha enquanto ele falava. Eu estava tentando dar privacidade a ele, mas comecei a ficar preocupada ao ouvir sua voz ficar cada vez mais alta.  – O que você quer dizer com "eles não sabem onde está"? – ele gritou. Encostei na porta e fiquei observando enquanto ele andava de um lado para o outro em frente à ampla parede repleta de janelas. – A reunião é amanhã e alguém perdeu o arquivo principal? Não tem mais ninguém para cuidar disso? – uma pausa se seguiu e eu podia jurar que vi a pressão sanguínea dele subir. – Você está brincando? – outra pausa. Hefo fechou os olhos com força e respirou fundo. – Certo. Estarei aí em vinte minutos.  Quando desligou o celular, ele parou por um momento antes de olhar para mim.  – Tudo bem – eu disse.  – Não, não está.  Ele estava certo. Não estava tudo bem. Aquilo era uma droga.  – Não tem mais ninguém que possa cuidar disso?  – Quem? Não posso confiar algo tão importante àqueles idiotas incompetentes. A conta da Timbk2 vai ser lançada amanhã e a equipe de marketing não consegue achar o arquivo com as especificações financeiras – ele parou e balançou a cabeça, depois pegou o casaco. – Deus, precisamos de alguém em Nova York que saiba o que fazer. Desculpa, Jo.  Hero sabia o quanto nós dois precisávamos daquela noite, mas ele também tinha um trabalho para cuidar. Eu sabia disso melhor do que ninguém.  – Vá – eu disse, encurtando a distância entre nós. – Vou estar aqui quando você terminar – entreguei-lhe as chaves e fiquei na ponta dos pés para beijá-lo.  – Na minha cama?  Concordei.  – Vista minha camiseta.  – Só sua camiseta.  – Eu te amo.  Eu sorri.  – Eu sei. Agora vá salvar o mundo.
DESCULPEM A DEMORA

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