Capítulo 02: Tadasu no Mori

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Kyoto, Terra

2011

Nas meditações diárias, algumas acompanhadas por Yuka e outras sozinha, Sakura já conseguia se sentir confortável dentro de espaços de tamanho tradicional – como um quarto ou um corredor. Nestas situações, ela não mais sentia como se o mundo a estivesse tentando engolir. Ao mesmo tempo, porém, não tinha certeza se, caso a situação surgisse, ela conseguiria dormir em uma barraca ou algum lugar menor do que seu próprio quarto.

Mais importante do que tudo isso, ela sentia-se confiante o bastante para se aventurar pela Tadasu no Mori, a floresta onde vira Za'an pela última vez.

Desde que a ajudou pela primeira vez, Koen estava mais próximo da garota, perguntando sobre sua vida em Tokyo e como ela estava se virando para pagar o condomínio de seu apartamento – já que, pelo menos, não pagava aluguel. Também perguntava sobre seus planos futuros, não que Sakura tivesse algum. Ao mesmo tempo, evitavam falar diretamente sobre sua fobia ou o que a tinha causado.

– O corpo não importa, se a mente está livre, estou livre. – Sakura disse para si mesma para terminar a meditação daquela manhã de segunda-feira.

Tomou banho e seu café da manhã. O tempo inteiro as paredes pareciam dar indicio de se mover, porém paravam toda vez que Sakura virara os olhos para elas. Seu mantra repetia-se em sua mente o tempo inteiro, para manter-se calma.

Sua mãe, Yoko, não trabalhava – vivia da pensão do falecido marido e do que Koen dava como ajuda – e por isso tentava o máximo possível fazer companhia a Sakura, que sempre se sentia melhor se havia mais alguém com ela no mesmo ambiente.

Contudo, às vezes, a moça se sentia sufocada com toda essa atenção; quando isso acontecia, ela andava pela rua; ia a mercearias e outros comércios, a praças, onde se sentava para alimentar pombas. Seu lugar favorito, porém, era o Palácio Imperial de Kyoto. Adorava os amplos espaços, o lago, o palácio em si que, sendo gigantesco como era, não afetava sua claustrofobia – mesmo antes das meditações fazerem efeito; gostava de andar entre as árvores – secretamente, dizia a si mesma que estava praticando para enfrentar a Tadasu no Mori. Mas principalmente, gostava de ver os turistas do mundo inteiro, especialmente as mulheres loiras de olhos claros.

Disse a sua mãe e irmão que iria passear um pouco e deixou a casa antes que qualquer um dos dois pudesse se manifestar para acompanhá-la. De todas as vezes que tentou nos últimos três dias, Sakura não conseguiu passar da ponte Aoibashi. Respirou fundo, parada na calçada, a um passo para entrar na ponte, sem se importar com as pessoas que a olhavam.

Então, deu o primeiro passo.

A Floresta da Correção era um solo sagrado associado com um importante santuário Shinto conhecido como Kamo-jinja, o qual muitas pessoas acreditam proteger Kyoto de forças malignas. Eles não estavam errados, mas também não estavam certos.

De fato, a Tadasu no Mori era um catalisador de forças malignas, afinal, fora ali que as oito sombras foram vistas pela primeira vez após a tempestade, e onde Za'an esteve pela última vez. Sakura também conhecia muitas histórias que datavam de milhares de anos, sobre guerras e suas consequências, mortos que voltavam a vida, seres místicos que apareciam e desapareciam. Incontáveis histórias passadas de geração em geração para assustar crianças. Sakura se perguntava quantas delas eram verdadeiras, afinal, ela mesma tinha vivido uma daquelas histórias.

A floresta estava exatamente como Sakura se lembrava. Havia algumas ruas fabricadas com cimento, sobre a qual era mais comum as pessoas passearem. Havia também trilhas que levavam para mais fundo no matagal, as quais apenas os jovens usavam para fumar e se relacionar longe das vistas dos adultos ou da polícia. Claramente, Sakura tinha que seguir pela trilha.

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