Capítulo 38

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Passos se moveram no quintal, e ele pôde ouvir o som das botas pressionando as taboas soltas rente à porta. O corpo estava anestesiado, o cansaço dominara-lhe há algum tempo, e por isso, o calor do sofá o enlaçara fazendo com que não conseguisse manter os olhos abertos. Mason sabia que não era seguro render-se às cobranças físicas, todavia não conseguiu lutar contra si mesmo nas horas que permanecera sozinho, e só despertou agora, mediante os chacoalhos que o velho lhe dera, ao acender as luzes da tapera.

— Acorde moleque. Meu sofá não é cama, e minha casa não é pousada para desabrigados.

Ratazanas passara todo o dia fora, e agora que retornara, parecia bastante lúcido. Trazia consigo alguns sacos com alimentos, e depositou-os sobre a mesa, em seguida tirou o cachecol e afrouxou a gola do casaco.

— Que horas são? — desperto, Mason sentou-se a olhar ao redor, recordando-se de onde estava e de tudo o que acontecera. Desejara tanto que houvesse sido apenas um pesadelo, mas pelo sorriso apodrecido à sua frente, tudo fora real.

— Anoiteceu a pouco, e pelo visto, você dormiu toda a tarde.

— Eu... estava muito cansado — Mason retrucou limpando a boca, e então ergueu-se, atando melhor o agasalho. Sentiu o peso no bolso, lembrou-se do celular ali oculto e buscou disfarçar — Teve notícias do monastério?

— Notícias do monastério? — o velho virou-se com sorriso de desdém enquanto guardava o que comprara, então voltou a seus afazeres — Será que ainda não entendeu o que o frei Isaac dissera antes de partir? — fitou-o um momento, então meneou a cabeça — Esqueça Von Saint-Michel garoto, você já não pertence àquele lugar, por isso não há motivos para ter notícias.

Dan sentiu a boca amargar, agora que estava descansado voltara a sentir ódio.

— Posso não estar com eles, mas pessoas com quem me importo ainda estão.

— Pessoas? — O velho virou-se jogando restos de comida no lixo, e então o encarou — Pensei que apenas seu irmão valesse sua preocupação — retrucou e observou Mason ficar sem jeito.

— Sim — ele limpou a garganta, então caminhou até a janela, observando que a neve voltara a cair lentamente — Mas há um amigo também. Ele ajudou-me muito, por isso tenho uma dívida.

— "Tinha" uma dívida — o velho o interrompeu, caminhando para a pia — A partir de agora não tem mais. Você está sob meus cuidados, e pela manhã tomaremos a estrada. É bom que comece a se acostumar, pois o que ficou em Von Saint-Michel, só sai de lá no tempo certo.

Mason sentiu as veias latejarem, e um desejo intenso de golpear o velho arrogante, porém se controlou.

— E se eu me recusar a ir com você?

O homem virou-se e sorriu, seus dentes enojavam o garoto.

— É seguir comigo, ou com um dos policiais que guarnecem a entrada da vila. Você pode escolher: liberdade, ou prisão.

Engoliu em seco. Uma vez estivera sob os cuidados de policiais, e as lembranças não foram as melhores. Poderia tentar convencer o velhote a ajudá-lo resgatar o irmão, talvez se mostrasse o vídeo... mas, Ratazanas era apenas mais um braço do monastério, e não prejudicaria sua fonte de renda por uma pessoa como ele. Respirando fundo, olhou para as paredes.

— Qual é a das imagens? Foi você quem as fez?

O homem parou um momento e olhou em direção aos quadros que cobriam a textura desgastada. No ambiente, apenas as pinturas transmitiam beleza.

— Sim. São lindas paisagens, não acha?

— São todas da colina — Dan retrucou, apontando alguns caminhos que conhecia perfeitamente — Este é o acesso à horta, aquele leva ao riacho, mas a ponte...

O Exorcismo de Marlon Gayler [Romance Gay]Onde as histórias ganham vida. Descobre agora