Capítulo III - Episódio 9

1 0 0
                                          

A geografia do rio Água Profunda fazia com que ele fosse digno do nome que levava. Partindo da sua foz, era possível subir o rio por quilômetros, até uma região onde diversos vaus se formavam, impossibilitando que os barcos da frota prosseguissem.

A estratégia de Bartholomeu funcionaria bem se tudo ocorresse como planejado, entretanto, Severo não acreditava mais "que tudo fosse dar certo". Os Terras-Ruins mostraram ser capazes de se prepararem para o inimigo que eles tinham.

E apesar de discordar de tudo, Severo seguia as ordens de seu comandante cegamente.

Agora precisava atuar para torcer que o plano dele desse certo: pressionar as margens do rio para que os Terras-Ruins não cruzassem para o leste das regiões mais fundas, fazendo eles avançarem até os primeiros pontos de travessia.

A partir do sul, o exército de Bartholomeu e Anthony fariam o mesmo, pressionariam as margens para que nenhum exército Terra-Ruim conseguisse chegar ao leste, onde ficava a capital do império, cidade que Império jamais poderia deixar se comprometer.

Dessa maneira, se os Terras-Ruins resolvessem cruzar algum vau entre os dois exércitos, dariam de frente contra a tropa de Octávius, e por estarem durante uma travessia, teriam desvantagem no combate.

E por sorte, se um dos outros dois exércitos conseguisse participar do conflito, seria uma vitória certa.

Durante três dias, a frota de Severo subiu o rio de Água Profunda em perfeita tranquilidade. Apesar da paz nas águas calmas do rio, os olhos dos marinheiros estavam sempre faiscando em direção ao leste e oeste, entretanto, nem Octávius e nem Terras-Ruins eram avistados. Nenhuma mensagem chegou para dar notícias ou novas ordens.

— Parece que tudo está bem. — Questionou Sergel. — Não é mesmo, almirante?

— Não me parece. Se tudo estivesse certo, alguma coisa já teria acontecido. Teríamos encontrado o filho do imperador ou teríamos algum conflito com os Terras-Ruins.

— O que você quer dizer?

Que pergunta idiota, Sergel. Nem sei porque você é meu capitão preferido.

Severo sabia o que ia acontecer em seguida. Não sabia o momento, pois se soubesse, se precaveria. Para o Almirante, era óbvio que os Terras-Ruins lhe aplicariam uma peça. E apesar de pensar e pensar, não conseguia imaginar qual seria a surpresa dessa vez.

O maior temor de Severo é se algum morteiro tivesse sido instalado nas proximidades da margem do rio e a frota fosse bombardeada mais uma vez por aquela máquina demoníaca.

E ainda havia algo que temia mais. Ele sabia que os Terras-Ruins conheciam um dispositivo que disparava morcegos de metal capaz de furar velas e dilacerar os soldados sobre o barco.

No dia seguinte, quando o sol ficou exatamente sobre eles, foi quando Severou ouviu um estouro no horizonte e o seu espírito afundou, tão fundo, quanto ninguém jamais havia visitado.

O caos se instaurou no convés, e pelo rápido mover dos glóbulos oculares, Severo percebeu que os outros barcos também estavam se descontrolando.

O Almirante perdeu o desejo de viver. Pela segunda vez, caiu na armadilha do inimigo. Mas o que poderia fazer? Desertar? Isso era algo que jamais faria.

Mas seria essa a sina de um soldado fiel? Morrer perante um plano estúpido? Era assim que seria se não fizesse algo.

Ao lembrar dos desejos da vida, da esposa e do sonho em ter filhos, em criá-los e de ser feliz ao lado de sua família, acordou do frio da depressão que o queimava como o fogo.

A saga dos filhos de Ethlon II - AntítesesOnde as histórias ganham vida. Descobre agora