CAPÍTULO ÚNICO

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"Aconteceu de novo. Você viu?" O Espelho pergunta, dando um suspiro.

"Se eu vi? Sou eu que sempre ilumino a cara daquela mulher sempre que ela vai chorar na sua frente." A Luminária responde.

"Por que ela gosta tanto de chorar na minha frente?"

"Antes fosse só chorar, você sabe que ela também fala sozinha... chorando... na sua frente. Eu, sinceramente, não aguento mais. Queria ser desligada e nunca mais iluminar uma pessoa tão triste."

O Espelho e a Luminária se encontram em uma posição delicada. Eles têm dificuldade de entender o porquê de uma mulher sempre se acabar em lágrimas na presença dos dois. No fundo eles pensam que talvez seja culpa deles. O Espelho pensa que, às vezes, ele não está fazendo seu trabalho direito, que está mostrando um reflexo feio da mulher e por isso ela está chorando. Às vezes quem se sente culpada é a Luminária. Será que a luz que está irradiando é tão ruim ao ponto da mulher ficar sempre magoada quando a acende? Muitas perguntas.

"Sabe, outro dia ela disse algo sobre ter um filho. Mas não entendi o porquê de ela estar chorando. Filhos não são algo que humanos gostam de fazer e ter?" A Luminária diz, cabisbaixa.

"Eu me lembro disso. Foi no dia em que ela estava chorando muito e começou a conversar com si mesma novamente na minha frente." O Espelho sempre achava engraçado quando a mulher fazia isso. Achava engraçado que humanos não soubessem que todos os objetos estão, na verdade, vivos. "Lembro de ter escutado ela falando algo sobre 'adoção'. Mas não sei o que adoção significa."

"Ei!" A Luminária grita. "Dicionário! Acorda!"

O Dicionário acorda, virando suas folhas em um susto. "Que foi?!"

"Precisamos saber o significado de uma palavra."

"Vocês precisam parar de me acordar só pra isso. É a quinta vez só nessa semana! Eu não consigo dormir mais em paz nesse ambiente." O Dicionário reclama, rabugento.

"É urgente. Nos diga o que significa a palavra 'adoção'."

"Tá. Mas depois disso vocês vão me deixar dormir por um dia inteiro pelo menos, combinado?"
O Espelho e a Luminária aceitaram as condições do velho amigo e esperaram ansiosos para descobrir o que significava a tão usada palavra pela mulher chorona. O Dicionário folheou algumas páginas até parar de supetão em uma. Pigarreou, e então começou a dizer:

"Definição de 'adoção': processo ou ação judicial que se define pela aceitação espontânea de alguém como filho(a), respeitando as condições jurídicas necessárias."

Silêncio.

"Espera, então ela quer roubar o filho de outra pessoa?" A Luminária perguntou assustada.
"Você está doida? Não é roubar o filho de outra pessoa, é tipo quando as duas trouxeram para casa aquele espécime de animal muito pequeno e fofo que ficou brincando de ver o seu reflexo em mim e que até me arranhou. Lembro de ter escutado uma delas dizendo que tinha 'adotado' ele. Faz sentido." O Espelho explica.
"Ok, agora eu vou dormir." O Dicionário se despede.

"Mas, então, por que ela estava chorando? Elas não podem adotar uma criança?"

"Uns dias atrás elas brigaram na minha frente. As duas choraram e se abraçaram, então eu acho que na verdade estavam se consolando..."

"Vocês são tão inocentes." O Celular dá um suspiro, entrando na conversa. "Se vocês vissem o que eu vejo, escutassem o que eu escuto e lessem o que eu leio... Aí sim iriam entender."

"Ora, então se você é o sabe tudo, conta." A Luminária ficou emburrada, não gostando de não estar por dentro de tudo o que está acontecendo.

"Elas são um casal. Duas mulheres, um casal." O Celular começa dizendo.

"E daí?" O Espelho e a Luminária perguntaram ao mesmo tempo.

"No mundinho fora desse quarto, que é um mundo que vocês não conhecem, elas sofrem. Sofrem por se amar, sofrem por ser mulher, sofrem muito. E o sofrimento que está tomando conta da vida delas, ultimamente, é a questão de elas não conseguirem adotar um filho."

"E por que não conseguem? É por que elas choram muito?"

"Você é muito insensível. Deixa eu continuar. Elas choram porque não conseguem adotar, e não conseguem adotar porque a sociedade é um lixo!"

"Ei, eu não tenho nada a ver com isso!" A Lixeira grita, incomodada. "Estou cansada de ser referida como um xingamento, cansada!"

"Ok, ok, desculpe. Mas, continuando... Pelo o que eu entendi, em todas as conversas que eu escuto e leio, a sociedade acha que um casal de mulheres não seria adequado para cuidar de uma criança, pois segundo ela não é uma família 'normal'." O Celular termina.

"Isso é ridículo. Qual é a diferença? Somos objetos e entendemos o sentido de amor mais que humanos que são o fruto do amor. Não faz sentido nenhum." O Espelho reflete.

Nesse momento, a porta do quarto se abre e de lá sai a mulher chorona que foi o assunto dos objetos até agora. Ela entra e joga algo na lixeira. Logo em seguida checa o celular. Depois se dirige até a luminária e a acende. Organiza os livros em cima da mesa, colocando o dicionário junto com os outros. E depois vai até o espelho. Lá, ela começa a chorar outra vez. Suspira, chora, e morde os lábios com muita força ao se olhar no espelho. Talvez querendo conter algum grito.

O Espelho, vendo aquela cena, sente que também está começando a chorar; chorando por dentro, por não entender o que acontecia no mundo fora daquele quarto que machucava tanto alguém; chorando por sentir pena da mulher, que era discriminada apenas por amar e querer dar amor a alguém que foi desprovido disso. Chorar por nunca saber se um dia isso vai mudar ou se algum dia a mulher vai parar de chorar na sua frente.

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