Capítulo III - Episódio 10

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Também não podia pedir ajuda, afinal, se essa lei fosse verdade, as outras pessoas só viriam para ajudar a matar Daniel, e talvez ela só se metesse em uma confusão ainda maior.

"...o que estou tentando te ensinar aqui vai além de sons. Se queres aprender, tens que prestar atenção." Lembrou das palavras do mestre.

Jazz não prestava atenção. Era desatenta, assim como a maioria dos músicos conhecidos por compor músicas fora dos padrões estabelecidos pela sociedade.

Se tivesse sido mais cautelosa, mais cuidadosa ou ouvido um pouco mais, não estariam nessa situação agora. Uma simples atitude em deixar Daniel escondido teria resolvido esse problema todo.

No mesmo transe que todo músico entrava, Jazz ouviu o chamado. Não soube dizer se era o momento ou o sentimento de fracasso. Tirou sua flauta de dentro do casaco e começou a tocar.

Nos primeiros momentos, os tons eram tristes. Como seu mestre dizia para tocar três vezes uma sequência triste e finalizar com um charme. Aquele trecho foi suficiente para fazer ela esquecer tudo que estava acontecendo. Então, os tons variaram do triste para algo mais agitado.

Executou duas vezes um trecho desta canção que costumava tocar quando criança, enquanto voltava da floresta em que seus pai trabalhavam, e assim como criança, terminou com dois versos...

Daniel tirou Jazz do transe a puxando pelo braço. O movimento foi tão violento que parecia ter arrancado os ossos de Jazz da carne.

Ela só voltou a si quando corriam pela periferia da cidade.

— O que foi isso?

— Isso o que? — Perguntou, arisca. No fundo estava se sentindo envergonhada por tocar sua flauta em um momento crítico como aquele.

— A flauta — respondeu Daniel. — O que foi aquilo? Me senti como se minha situação com a fome não estivesse me causando nada. Me senti forte.

Por um instante os dois pararam e se olharam.

— E aquele cheiro? Parecia que havia caído sobre uma plantação das flores mais cheirosas do mundo. O vento era refrescante. Me senti tão forte.

— Você... você bateu neles todos.

Daniel fez que sim com a cabeça e puxou Jazz.

— Esperem aí — disse um terceira voz. — Melhor não correr, Terra-Ruim.

Jazz percebeu que Daniel iria reiniciar a corrida. Já estavam longe da cidade naquele momento, mas um guarda havia os seguido.

Diferente dos dois maltrapilhos, o guarda estava armado e vestia uma armadura de cotas de malha. Dessa vez, os dois não conseguiriam combater aquele homem e sair ilesos.

— O que você quer? — Disse Jazz, nervosa.

— Vocês sabe, existe...

— Uma lei, eu sei. E você veio aqui para pôr essa lei em prática?

— Sim, senhora. Desculpe. Eu sei que ele é seu amigo e você está tentando ajudá-lo. Mas não há nada mais que possa ser feito. Se não for aqui, será em outro lugar. O terror está apenas começando. Para mim também não é uma diversão executar as ordens do imperador, mas é algo que tem que ser feito.

O soldado avançou e Daniel soltou os grilhões. Ambos lutariam até a morte.

Preste atenção, menina.

O que havia acabado de acontecer atravessou a mente de Jazz. O toque da flauta havia feito algo.

Mas o que era aquilo?

Sem pensar muito, pegou a flauta mais uma vez e tocou.

Dessa vez, de olhos abertos, lembrou da infância e tocou as canções mais remotas de sua vida. Uma época de felicidade...

Enquanto tocava, a canção pareceu tocar o coração do soldado. O mesmo olhou para Jazz, com os olhos arregalados e então, Daniel acertou um chute tão forte em sua cabeça que ele desabou sobre as pernas.

Daniel montou no soldado e começou a socar a cabeça dele.

— Não!! — Gritou Jazz. — Por favor, não!

No fim daquele dia, Jazz exercitava sua flauta, na beira do rio Água Profunda. Daniel descansava encostado em uma árvore. Na frente dos dois, o guarda estava caído, e desmaiado. Com o passar do tempo, logo antes de anoitecer, ele acordou.

Desarmado, ele se assustou ao ver os dois.

— Calma, homem — disse Daniel. — Descanse um pouco.

Jazz colocou a flauta de lado.

— Se está com dor, nos desculpe. Não queríamos te fazer mal. Só queremos fugir daqui.

— De onde? — comentou o soldado, massageando a cabeça e sentando no chão. — Do mundo?

— Não, do planalto. Esse lugar está um inferno.

— Não adianta fugir daqui, moça. Ethlon toda está nesse caos. Como você acha que os Terras-Ruins estão se saindo em Vanatoris? Tenho certeza que lá seus corpos também estão esparramados pela rua.

— O que eu sei — prosseguiu Daniel. — É que em Llanuras os nossos homens e mulheres lutam até a morte. Aqui são postos em grades. Lá, temos mais glória.

— Pois então devam ir para lá — disse o guarda. Se levantando. — Mas lhes digo que é questão de tempo para o imperador pacificar aquele lugar também. Essa força tarefa que ele executou ao norte de Llanuras, eu tenho certeza que é para botar seu povo na linha.

Daniel se enfureceu por um momento, mas Jazz se levantou e fez um sinal para ele.

— Soldado, me desculpe por tudo, mais uma vez. Eu não sei porquê tenho um instinto, que você não é um mau homem. Quando eu toquei a flauta, mais cedo, eu vi bondade em seus olhos.

Encabulado, o soldado riu.

— Sim. Eu conheci um homem que me falou que seu sonho era ter uma filha flautista. Esse homem me ensinou algumas coisas. Eu amei uma Terra-Ruim... enfim, não há como chorar pelo passado. Obrigado por não me matarem, eu devo uma a vocês.

— Não deve. Só nos diga, qual o melhor lugar para cruzar este rio e estaremos quites.

Depois de uma curta despedida, o guarda seguiu seu caminho para Traquaras, Jazz e Daniel seguiram em direção ao passo mais próximo do rio.

Jazz, que se sentia feia por suas cicatrizes pelo corpo, se sentiu mais ainda desligada das belezas materiais.

Depois do que passou, amou ainda mais a música.

Com um sorriso no rosto, seguiu sua jornada.

Fazia tempo que não se sentia tão feliz, mesmo no meio desse caos todo, Jazz estava animada.

E assim foram em frente.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora