six

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Taehyung estava confuso.

Confuso sobre o que significava exatamente o beijo da noite anterior. Confuso sobre o que viria depois. Seria aquilo o começo de uma relação? Ou apenas um momento bonito congelado no tempo? Mas o que mais o afligia era um segundo tipo de dúvida, mais afiada, mais prática, menos romântica: como conciliar o que estava sentindo com a posição que ocupava no colégio?

Como capitão do time de futebol, ele era a face de um grupo que só conhecia um tipo de masculinidade: agressiva, prepotente, e limitada. Seus amigos, aqueles que cresciam com ele desde os treinos no ensino fundamental, sempre foram rápidos em zombar de tudo o que escapasse do padrão. Nerds, pessoas de fora do ciclo social deles, garotas que não se encaixavam nos seus moldes de perfeição de classe média alta... e, claro, meninos que gostavam de meninos.

Taehyung não tinha medo de quem ele era. Mas tinha medo do que poderiam fazer com isso.

Era esse o dilema que o acompanhava enquanto andava em direção ao colégio, os fones de ouvido apenas fingindo tocar alguma coisa. No fundo, sua cabeça só repetia o mesmo refrão: e agora, Taehyung?

Ao chegar, viu Jimin encostado em uma pilastra, e bastou um olhar para que o amigo começasse a sorrir.

— Por que tá me olhando assim? — perguntou, tentando disfarçar a animação.

— Nem vem — respondeu Jimin, já se aproximando com um tapa leve no ombro do mais alto. — Tira esse sorrisinho idiota da cara e me conta tudo.

Taehyung não resistiu.

— Foi incrível, Ji. Sério. O Jeongguk é... ele é tão gentil. E engraçado. E fofo. E quando ele beija, meu Deus...

— Vocês se beijaram?! — Jimin quase gritou, recebendo um susto de Taehyung.

— Shhh! — resmungou, rindo e olhando ao redor. — Sim. A gente se beijou. E eu ainda tô flutuando.

Antes que pudesse continuar o relato, uma presença interrompeu o momento. Rosé, com seus longos cabelos ruivos e andar ensaiado, se aproximou com um sorriso confiante demais para a ocasião.

— Bom dia, meninos — disse, encaixando-se ao lado de Taehyung como se tivesse lugar cativo ali. — O que vão fazer hoje à noite?

— Vou ficar com o Jimin — respondeu Taehyung rápido demais, quase como uma tentativa de defesa.

Rosé não se abalou.

— Por que você não me leva pra sair, Tae? Podíamos jantar, ou tomar um sorvete... — disse enquanto envolvia os braços ao redor do pescoço dele e bagunçava seu cabelo com intimidade forçada.

Taehyung se afastou devagar, educadamente, ajeitando a bandana nos cabelos como quem precisava de uma desculpa visual para escapar do toque. Antes que pudesse inventar qualquer desculpa, seus olhos captaram algo do outro lado do pátio.

Jeongguk estava cercado. Dois garotos mais velhos, ambos do terceiro ano, estavam em volta dele. Um deles, Minseok, tocava o rosto de Jeongguk com uma intimidade agressiva que não combinava com o horário nem com a situação. O olhar de Jeongguk procurava uma saída. Não havia rastro de sorriso em seu rosto — só desconforto, e medo.

Taehyung não pensou. Seu corpo foi mais rápido que qualquer dúvida.

Caminhou até o grupo com os punhos cerrados e empurrou Minseok com força contra a parede. O som do impacto fez algumas pessoas ao redor se virarem.

— Qual é, Taehyung? — Minseok protestou, surpreso. — Eu só tava brincando.

— Vai brincar com alguém do seu tamanho — rosnou, empurrando ainda mais o ombro dele contra o concreto. — Se eu te ver encostando nele de novo, eu juro que te arrebento.

— Tá... tá bom, Tae. Foi mal.

Minseok engoliu seco. Todo mundo no colégio conhecia o histórico de Taehyung quando se tratava de proteger os seus. Um garoto já tinha saído da enfermaria com pontos no nariz por ter encostado em Jimin anos antes. Ninguém queria ser o próximo.

A multidão assistia, quieta, como quem presencia algo entre o espetáculo e o aviso.

— Você tá bem? — perguntou Taehyung, virando-se com suavidade para Jeongguk e segurando seu braço com delicadeza. Os olhos de ambos se encontraram, e havia sinceridade na pergunta.

— Tô, Tae. Obrigado.

Jeongguk o abraçou, curto, mas firme. Depois se afastou com o panda azul ainda entre os braços, como se aquele gesto bastasse para dizer tudo.

Aos poucos, as pessoas foram se dispersando. Jimin observava a cena com admiração evidente, quase emocionado. Rosé, por outro lado, assistia tudo com o cenho franzido.

— Por que você fez isso? — perguntou, tentando soar casual.

— Empatia. Já ouviu falar? — respondeu Taehyung, sem pensar muito.

— Claro. Mas... ele é... você sabe, né? — disse ela, com uma risada de desprezo. — Não é normal. Acho até que ele merecia. Quem sabe assim parava de ser doente.

Foi tudo muito rápido. Jimin se virou de uma vez e avançou até a garota.

— Você merece apanhar por amar alguém?

— N-não...

— Então não sai por aí espalhando veneno com esse seu cabelo falso e essa cara de Barbie podre. Cala a boca antes que alguém cale por você.

Rosé arregalou os olhos, ofendida. Mas não respondeu. Jimin puxou Taehyung pelo braço, e os dois entraram na sala rindo, apesar da tensão.

— Você foi meio... agressivo — disse Taehyung, tentando disfarçar a risada.

— Eu fui realista. E educado até demais. — Jimin bufou. — Odeio essa escola. E odeio ainda mais o quanto todo mundo se cala diante dessas coisas.

Taehyung concordou em silêncio. Sabia que Jimin estava certo. O colégio era um campo minado onde ser diferente era sempre um risco, e os professores faziam pouco ou nada pra impedir que a violência ganhasse espaço.

O celular vibrou em seu bolso. Uma notificação nova. Quando olhou a tela, o nome que apareceu fez seu coração acelerar como se fosse a primeira vez.

Jeongguk
vem até minha casa hoje à noite.
quero te agradecer direito pelo que fez hoje.

Taehyung sorriu. Tudo começava a esquentar e ele estava mais do que pronto pra isso.



PRIDE AND PREJUDICE | VKOOKOnde histórias criam vida. Descubra agora